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França

Fahim Mohammed, 11 anos: imigrante ilegal e campeão de xadrez

Mesmo sendo considerado um prodígio do xadrez por seu treinador, filho de refugiado político estava prestes a ser expulso da França. Uma reportagem de revista pode mudar tudo. Por Bolívar Torres

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A história é real, mas parece um conto moderno. Uma fábula que ilustraria os últimos cinco anos da política de imigração de Nicolas Sarkozy. Ao ser eleito, em 2007, o presidente francês disse que iria apostar numa “imigração positiva”, permitindo apenas a migração de pessoas competentes, que pudessem acrescentar ao país. A intenção, contudo, não se aplicou ao garoto Fahim Mohammed, filho de um refugiado político de Bangladesh. Aos 11 anos, ele acaba de se tornar campeão nacional de xadrez. Dono de um talento raro e considerado uma promessa do jogo por seu treinador o menino não tem documentos franceses nem domicílio fixo e teve seu pedido de regularização negado pelo governo francês.

Contada pela revista Les Inrockuptibles, a trajetória de Fahim sensibilizou a opinião pública, obrigando o primeiro-ministro francês, François Fillon, a rever a atitude do governo. Pressionado, o líder do ministério disse que irá cuidar do assunto. “Se ele é um campeão de xadrez, merece que seu caso seja observado com a maior atenção”, disse Fillon nesta sexta-feira, 4, em um programa de rádio. “E não iremos esperar as eleições presidenciais para fazê-lo. Iremos fazer desde hoje”.

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Por seu atraso, é difícil não ver oportunismo e demagogia no gesto do ministro. Antes que a imprensa divulgasse a história, o pequeno Fahim e seu pai haviam recebido um “não” categórico das autoridades francesas. O pai do garoto, Nura Alam, fazia parte do clã que perdeu as eleições em Bangladesh; ameaçado, fugiu com o filho para a França em 2008. Já são mais de quatro anos vivendo em situação irregular no país, vagando entre abrigos sociais e até mesmo barracas.

Descoberto por um treinador depois de, aos oito anos, vencer um campeonato de xadrez contra concorrentes de até 20 anos, Fahim achou que teria uma chance de ter sua permanência aprovada no país. Mas, apesar da ajuda da Federação Francesa de Xadrez, teve seu pedido recusado por órgãos de proteção aos refugiados. Nesses casos, quando um pedido de permanência é rejeitado definitivamente, os refugiados perdem todo o apoio, incluindo o direito de permanecer em centros de ajuda. O prodígio do xadrez só não acabou indo viver na rua graças ao apoio de amigos do seu clube de xadrez. Fahim dorme atualmente na casa de famílias próximas dos clubes enquanto seu pai reside num quarto emprestado depois de um apelo na internet.

“O ano em que íamos de abrigo em abrigo, tive dificuldade de me concentrar. Fiquei apenas em sétimo no campeonato francês”, contou Fahim à Les Inrockuptibles. No último dia 21 de abril, contudo, o garoto foi campeão do campeonato nacional de aspirantes, o que, automaticamente, deveria lhe garantir uma vaga na seleção francesa de xadrez. Como sua situação não está regularizada, porém, Fahim não pode ser inscrito, pois, sem passaporte europeu, está impedido de viajar para outros países durante os torneios europeus.

Mesmo com os esforços de seu pai, das organizações e até mesmo de deputados do Partido Socialista, que multiplicaram cartas e petições, o Ministério da Imigração francês se limitou a responder, através de uma carta, que “sua situação depende dos critérios da entrega de um visto de permanência em um outro fundamento que o asilo”. Foi preciso uma reportagem na imprensa para que o governo mudasse de ideia – e o primeiro ministro em pessoa prometesse se ocupar de seu caso.

Fontes:
Les Inrockuptibles - Fillon s’engage à régler la situation du jeune champion d’échecs sans papier
Les Inrockuptibles - Fahim, 11 ans, sans papier et champion de France d’échecs

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