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Polêmica

Índia ressuscita polêmica sobre ‘Os Versos Satânicos’

Viagem de Salman Rushdie à Índia é usada por partidos políticos que acusam governo de negligenciar minoria muçulmana do país

Índia ressuscita polêmica sobre ‘Os Versos Satânicos’
Salman Rushdie: autor britânico é alvo de políticos muçulmanos na ìndia

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Ainda é surpreendente notar como é fácil gerar polêmica na Índia sobre Os Versos Satânicos, o livro de Salman Rushdie. O escritor deve visitar o Festival Literário de Jaipur no meio do mês, e sua viagem coincide com o auge da campanha eleitoral em Uttar Pradesh, o maior estado do país. A competição pelos holofotes televisivos é intensa, e um político da região, Sultan Ahmed, está criticando a visita de Rushdie, que ele diz ser “um autor famoso por ferir os sentimentos religiosos dos muçulmanos” e pediu ao governo indiano que o proíba de entrar no país. Não importa que Jaipur fique em outro estado, que ele tenha visitado a Índia em uma série de outras ocasiões no passado, ou que ele nem mesmo precise de um visto.

Então porque a polêmica em torno de Rushdie é uma arma política tão eficaz? Porque ela ilustra a frágil relação do Partido do Congresso, que está no poder, com a grande e importante população muçulmana da Índia. Pratap Bhanu Mehta, um colunista do Indian Express, escreveu uma crítica devastadora, na qual ele acusa o Partido do Congresso de não se mover para melhorar as relações com as comunidades dalit e muçulmanas, ao mesmo tempo em que se apresenta como um partido ligado às minorias e como o único verdadeiro defensor dos valores seculares da Índia. “O partido perpetua a ideia das minorias como categorias políticas, para mantê-las em seu lugar e usá-las”, afirmou Mehta.

O Partido do Congresso somente conseguiu fazer isso por tanto tempo porque seu único rival no cenário nacional é o Bharatiya Janata, um partido nacionalista hindu, cuja ideologia de fundação vai de encontro aos valores da maioria dos muçulmanos. Mas no cenário regional, o Partido do Congresso perdeu espaço para uma série de outros partidos, incluindo o de Ahmed, que mobilizaram muçulmanos nos estados ao garantir aquilo que o Partido do Congresso não conseguiu: serviços básicos e verdadeira influência política.

Também é significativo que – ao invés de buscar uma posição forte na defesa da liberdade de expressão de Rushdie ou mesmo combater críticas como a de Ahmed, que não passam de distrações que desviam a atenção de problemas mais importante que assolam a comunidade muçulmana – o Partido do Congresso tenha preferido o silêncio. “Essa questão é assunto do governo da Índia, e cabe a ele tomar uma decisão”, diz Rashid Alvi, porta-voz do Partido do Congresso, que pode ser o maior dos partidos de sua coalizão, mas que, sobre esse assunto, não tem qualquer influência, e que não vê qualquer benefício político nessa discussão. Se sair em defesa de Rushdie, o partido dará credibilidade à absurda afirmação do BJP de que Rushdie irá ao país convidado pelo Partido do Congresso. “Por que o partido deveria impedir a viagem de Rushdie? Se há algum motivo legal para interromper a viagem de uma pessoa, então ela deve ser interrompida. Mas o que quer que aconteça deve acontecer dentro do âmbito legal”

O silêncio do Partido do Congresso dá aos importantes clérigos muçulmanos – que costumam apoiar o Partido do Congresso – liberdade para aumentar seus próprios perfis políticos explorando o simbolismo da visita de um autor cujas palavras “ofenderam” os muçulmanos, décadas atrás. É verdade que, legalmente, não há nada que o governo passa fazer para evitar que Rushdie visite o país sem um visto. Embora seja britânico, ele é de origem indiana e tem o direito de viajar livremente para o país. A ideia era permitir que a Índia cultivasse a vasta e influente rede de indianos no exterior que quisessem visitar o país e comprar propriedades no país. As autoridades do setor de imigração nunca imaginaram que isso também manteria as portas abertas para os indianos impopulares ou politicamente inconvenientes.

Numa carta, escrita ao então primeiro-ministro Rajiv Gandhi em 1988, quando o livro foi banido na Índia, Rushdie afirmou: “Devemos lembrar que o livro não é, na verdade, sobre o islã, mas sobre imigração, metamorfose, pessoas divididas, amor, morte, Londres e Bombaim”. O livro é um furioso argumento sobre como cidades como as duas citadas – e países como a Índia – são fortalecidos ou ameaçados pelos extremistas e pouco ortodoxos. Esse argumento, claramente, continua sendo verdade.

Fontes:
TIME - What the Controversy Behind Salman Rushdie’s India Visit Says About the Author’s Country of Origin

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