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É hora de Israel negociar com o Hamas

Libertação de Gilad Shalit aponta para novo momento nas relações entre o governo de Binyamin Netanyahu e grupo palestino. Por Efraim Halevy*

É hora de Israel negociar com o Hamas
Libertação de Gilad Shalit (esq.) pode ser um marco nas relações entre israelenses e palestinos

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Por mais de um quarto de século, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu prometeu, de maneira ousada e decidida, tanto em textos quanto em discursos, que não faria nenhuma concessão aos terroristas. Agora, de uma única vez, com a libertação de Gilad Shalit, todas suas promessas foram por água abaixo. Netanyahu vive um momento de importância sem igual, de liderança histórica e decisiva.

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Mas a razão dada por Netanyahu para justificar sua decisão, a de que “as circunstâncias haviam mudado” indica uma ansiedade consideravelmente maior. De fato, a frase é marcada pela passividade e pela sugestão de que Israel estava reagindo às mudanças na região. A pergunta do momento não é o que motivou Israel a negociar, mas sim, se essas negociações serão capazes de motivar Israel. Sim, “as circunstâncias mudaram”, mas é mais importante considerar o papel que Israel deve desempenhar na formação das circunstâncias futuras.

Nos últimos dez meses mudanças estratégicas radicais abalaram o Oriente Médio, e enfraqueceram as posições de todas as figuras da arena política. O Hamas teve que lidar com uma série contratempos, e sua sede em Damasco se tornou extremamente vulnerável à turbulência política que toma conta da Síria. O grupo se viu na delicada posição de ter que fazer uma escolha entre seu patrocinador, Bashar Assad, e os sunitas, que se rebelaram contra o ditador sírio, e com quem eles compartilham crenças religiosas. Enquanto isso, Teerã parece ter perdido seu interesse no Hamas: filmes iranianos ainda chegam até a Faixa de Gaza, mas o mesmo não acontece com a ajuda financeira iraniana, o que deixou o Hamas impossibilitado de pagar os salários mensais de muitos de seus militantes.

O governo do exército egípcio, por sua vez, está delicadamente se ajustando à era pós-Mubarak, mediando as conversas entre as massas da Praça Tahrir e a agora legalizada Irmandade Muçulmana. Ansioso para retomar seu papel de liderança no mundo árabe, o Cairo ficou contente em ser importante na negociação para a libertação de Shalit.

Já a Autoridade Palestina, comandada por Mahmoud Abbas, que – após comandar uma campanha anti-Israel e antiamericana para driblar as negociações diretas com Israel, e obter reconhecimento da ONU para o Estado palestino – tem sofrido com a rejeição de seus padrinhos financeiros em Washington, e de seu poderoso vizinho.

A mudança de papel dos Estados Unidos na região também fez diferença. Apesar de sua longa oposição às negociações, o governo em Washington pode ter visto o momento atual como uma boa chance de permitir uma repreensão leva a Abbas, em resposta a sua busca pelo reconhecimento da soberania palestina na ONU, que foi iniciado contra a vontade dos Estados Unidos, e que o governo em Washington prometeu vetar assim que o pedido seja votado no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

E por fim, há Israel, que teve que suportar uma série de contratempos no Oriente Médio, entre eles, uma crise nas relações com seu aliado de longa data, a Turquia; uma renovação do pacto entre o Hamas e a Fatah, uma maldição que persegue o governo de Israel, e uma recente turbulência com o Egito, que culminou com o ataque à embaixada israelense no Cairo. Jerusalém estava cada vez mais necessitada de uma nova estratégia, que dê fim à marginalização crescente na região.

A negociação envolvendo a libertação de Shalit surgiu das mudanças sofridas por essas cinco figuras. Apenas Mahmoud Abbas foi isolado durante a negociação, e sua primeira reação foi ligar para Khalid Mashal, líder do Hamas, e agendar um encontro com ele.

Os envolvidos agora deverão determinar se isso permanecerá como um evento isolado. O Hamas já indicou que gostaria de explorar a possibilidade de negociações maiores e mais amplas no futuro. Figuras centrais do Hamas criaram uma campanha pública, que se espalhou por todo o país, oferecendo a possibilidade de abandonar inteiramente o terror e a violência, e as aparições públicas de Mashal no Cairo foram especialmente diplomáticas e de caráter humanista.

Claramente, o Hamas gostaria que mais prisioneiros fossem liberados, e um fim ao embargo à Faixa de Gaza. Mas o que o que o grupo ainda tem que sugerir é o que irá oferecer em troca. Irá o Hamas apostar na bem-sucedida captura de soldados israelenses? (Evidências indicam que essa é uma possibilidade. Os prisioneiros palestinos liberados foram recebidos em Ramallah, a sede da Autoridade palestina, como gritos de “Queremos outros Shalits”). Ou irá o Hamas abandonar seu terrorismo em nome da política. Além disso, como reagirão os outros envolvidos em um cenário como esse?

A grande tragédia acontecerá se essas questões permanecerem meramente especulativas. Israel agora tem uma oportunidade de ouro para refazer sua estratégia e renovar suas metas diplomáticas para que se adequem às novas realidades regionais. Agora não é mais possível se contentar apenas com a exclusão do Hamas – que vem lutando para agir e ser aceito como uma força política legítima –, e o governo de Israel terá que ponderar se será capaz de negociar apenas com a Autoridade Palestina. Se é à libertação de prisioneiros que os palestinos respondem, ainda há milhares de palestinos nas cadeias israelenses, incluindo figuras de liderança da Fatah e do Hamas, que podem ser objeto de futuras negociações.

A triste verdade é que se Israel não aproveitar essa chance, se tratar a libertação de Shalit como um evento isolado e irrelevante para o processo político, já poderemos adivinhar como tudo terminará: o Hamas irá concluir que não tem opção, a não ser o retorno a suas velhas táticas, e possibilidade de uma revisão da ordem regional será adiada, num cenário em que todos sairão perdendo. Netanyahu disse ter encerrado o impasse sobre a libertação de Shalit porque, nas suas próprias palavras, sentiu que poderia não ter outra chance. Com certeza ele não deve se esquecer das amargas lições da história, que mostram que as circunstâncias podem sempre mudar, mas às vezes, para pior.

* Chefe do Centro de Estudos de Política Estratégica da Universidade Hebraica de Jerusalém. Halevy chefiou o Mossad entre 1998 e 2002, e é o autor de Man in the Shadows: Inside the Middle East Crisis with a Man who Led the Mossad.

Fontes:
The New Republic - This Should Be the Beginning, Not the End, of Israel’s Negotiations With Hamas

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