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Líbia e Sri Lanka: dois pesos e duas medidas

Apesar da celebração a respeito da queda de Khadafi, crimes de guerra devem ser investigados

Líbia e Sri Lanka: dois pesos e duas medidas
Ocidente reagiu de maneiras diferentes às mortes de Prabhakaran e Khadafi

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A morte de Velupillai Prabhakaran em maio de 2009 marcou a vitória definitiva do exército do Sri Lanka em uma guerra que se estendeu por 26 anos e causou a mort de dezenas de milhares de cidadãos. Ele comandou sua porção “livre” do Sri Lanka com mão de ferro, eliminando sistematicamente seus oponentes étnicos e liderou o ressentimento da etnia tâmil contra um Sri Lanka comandado pelos cingaleses. Seus Tigres Tâmeis foram pioneiros no uso de homens-bomba, e eram famosos pelas pílulas de cianureto que engoliam caso tivessem que evitar captura e torturas. Ele levou o terrorismo ao exterior, em especial à Índia, onde seus agentes assassinar o ex-primeiro-ministro Rajiv Gandhi, em 1991, e exilados tâmeis ao redor do mundo eram intimidados para ajudá-lo financeiramente.

No entanto, o fim da guerra no Sri Lanka foi marcado um tom de celebração muito menor que o visto nas reportagens sobre a morte de Muammar Khadafi. Poucos dias antes da vitória final do exército do Sri Lanka, o presidente Barack Obama pediu ao país que não usasse armamentos pesados em áreas civis, e após o triunfo, o exército foi condenado pelas táticas usadas nos meses finais da guerra, com pedidos de investigações sobre crimes de guerra que persistem até hoje. Na Líbia, não houve qualquer pedido de cautela na batalha de Sirte, ou na morte de Khadafi, e Obama se apressou em celebrar “o fim de um longo e doloroso capítulo para o povo líbio”.

Logo, não é surpresa que muitos analistas no Sri Lanka tenham se sentido ofendidos pelo tom das reportagens nas coberturas ocidentais da morte de Khadafi. Jehan Perera, um corajoso liberal, que constantemente exige investigações sobre os crimes cometidos no Sri Lanka, perguntou por que houve tão pouca condenação da conduta na última fase da guerra na Líbia, tanto por parte dos governos, quanto das organizações de direitos humanos. Sua triste conclusão: “Sem dúvida, um bom motivo para que esse cenário se formasse é o fato dos países envolvidos na linha de frente do combate na Líbia serem também aqueles envolvidos na promoção dos direitos humanos”.

Não foi apenas no Sri Lanka que a hipocrisia das atitudes ocidentais gerou revolta. Na China, um comentário no Global Times, um jornal de Pequim, realçou outro aspecto do evento: “A questão mais urgente não é saber se os países que lideraram a cruzada contra Khadafi estão certos ou errados em festejar sua morte, mas sim, esclarecer por que, até pouco tempo atrás, esses mesmos países queriam ser amigos do ditador líbio”.

O assassinato de Osama bin Laden no Paquistão, em maio, sem a permissão ou o conhecimento do governo local, e o massacre em Sirte que culminou com a morte de Khadafi deixam um impressão de pesos e medidas diferentes. Ambos causaram muito mal e mereciam ser levados à justiça. Mas a maneira com que o governo norte-americano – que tramou a morte de um deles e celebrou as mortes de ambos – reagiu a suas mortes sugere que seus crimes não foram matar várias pessoas, e sim vários norte-americanos em Lockerbie, Nova York, Washington e na Pensilvânia. É claro que diferentes padrões são usados quando se fala de superpotências. Mas as superpotências e seus aliados buscam garantir que seus valores e padrões sejam vistos como universais.

Apesar das estranhas circunstâncias envolvendo a morte de Khadafi, a mensagens otimistas se espalhou pela Ásia. Como diz o famoso blogueiro sino-australiano Yang Hengium, no website do Projeto Chinês de Mídia, na Universidade de Hong Kong: “se déspotas do mundo não diminuírem seu poder, se verão sem opções, e terão o mesmo destino de Nicolae Ceacescu, Saddam Hussein e Khadafi”.

E a hipocrisia dos poderes ocidentais não é absoluta. Ela surge temperada pela responsabilidade que acompanha a democracia. Como Perera nota, governos ocidentais estão dispostos a investigar os abusos. Donald Rumsfeld, o secretário de Defesa na época, assumiu a responsabilidade pelos maus tratos a detidos na prisão iraquiana de Abu Ghraib, chamando–os de “inconsistentes com os valores da nação”. O Sri Lanka, pelo contrário, não tolerou investigações independentes sobre o fim de sua guerra civil. È importante para o mundo todo, e não apenas para o Oriente Médio, que a nova Líbia assuma essa responsabilidade.

Fontes:
The Economist - When to celebrate a death

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