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DISPUTA ACIRRADA

Eleições de 2020 testarão reorganização da esquerda e força da onda conservadora

Novas regras eleitorais levam partidos a rever estratégias; legenda do clã Bolsonaro não deverá ser criada a tempo para a disputa

Eleições de 2020 testarão reorganização da esquerda e força da onda conservadora
Nos bastidores da política, os partidos já se organizam (Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil)

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É uma obviedade dizer que as eleições municipais, realizadas sempre dois anos antes da disputa pelo Planalto & Congresso, apontam os rumos dos partidos na construção de alianças e estratégias eleitorais em nível nacional. Desde a redemocratização tem sido assim, mas o pleito de 2020, inserido no contexto de crise democrática em que o Brasil e parte considerável do mundo se encontram imersos, conta com elementos inéditos.

Estarão proibidas, na eleição para vereadores, as coligações partidárias – o que, como no caso do deputado federal Tiririca (PL), resultava as vezes em que um candidato muito bem votado elegia consigo candidatos de partidos coligados que quase nunca comungam da mesma ideologia. Proibidas estão, também, as doações de empresas para partidos – para compensar a escassez de recursos privados, a Câmara aprovou um aumento no fundo eleitoral, que chegará no ano que vem a R$ 2 bilhões.

Combinadas, as duas regras estimulam os partidos a lançarem o máximo de candidatos para Prefeitos, uma vez que sem um nome forte disputando o cargo principal do município a capacidade de eleger vereadores fica prejudicada. E em se elegendo poucos vereadores, diminui-se a fatia a receber do fundo eleitoral, num ciclo vicioso que, no limite, levará à extinção dos partidos nanicos.

Mas para além das novidades legais, o pleito de 2020 poderá fornecer, sobretudo nas capitais, respostas para questões que afligem os que se preocupam com a qualidade da democracia brasileira: a onda conservadora em que surfou o clã Bolsonaro refluirá, ou se manterá vigorosa? Os partidos progressistas serão capazes de se unir? O centro sairá do campo das ideias, projetando-se eleitoralmente?

As regras que passam a valer em 2020 condicionarão, em parte, as respostas para estas perguntas. Incitados a lançar candidatos às Prefeituras, os partidos não deverão, a princípio, abrir mão de encabeçar as chapas: a união da esquerda, da direita ou do centro deverá ocorrer, na maior parte dos casos, somente no segundo turno.

Reorganização no tabuleiro político

Do lado direito – mais especificamente, do extremo-direito -, as condições para a união já não são as mesmas de 2018. Isso porque Jair Bolsonaro brigou com muitos daqueles que foram seus aliados: Wilson Witzel (PSC) e João Doria (PSDB), governadores do Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente, são alguns dos casos mais emblemáticos.

Além disso, pouco menos de um ano depois de se filiar ao PSL para disputar a Presidência, Bolsonaro abandonou o partido, e “saiu atirando”: criticou Joice Hasselmann, apontada como possível candidata a Prefeitura de São Paulo, e Alexandre Frota (PSDB), entre muitos outros.

A nova legenda do presidente, a “Aliança Pelo Brasil” dificilmente sairá do papel a tempo para entrar na disputa eleitoral, apesar da solicitude de igrejas evangélicas e até de instituições militares em auxiliar os Bolsonaros na coleta de assinaturas necessária para se fundar o partido.

Embora isso não impossibilite que Bolsonaro empreste sua popularidade a seus candidatos preferidos, o impasse causa constrangimento na disputa. É o caso de Porto Alegre, onde três pré-candidatos aguardam o apoio presidencial: o secretário estadual e Desenvolvimento, Ruy Irigaray, o deputado estadual Tenente Zucco, os dois do PSL, e a vereadora Comandante Nádia (MDB). Sem poderem filiar-se à “Aliança”, terão o apoio do presidente? A pergunta desnorteia sobretudo Irigaray e Zucco: permanecendo no PSL, poderão vincular sua candidatura a Bolsonaro, abertamente rompido com o partido? Situação semelhante se repete em diversas cidades.

À esquerda, a aposta é que o desgaste do governo em seu primeiro ano e a reorganização dos partidos, com a formação de “frentes amplas” em algumas capitais, ajude a abrandar o antipetismo. Novamente, a proibição de coligações nas eleições proporcionais, e o consequente estímulo ao lançamento de candidaturas para as prefeituras, pode frear a criação dessas frentes. Ainda assim, a expectativa é de que o PT apoiará Marcelo Freixo (PSOL) no Rio de Janeiro e Manuela D´Ávila (PCdoB) em Porto Alegre, em uma tentativa de derrotar candidatos conservadores e lançar pontes para uma aliança ampla em 2022.

Mas não só em petistas e antipetistas se divide o eleitorado. O cientista político Cesar Zucco, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, estima que 50% dos eleitores não se vincula a nenhum dos dois grupos. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, ele afirmou que será a economia, e não as paixões partidárias, que determinarão o voto desse grupo.

“O que essas pessoas pensam e querem, como se alcança essas pessoas, não está claro. Os partidos não têm uma ligação fácil com essas pessoas. Eles não estão na igreja, não estão nos sindicatos, não são trabalhadores formais… Muito provavelmente o que determina [o voto] é a economia. Imagina-se que se a economia está melhor eles votam com o governo, se está pior votam contra o governo”, disse.

Já em 2018, candidatos que se autodeclaram centristas tentaram, sem sucesso, seduzir essa fatia do eleitorado. A disputa pela prefeitura de São Paulo servirá de termômetro para medir a força do “centro”. Bruno Covas (PSDB), que herdou a prefeitura do direitista João Doria, vem se distanciando do ex-prefeito e atual governador, e já afirmou que, ao contrário de seu ex-mentor, “não faz carreira em cima do antipetismo”. Ele deve disputar a prefeitura contra o apresentador Luiz Datena, que, caso saia candidato, receberá o apoio e Bolsonaro. Pela esquerda, Eduardo Suplicy (PT) ensaia candidatar-se.

Frente a capacidade do atual governo em produzir crises diárias, as eleições de 2020 podem parecer distantes. Nos bastidores da política, contudo, os partidos já se organizam, tendo em conta que o futuro do petismo, antipetismo, bolsonarismo e da possível materialização do centro dependem, em parte, dos resultados de outubro do ano que vem.     

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