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ATAQUES À IMPRENSA

Jornalistas se unem em prol da liberdade de imprensa

Profissionais se unem em críticas à possível investigação da PF contra Glenn Greenwald e à proposta de corte de 40% no salário da categoria em Alagoas

Jornalistas se unem em prol da liberdade de imprensa
Investigação contra Glenn é vista como punição e intimidação ao jornalismo investigativo (Foto: Antonio Cruz/Arquivo/ABr)

“Jornalismo que não incomoda é na verdade Assessoria de Imprensa ou Relações Públicas”. De autoria do jornalista André Trigueiro, a frase ilustra uma reação à escalada de ataques à categoria dos profissionais da imprensa no Brasil.

Nas últimas semanas, dois fatos em especial resultaram em uma união poucas vezes vista entre profissionais da imprensa. Um deles foi a greve entre jornalistas de Alagoas em protesto contra uma proposta dos três maiores grupos de comunicação do estado para reduzir em 40% o piso salarial da categoria. Alguns destacam que a proposta tinha como objetivo precarizar a profissão, pavimentando o caminho para o desmonte do jornalismo em Alagoas.

Com adesão de mais de 90%, a greve durou nove dias e foi encerrada na última quarta-feira, 3, data em que o Tribunal Regional do Trabalho de Alagoas impôs uma derrota aos três grupos de comunicação ao votar contra a proposta, manter o piso da categoria, determinar um reajuste salarial de 3% e concluir que a greve não foi abusiva.

A vitória da categoria, no entanto, veio acompanhada de retaliações. Nesta quinta-feira, 4, primeiro dia de trabalho após a paralisação, foram registradas demissões e mudanças de funções na Organização Arnon de Mello – da família de Fernando Collor de Mello – que tinham como alvo profissionais que participaram da paralisação. O Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal) informou estar atuando com seus advogados para tomar todas as providências jurídicas possíveis.

Outro fato que uniu a categoria foi a defesa do jornalista americano Glenn Greenwald. Na última terça-feira, 2, foi noticiado que a Polícia Federal (PF) pediu ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) um relatório das atividades financeiras de Glenn. A PF é subordinada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, que, por sua vez, é comandado pelo ministro Sérgio Moro. Questionado sobre o fato em audiência na Câmara, Moro se esquivou de responder objetivamente a pergunta, se limitando a dizer que “a Polícia Federal tem total autonomia”.

Investigações fazem parte do trabalho da Polícia Federal. Diante disso, nas redes sociais, correntes bolsonaristas passaram questionar por que Flávio Bolsonaro pode ser alvo do Coaf e Glenn Greenwald, não. Algumas respostas lembravam que a Constituição assegura ao jornalista o sigilo da fonte (um dos objetivos da investigação é revelar quem repassou as mensagens ao “Intercept”).

Outros destacavam que, no caso de Greenwald, as investigações estariam ligadas unicamente ao desempenho da profissão do jornalista, uma vez que Glenn não tem o nome envolvido em casos investigados pela PF.

“No caso dos deputados e assessores o Coaf fez os relatórios porque havia movimentação financeira atípica. Aqui, o relatório parece ter sido pedido como ponto inicial”, escreveu a jornalista Vera Magalhães, do Estado de S.Paulo.

A notícia da investigação foi recebida no meio jornalístico como uma reação ao trabalho de Glenn Greenwald, que vem liderando uma série de reportagens no site “The Intercept”, que revelam conversas atribuídas a Moro e Deltan Dallagnol, cujo conteúdo apontam que Moro orientou procuradores da Operação Lava Jato, extrapolando a norma que determina que um juiz deve manter equidistância das partes em um processo.

Nesta quarta-feira, inúmeros profissionais da imprensa se manifestaram sobre o assunto, classificando a possível investigação como um ataque à liberdade de imprensa e cobrando de Moro e da PF um posicionamento objetivo em relação ao caso. Nas redes sociais, o debate foi levantado por meio da hashtag #LuteComoUmJornalista.  

“Moro diz que é grande defensor da liberdade de imprensa. A PF, sob Moro, pediu hoje ao Coaf as movimentações financeiras de Glenn Greenwald, fundador do site que revelou as mensagens que constrangem Moro”, escreveu a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.

“Em países autoritários como Cuba e Venezuela, um jornalista que publica informações bastante incômodas sobre um ministro de Estado certamente seria ‘investigado’ pela polícia do governo… Somos contra isso, certo? Não queremos ser uma Venezuela, lembram disso? Bom dia”, escreveu o jornalista André Rizek, do SporTV.

“Se for confirmado que a PF, subordinada a Sérgio Moro, pediu ao Coaf um relatório das atividades financeiras de @ggreenwald, jornalista que provou a parcialidade de Moro na #VazaJato, é um dos maiores ataques à liberdade de imprensa já feitos. E um total abuso de poder”, escreveu a jornalista e documentarista Eliane Brum, colunista do jornal El País.

Quem também se manifestou sobre o assunto foram os jornalistas Fábio Pannunzio, âncora do Jornal da Noite, da emissora Band, e Rachel Sheherazade, âncora do jornal SBT Brasil.

“A minha anotação: é estranho sim ver a polícia do denunciado devassando a vida do denunciante — neste caso, Glenn Greenwald. E botar o COAF para fuçar sua vida financeira é um acinte. Atacar o sigilo da fonte é o mesmo que atentar contra um dos mais sagrados direitos individuais”, escreveu Pannunzio.

Sheherazade, por sua vez, destacou a recusa de Moro em abrir o sigilo telefônico de forma a esclarecer de vez se as mensagens são autênticas ou se foram editadas – como o ministro vem afirmando. Ela também lembrou que a possível investigação da PF contra Greenwald não seria o primeiro ataque ao jornalista desde que o “Intercept” começou a divulgar a série de reportagens, que ficou conhecida como Vaza Jato.

“Quando Moro foi emparedado [em audiência na Câmara] pelo deputado Paulo Pimenta se assinaria uma declaração abrindo seu sigilo telefônico para esclarecer a autenticidade das conversas, Moro desconversou. Falou somente que já entregou o celular à Polícia Federal. A mesma que, ora veja, é subordinada ao Ministério da Justiça de…Sérgio Moro. Moro investigando Moro? Tem alguma coisa errada aí. Outra pergunta que ficou sem resposta foi sobre a investigação contra Glenn Greenwald. Desde que começou a publicar essas conversas, secretas entre Moro e Dallagnol, Glenn Greenwald vem sendo vítima de ataques sórdidos na internet, de pedidos de deportação, ameaças de morte contra ele, o marido, os dois filhos e também de fortes pressões políticas”, disse Sheherazade, em um vídeo publicado sobre o assunto (confira aqui o vídeo na íntegra).

Na terça-feira, Glenn Greenwald se manifestou sobre o caso, apontando que Moro faz uso de táticas de intimidação. “Eu poderia deixar o Brasil a qualquer momento e fazer esse jornalismo e publicar esses documentos dos EUA ou da Europa. Mas eu não vou. Vou ficar. Por que? Porque conheço táticas desesperadas de intimidação, como as que Moro está usando, e sei que eles não têm nada”, escreveu o jornalista.

Ataques à imprensa não são novidade e já ocorreram em outros governos. Ao longo de seus dois mandatos, Lula, por exemplo, por vezes acusou a imprensa de parcialidade e perseguição. No entanto, nenhum governo elevou os ataques como a atual gestão Bolsonaro – que construiu sua retórica anti-imprensa já na campanha presidencial.

Em abril, Bolsonaro chegou a ensaiar uma aproximação com a mídia. Porém, o aceno de paz não durou muito e o presidente, assim como seus filhos, tornou a usar as redes sociais para atacar veículos de comunicação – postura que, segundo a organização Repórteres sem Fronteiras (RSF) influencia seus eleitores a fazer o mesmo, abrindo um perigoso precedente que coloca em risco a liberdade de imprensa e a democracia no Brasil.

A própria frase que abre este artigo foi escrita em resposta a uma informação divulgada pelo jornalista Ancelmo Gois, do Globo. Em sua coluna publicada na última terça-feira, 2, Gois divulgou uma nota intitulada “Ordem do Coronel”, na qual noticiou: “O presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade [ICMBio], Homero de Giorge Cerqueira, reuniu-se com os chefes das Unidades de Conservação de RJ, SP e MG. Proibiu todos de conversarem com André Trigueiro, reconhecido e premiado jornalista da TV Globo, especializado em meio ambiente”.

Em reposta à nota, Trigueiro escreveu em sua conta oficial no Twitter: “Sobre a nota publicada hoje na coluna do Ancelmo: 1) Não conheço o coronel. Suponho que a ordem veio de cima. 2) Sem transparência não há democracia. 3) Lisonjeado pela distinção a mim conferida. Jornalismo que não incomoda é na verdade Assessoria de Imprensa ou Relações Públicas”.

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2 Opiniões

  1. Almanakut Brasil disse:

    Liberdade de imprensa não abrange criminosos, bandidos e PEÇONHENTOS.

    Se essas LACRAIAS tivessem agido na Rússia, China, seus aliados vermelhos e nos radicais islâmicos, já tinham sido despachados para o inferno, independentemente do “mimimi” de pilantrONGs e do povo de Sodoma.

    Acabar com órgãos de utilidade pública como o DOPS e o DOI-CODI foi como retirar as ratoeiras e espalhar o queijo para a CORJA de ratos.

  2. Marisa Motta disse:

    Excelente artigo. Parabéns.

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