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Egito pode seguir caminho da Indonésia

Protestos no Cairo se assemelham a manifestações que retiraram Suharto do poder em 1998

Egito pode seguir caminho da Indonésia
A onda de protestos continua no Egito. Manfestantes pedem a saída de Mubarak (fonte:NYT)

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Enquanto os protestos pró-democracia no Egito entram em sua terceira semana, e a permanência do presidente Hosni Mubarak no poder parece enfraquecer a cada dia, alguns especialistas afirmam que talvez seja cedo demais para celebrar. “Já vimos esse filme antes”, dizem eles, usando como exemplo a Revolução Iraniana de 1979, quando manifestantes derrubaram uma autocracia apoiada pelos Estados Unidos, e em seguida a viram substituída por uma teocracia comandada pelo Aiatolá Khomeini, um inimigo do Ocidente. Isso é verdade, mas nem todos os movimentos de protesto terminam mal. A Indonésia, a país de maior população muçulmana do mundo, oferece um precedente mais otimista.

As cenas que se multiplicaram na Praça Tahrir, no Cairo, não são tão diferentes daqueles que ocorreram em Jacarta em maio de 1998: milhares de manifestantes, a maioria deles, estudantes de classe média, ocuparam o enorme complexo do Parlamento para exigir a renúncia de Suharto, que comandou o país numa ditadura que durou 32 anos – quase o mesmo período que Mubarak se mantém no Egito (antes de se aliarem aos Estados Unidos por influência de Sadat e Suharto, o Egito e a Indonésia eram dos quatro membros fundadores do Movimento dos Países Não Alinhados). Cercadas por soldados, mulheres em hijabs protestaram ao lado de seus colegas homens, gritando slogans anti-Suharto, denunciando “corrupção, conspirações e nepotismo”, e pedindo democracia plena. A crise monetária asiática derrubou a crescente economia do país, e o preço dos bens básicos disparou.

O povo da Indonésia, em 1998, assim como os atuais manifestantes da Praça Tahrir, tiveram o suficiente. Em Jacarta, os manifestantes conseguiram o que queriam: Suharto resistiu a princípio, mas deixou o cargo quando ficou evidente que ele tinha perdido o apoio do exército, entregando o poder a seu vice B.J. Habibie. Um ano depois, em junho de 1999, o país teve suas eleições mais livres em um período de 40 anos, dando início a um período de reformas constitucionais de longo prazo, que moldaram a Indonésia dos dias atuais, que se não chega a ser uma democracia perfeita, é um dos melhores exemplos de governo liberal ao estilo ocidental do mundo muçulmano, chegando até mesmo a ser apontada por membros do governo norte-americano como exemplo a ser seguido pelos governos árabes do Oriente Médio.

Não faz tanto tempo, os Estados Unidos estavam promovendo o anticomunista Suharto da mesma forma como apoiaram Mubarak. Eles certamente o consideraram mais fácil de lidar que seu antecessor, Sukarno, que tratava os interesses comerciais em seu país com o mesmo respeito que Gamal Abdel Nasser, o presidente egípcio que nacionalizou o canal do Suez.

No fim dos anos 1990, a transição da Indonésia da ditadura para a democracia estava longe de estar assegurada. Três décadas de governo repressivo deixaram suas marcas na sociedade civil. O Golkar, o partido político patrocinado por Suharto teve um alcance jamais atingido pelo Partido do Desenvolvimento Unido (UDP) ou o Partido Democrático da Indonésia (PDI), os outros partidos tolerados pelo regime para disfarçar o controle sob o Parlamento. Com exceção do Golkar, apenas outras duas organizações receberam algum apoio na época: Nahdlatul Ulama (NU) e Muhammadiyah, ambas organizações muçulmanas de massa fundadas mais ou menos ao mesmo tempo que a Irmandade Muçulmana do Egito e conduzindo programas semelhantes de bem-estar social.

Quando os indonésios foram às urnas em 1999, cerca de 56% deles votaram em partidos seculares, com o sucessor do PDI, o PDI-P, urgindo como o maior partido no parlamento, com 33,7% dos votos. O Partido do Despertar Nacional (PKB), ligado à NU, teve mais votos que qualquer outro partido religioso, mas recebeu apenas 12, 6% dos votos. Eventualmente, seu fundador, Abdurahman Wahid, se tornou presidente – como resultado de uma confusa troca de favores na coalizão – mas dividiu o poder com o PDI-P, e seu governo comandou a democratização da Indonésia.

Os paralelos entre a Indonésia dos anos 1990 e o Egito de hoje podem ser um exagero. E, sem dúvida, a transição da Indonésia rumo à democracia foi traumática: A existência do país como uma nação unificada foi questionada pela sangrenta separação do Timor Leste, e por ondas de chacinas étnicas, religiosas e separatistas, que se espalharam por Aceh, Kalimantan, Sulawesi e Maluku. Mas, num momento em que os protestos do Egito estão destinados a ser surrupiados por temíveis extremistas religiosos, é importante lembrar que há exemplos mais inspiradores das conquistas dos protestos populares. A Indonésia é um deles.

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Fontes:
Economist - Remember 1998

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