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Dilma deve provar que não é ‘Lula de batom’

Revista britânica The Economist analisa vitória e desafios da próxima presidente do Brasil

Dilma deve provar que não é ‘Lula de batom’
Graças ao apoio de Lula, Dilma se tornou a primeira presidente eleita no Brasil (Fonte: EPA)

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Impedido pela Constituição de concorrer à presidência pela primeira vez desde 1989, Lula brincou em março, dizendo que driblaria o empecilho mudando seu nome para Dilma Rousseff e se apresentando como candidato. A estratégia funcionou. Graças ao seu apoio, a ex-chefe da casa Civil venceu o segundo turno no dia 31 de outubro e se tornou a primeira presidente eleita no Brasil, derrotando José Serra, do PSDB, por 56% a 44%. Agora Dilma, que nunca esteve em um cargo eletivo antes, terá que mostrar se é apenas uma testa-de-ferro de Lula, ou uma líder com independência.

Desde a eleição, a futura presidente buscou assegurar ao país que dará continuidade ao governo anterior. Quando Lula foi eleito em 2002, investidores se livraram de ativos brasileiros, temerosos de que o ex-agitador socialista se livrasse das políticas macroeconômicas ortodoxas de seu antecessor. Lula, no entanto, as manteve, criando a estabilidade necessária para o crescimento do país.

Dilma enfrenta preocupações semelhantes. Pertenceu a grupos guerrilheiros que combateram o regime militar nos anos 1960, e vem de uma ala do PT que defende com forças uma política industrial estatal e intervenções na economia. A maioria de seus eleitores veio de regiões pobres como o Norte e o Nordeste, e seus financiadores mais leais no sul do país estão em empregos governamentais. A maioria dos brasileiros ricos e com maior grau de escolaridade, juntamente com trabalhadores do setor privado, votou em Serra. O mapa abaixo apresenta a divisão dos eleitores entre os estados brasileiros.

Para dar algum conforto a esses grupos, ela descreveu seus planos econômicos no dia seguinte ao resultado das eleições e assegurou que “não criará confusões”. Mas seu escasso currículo deve fazer com que suas escolhas ministeriais sejam submetidas a um escrutínio minucioso. Investidores esperam que ela convença Henrique Meirelles, presidente do Banco Central durante a era Lula, a permanecer no cargo. Outra que receberá atenção redobrada será Antônio Palocci, que — como primeiro-ministro da Fazenda do governo de Lula — coordenou a adoção das políticas de mercado, e que é parte da equipe de transição de Dilma. Se ela o escolher para ocupar a Casa Civil ou mesmo para retornar ao Ministério da Fazenda, sua relação com o setor empresarial irá crescer enormemente. Se ele for deslocado para a saúde ou a educação, eles se manterão céticos.

Uma vez que ela assuma o cargo em 1º de janeiro, os críticos provavelmente se concentrarão em uma área em que uma postura diferente da apresentada por Lula será bem vinda: o controle dos gastos públicos. Apesar da enorme arrecadação tributária, o governo só equilibrará suas finanças em 2010 graças a vendas de concessões da exploração de petróleo e à criatividade de seus contadores. Desde a eleição, Dilma prega a responsabilidade fiscal. Por outro lado, ela também defende novos gastos com a população mais pobre do país.

Para manter ambas as promessas, Dilma terá que se livrar dos excessos em partes do orçamento que Lula deixou intocadas, como a previdência pública. Mas combater esses benefícios irritaria sua base e os sindicatos, que ainda representam uma força considerável dentro do PT. “É difícil encontrar algum indício de que ela realmente fale sério sobre aumento na disciplina fiscal”, diz Mauro Leos, da agência de rating de crédito Moody’s.

No papel, se Dilma decidir que está pronta para lutar por seu governo, ela terá mais chance de ser bem-sucedida que Lula. Ao contrário de seu antecessor, ela comandará uma coalizão que mantém a maioria de 3/5 em ambas as câmaras do Congresso, necessária para realizar alterações na Constituição. O PT também conseguiu mais governos estaduais do que na era Lula, e embora a vitória de Dilma tenha sido por uma vantagem menor que a de Lula, os números de sua vitória fortalecem seu mandato.

Ainda assim, a presidente terá dificuldades de impor sua vontade à base aliada e a seu partido. O PT devia sua posição no governo a Lula, e sabia disso. Mas Dilma está em débito com aqueles que a ajudaram a chegar ao poder, e sem um líder maior que o partido, os socialistas ferrenhos do PT terão mais chances de entrar em atrito com os reformistas social-democratas. Além disso, Dilma não tem experiência nas negociações partidárias. O PMDB, um grupo de barões regionais, que foi o maior aliado do PT nas eleições, deverá tentar tirar proveito dessa inexperiência para satisfazer seu apetite por ministérios onde muito dinheiro é gasto, e que atendam aos seus interesses pessoais, ainda que tenha perdido cadeiras no Congresso.

O homem que pode ajudá-la a ultrapassar esses obstáculos é Lula. Ele diz que desaparecerá nos bastidores, mas isso é pouco provável: notas sobre seus favoritos entre os nomes estudados por Dilma para a equipe ministerial já apareceram na imprensa.

Por enquanto a presidente eleita está levando a situação com graciosidade. “Baterei com frequência em sua porta e sei que sempre vou encontrá-la aberta”, disse Dilma em seu discurso após a vitória. Mas permitir que Lula se sente atrás do trono criará um precedente ruim – há um motivo para que o Brasil tenha limitado as reeleições. Dilma terá que convencer os receosos de que ela não é simplesmente Lula de batom.

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Fontes:
Economist - Brazil's next president: Stepping into outsize shoes

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10 Opiniões

  1. Markut disse:

    As dúvidas e interrogações são totais.
    O que resultará do entrechoque entre muitas e angustiantes incógnitas, é imprevisivel, pelo menos nesses próximos 3 meses , após a posse.
    Mas, pelos sinais até o momento disponiveis, não é de se esperar algo muito confortador.
    Lembrar que estamos carregando nas costas, como sociedade, um vergonhoso índice IDH, e isso diz tudo.

  2. Adjair Alves disse:

    Vai dá certo!

  3. JORGE TERRA NACER disse:

    DESAFIO DE DILMA TORNAR O BRASIL UM PAÍS UTOPICO, SOCIALISTA, MAS ISSO É COISA FACIL, QUERO VER ELA TRANSFORMAR UM PAÍS SOCIALISTA EM CAPITALISTA.

  4. Téka Assunção disse:

    A perfeição no meio político não existe. E a Presidente ainda é uma incógnita. Mas nós brasileiros, estamos de olhos bem abertos. E ao sinal do menor deslize, tomaremos as providências cabíveis. É triste o índice do IDH.
    Abços,
    Téka

  5. ÍTALA disse:

    Lula foi um presidente capaz, tenho certeza que a ajuda dele será necessária, não importa quem são os responsáveis, o que importa é o que se fez e se faz para melhorar o Brasil e seguir somando.

  6. ÍTALA disse:

    SERRA no ministério da saúde, ele é o mais brilhante para esse cargo!

  7. Paulo Fernando disse:

    Se vai dar certo não sabemos,
    Deixe a Dilma assumir, não podemos fazer previsão daquilo que não se sabe. O que podemos desejar é boa sorte para ela e o Brasil.

  8. frambell disse:

    A Excelentíssima Presidenta eleita da República Federativa do Brasil, senhora Dilma Rousseff.
    Prezada Senhora,
    Embora os mais céticos tenham alguma dúvida sobre como será o seu desempenho como chefe do governo brasileiro, pelo menos os 56% que a elegeram acreditam na sua capacidade, demonstrada durante o governo Lula. Eu me incluo entre os que acreditam no sucesso do Brasil, sob seu comando. Entre os céticos estão, também, alguns temerosos, por conta do seu passado de militante política. Talvez seja este um dos motivos que me fazem acreditar na senhora.
    A história registrou o seu passado de militância, como o fez com tantos outros brasileiros que também passaram por isso sem, no entanto, registrar sequer uma ação desabonadora, praticada pela senhora. Ainda que tivesse, quem conseguiria controlar o ímpeto de uma adolescente obcecada pela paixão por seu país, na ânsia de realizar um ideal? Quem dera todo jovem sonhasse tão grande por sua pátria.
    A senhora não teve a sorte de ser exilada para minimizar o sofrimento. Mas o Brasil teve a sorte de recebê-la entre sua gente, ainda, que ferida, mas livre, não apenas, testemunhando um momento tão delicado da nossa história, a qual ajudou a escrever. Mas vivendo o sonho e o desespero da alma em fogo e pranto; tentando se libertar dos fantasmas do ódio e do desespero. Entretanto, preservou íntegra a dignidade e a capacidade de sonhar.

    Esta é a mistura ideal para forjar a têmpera dos fortes, cujo caráter jamais será desvirtuado ou corrompido, mas eticamente exposto às gerações atuais e futuras, qual galardão exibido orgulhosamente como prova inequívoca de bravura.
    Um exemplo a ser seguido como estímulo à preservação do amor e do respeito à pátria, guardiões dos bens inalienáveis, como a paz e a liberdade. Os heróis, assim como as heroínas, sempre direcionaram suas ações, não no sentido de provar que estavam certos, mas para mostrar sua grandeza de espírito ao superar os obstáculos e realizar concretamente o que foi sonhado. Em que pese sonhar entre os pesadelos de noites mal dormidas, e o desespero de buscar o seu futuro, o destino a esperava pacientemente.
    Logo ali, postado fora do pequeno espaço entre as grades da prisão, como se fora um noivo apaixonado, abrindo os braços no momento certo abraçou-a com o cuidado de quem protege a mulher amada, levando-a nos braços para curar as feridas do seu coração.
    Dizer ser a senhor a versão Lula de saia e batom, não é nem de longe desabonador, e nem diria que fora dita com tal intenção. É, apenas, uma feliz projeção de como o estilo do seu governo será focado em toda a nação, com políticas específicas para cada segmento social, só que com beleza e sensibilidade femininas.
    Manter o crescimento, reduzir os gastos públicos ao mesmo tempo em que ataca os principais problemas, tais quais, saúde, educação, segurança, entre outros é, sem dúvida, um bom começo, sinalizando para a produtiva sequência, porém, com grife diferente. Que não dispensa um retoque no batom, sempre que se fizer necessário.
    Ninguém conhece a dinâmica do governo melhor que a senhora. Além disso, conhece o Brasil e suas potencialidades, à medida certa para superar as necessidades da nação.
    Pode caprichar na vaidade diante dos espelho e na pose de presidente. As mulheres e os homens, especialistas em brasilidade e em charme feminino na administração federal, não darão trégua à senhora.
    Como diz a sabedoria do rei Salomão. Este é o seu tempo ideal.
    Existe um tempo próprio para tudo.
    E há uma época para cada coisa debaixo do céu:

    Um tempo para nascer e um tempo para morrer;
    Um tempo para plantar e um tempo para colher o que se semeou;

    Um tempo para matar, um tempo para curar as feridas;
    Um tempo para destruir e outro para reconstruir;

    Um tempo para chorar e um tempo para rir;
    Um tempo para se lamentar e outro para dançar de alegria;

    Um tempo para espalhar pedras, um tempo para juntá-las;
    Um tempo para abraçar, e um tempo para afastar-se;

    Um tempo para procurar e outro para perder;
    Um tempo para armazenar e um para distribuir;

    Um tempo para rasgar e outro para coser;
    Um tempo para estar calado e outro tempo para falar;

    Um tempo para amar, e um tempo para odiar;
    Um tempo para a guerra, e um tempo para a paz.
    Tenha muita sorte na sua árdua tarefa de administrar o Brasil, um dos maiores paises do mundo.
    O Estado é laico, presidente Dilma, mas Deus é tudo.
    Frambell Carvalho.

  9. patricia mozer/ANGOLA-LUANDA disse:

    Cada um é o que é ninguem consegue trabalhar só, cada um busca um pouco do outro, Dilma neste momento vai precisar trabalhar com pessoas experientes em cada áreas.
    Dilma força ao trabalho Deus será também o teu auxilio.

  10. Geraldo euclides disse:

    Estão todos eufóricos, deslumbrados,ansiosos pela salvadora da pátria; o adjair alves está dizendo: Vai dar certo! belo otimismo! mal começou já estão especulando no famigerado CPMF que melhorou a saúde das mordomias parlamentares nada mais, quais hospitais públicos que melhorou? eu comprei um plano de saúde, embora sendo militar reformado e tenho direito ao meu hospital que é só para militares, mas devido o aumento de pacientes e não quero entrar em longas filas o jeito é: Plano de Saúde!

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