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Eleições 2010

O partido do capitalismo brasileiro

Desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder, em janeiro de 2003, o BNDES quadruplicou seu orçamento para 90 bilhões de dólares em 2009. Por Carlos Tautz

O partido do capitalismo brasileiro
PT e PSDB querem assumir posições estratégicas na economia, diz autor

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Dilma e Serra não brigam apenas pela Presidência da República. PT e PSDB, seus partidos, em verdade têm olhos para muito além dos resultados de 3 de outubro. As duas legendas, cujas raízes remontam à redemocratização nos anos 1980, agora voltam a ter desejos comuns: ambas querem ser o interlocutor privilegiado de agentes econômicos de grande porte junto ao Estado brasileiro nas próximas décadas. Querem ser o partido do capitalismo brasileiro.

Esta é a razão pela qual ali e acolá nesta campanha determinados assuntos surgem como que um coelho retirado da cartola. Alguns temas escolhidos a dedo são utilizados não apenas na tática imediata de votos. Fundamentalmente, temas-chave são usados para golpear estrategicamente o adversário. Temas que dizem respeito às alianças que os partidos constroem com setores da economia para chegar e se manter no poder o máximo de tempo possível.

Da parte dos agentes econômicos, o negócio é muito lucrativo. Através dos partidos, esses agentes cristalizam no interior do Estado interesses, objetivos, pessoas, práticas, sistemáticas e formas de fazer que lhes atendam. As legendas, com essas relações carnais, conseguem os recursos para continuarem a disputar eleições cada vez mais caras e complexas.

Um desses assuntos recorrentes tem sido o BNDES, o grande financiador de longo prazo no Brasil, 100% estatal, que recebe recursos do Tesouro e do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT). O Banco foi escolhido por Lula para financiar o capital industrial, agrícola e extrativista no Brasil e nos países em que a diplomacia brasileira atua com mais desenvoltura. É o BNDES o principal instrumento de projeção do poder econômico do Brasil na América do Sul e, cada vez mais, na África.

Desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder, em janeiro de 2003, o Banco quadruplicou seu orçamento para US$ 90 bilhões em 2009 (mais do que o dobro dos desembolsos anuais do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Mundial (BM) em conjunto). De 2008 para cá, recebeu R$ 180 bilhões de aportes diretos do Tesouro Nacional, para sustentar a disponibilidade de crédito durante a crise financeira internacional.

Recentemente, Serra e o PSDB perceberam o perigo da aliança PT-grupos econômicos, via BNDES, e passaram a bombardear a política do Banco, que escolhe os “campeões nacionais”, aqueles grupos que recebem recursos vultosos e participação acionária estatal para ganharem musculatura e serem os maiores de seu setor em nível internacional. Entre estes grupos estão a Vale (até hoje uma espécie de “paraestatal”), os frigoríficos JBS, Friboi e Bertin, a Gerdau e a Sadia-Perdigão.

A crítica tucana mira a crônica falta de transparência na escolha desses grupos pelo Banco, mas, em verdade, expressa a enorme preocupação do PSDB com a continuação dessa parceria pelas próximas décadas. Em resposta à política de concessão de crédito pelo BNDES, quase 20 associações industriais, capitaneadas pela Associação Brasileira de Indústrias de Base, publicaram em julho manifesto em apoio ao Banco.

As entidades fizeram então sua parte na defesa das alianças do PT com o negócio agrícola, a indústria em geral (favorecida pelas obras do PAC) e todo o setor de exportação de commodities. O PSDB, então, precisou estrilar. Está preocupadíssimo com a competência do PT em montar as relações que vão durar enquanto o partido ficar no poder e estiver em alta o mercado internacional, destino de boa parte dos produtos das empresas beneficiadas.

Nessa estória, porém, não há santos nem demônios. Enquanto esteve no poder, o PSDB de Serra também utilizou amplamente o BNDES como operador da ideologia do Estado mínimo. O Banco foi um dos principais vetores de introdução no Brasil da tese da desestatização, abertura comercial sem regras e desregulamentação, por conta de suas vinculações estreitas com o setor financeiro internacional.

Concebeu técnica e politicamente e depois financiou o programa de privatizações. Mas, em 2002, quando o PSDB saiu do poder, abriu o flanco para o avanço do PT, que, aproveitando-se de uma conjuntura internacional favorável, traçou alianças de longo curso com os capitais do setor primário-exportador.

Claro que tanto no governo FHC quanto na administração Lula, finanças e capitais produtivos expressaram amplamente seus interesses. Afinal, é bom lembrar que o Bradesco é o acionista com maior poder de decisão na Vale e Henrique Meirelles deixou uma cadeira na Câmara dos Deputados, para a qual fora eleito pelo PSDB de Goiás (após presidir o Bank Boston por anos), para presidir o Banco Central petista com amplos poderes sobre a política monetária.

Ocorre que nem o PSBD em seus anos de governo contou com um cenário tão favorável ao setor de exportação de mercadorias de baixo valor agregado, como o faz com enorme aptidão Lula, nem a banca internacional ainda expressa confiança absoluta no petismo. Em um governo e outro frações desses setores se aproximaram mais ou menos do poder institucional. Nada na relação entre o Estado e o capitalismo é eterno. Daí a importância do resultado das eleições presidenciais do mês que vem. Elas podem selar as alianças que vão determinar o poder de fato, amplo, geral e irrestrito, que vai controlar o Brasil nos próximos anos.

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12 Opiniões

  1. helio(rio de janeiro) disse:

    O artigo diz uma verdade, se a economia melhorou foi devido ao continuísmo. Se a oposição fala em BNDES é para mostrar que o socialismo de palanque desse governo inexiste. Os quatro candidatos vieram da esquerda. Mas existe entre a candidata e os outros uma diferença abissal.
    A oposição finalmente aponta a grande diferença, a mais importante para o nosso futuro: Estamos assistindo a maior corrupção organizada e assumida de um grupo para se manter no poder. Nada o detém. Com o Estado tomado, onde fica a democracia?

  2. João Cirino Gomes disse:

    E já achava que os nanicos mereciam apoio!
    Mas ao pesquisar, notei que, apesar dos partidos serem nanicos, seus candidatos também procuram manterem seus privilégios inclusive o da lei de imunidade!
    E nada fizeram para mudá-la; e este procedimento; alem de não ser justo, a meu ver é antidemocrático, pois pelo que eu entendo, democracia deveria ser direito iguais para todos; e alem destes privilégios eles gozam de muitos outros! Exercem vários cargos ao mesmo tempo. E como sabemos ninguém, pode receber varias vezes; pois ninguém consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo! Ainda mais em um país carente: E qualquer um pode confirmar, que os políticos brasileiros em sua maioria, desfrutam de varias aposentadorias com salários principescos! Quando estão no poder, somem e só pensam em aumentar seus salários, mas não fazem nada para beneficiar a população!
    Alem do mais, as alianças feitas entre os partidos, são formulas para que se mantenham mamando nas tetas da Nação! Se analisarmos, vamos encontrar muitas falhas, e a certeza de que a maioria dos políticos, sejam de qualquer partido, visam somente vantagens pessoais, e não o bem comum!
    Por este motivo eu convoco a população a votar NULO! Digitando 0000 e confirmando
    E SE POR ACASO 51% da população votar NULO, eles, os políticos, notarão a insatisfação da população; e passarão a valorizar a opinião publica, e o voto de cada cidadão!

  3. Markut disse:

    Querendo ser cínico-realista, o menos ruim que poderá acontecer é que essa gente, mais do que querer ser o partido do capitalismo brasileiro, será a forma menos prejudicial de se manter aderida ao poder, usufruindo das benesses do execravel sistema econômico capitalista.
    O risco maior é que o PT, com o poste eleito, se sinta suficientemente forte,sem a força política do boquirroto mor, para retomar os seus supostos ideais socialistas e querer implantá-los, contra todas as evidências dos fracassos já comprovados.
    José Dirceu não nos deixa mentir, quando afirma isso, maliciosa e peremptoriamente, agora, na certeza quase absoluta da vitória da nossa futura dama de ferro.
    Não tenhamos dúvidas que a sopa de letras das siglas dos restantes partidos políticos continuará acompanhando a caudal , que desemboca no Palácio do Planalto.
    Oposição? Pra que?

  4. helio(rio de janeiro) disse:

    Todos no país seguiram as palavras de ordem dadas durante 8 anos: Não votem na oposição. A campanha mesmo vitoriosa não esconde o ódio e as agressões a oposição possível. Em blogs dos governistas a palavra de ordem é: Dilma ou nulo. Quanto mais denúncias de crimes, mais sobe a candidata, mais votos na Marina e nulos surgem. A intenção é ter a maior aprovação da história de uma prática criminosa e organizada no poder.

  5. Beraldo Dabés Filho disse:

    Existe uma diferança óbvia entreo o Capitalismo do PT e o Capitalismo do PsdB, bastando comnparar os governos do FHC e o do Lula.

    No governo do FHC, o Capitalismo foi o de sempre, da cartilha ocidental, liderada pelos EEUU, prato cheio para o capital internacional especulativo e volátil.

    No Governo do Lula, o Capitalismo segue uma cartilha brasileira, incentivando o empresariado brasileiro e atraindo capitais internacionais produtivos.

  6. João Cirino Gomes disse:

    Só que Lula prometia diminuir os impostos, e só fez aumentar; mesmo assim nunca tem verbas para a educação, não tem para a segurança e para a saúde!
    Só tem verbas para bancar a mordomia de canalhas, e seus cartões, para eles bancaram os deuses pelo mundo a fora! A eu ia me esquecendo tem também para Lula presentear seus amiguinhos e até para Países de primeiro mundo, com a nítida intenção de assumir cargos na ONU!
    E os milhões de empregos? E os milhões de moradias? O desemprego esta a todo vapor! o CIDADÃO DE QUARENTA É VELHO PARA TRABALHAR E NOVO PARA SE APOSENTAR QUEM CONSEGUE ENTENDER?

    A intenção dos canalhas é manter a maior parte deste povo na miséria dependendo de seus currais eleitorais! Só que estão tirando o sangue e suor dos aposentados, para doar aos desempregados! Quem não percebe?

  7. helio(rio de janeiro) disse:

    Beraldo, você esqueceu de um aspecto do capitalismo de Lula: estrangeiros tem vindo agora ocupar cargos que deveriam ser de brasileiros que por falta de investimento em educação, não tem escolaridade para tal. A cartilha americana é seguida por esse governo, que tem no Banco Central um ex-presidente do Banco de Boston, tem como guru o professor americano Unger, e investe em letras do tesouro americano.

  8. Beraldo Dabés Filho disse:

    O Capitalismo do Lula atrai profissionais do Mundo inteiro porque o Brasil se tornou um País de oportunidades.

    No Capitalismo de FHC, por falta de oportunidades, brasileiros saiam pelo Mundo afora.

    Espero não me ver mais obrigado a expressar argumentos tão elementares e óbvios.

    Chô encapuzados anônimos!!!

    Esqueçam-me agora ou se calem para sempre!

    Nada os impede, no entanto, de continuarem sonhando com um golpe de estado contra o PT.

    A caravana passa…

  9. helio(rio de janeiro) disse:

    Estamos descapitalizando a nossa indústria: Dólar alto, impostos altíssimos. Não dá para competir com os produtos da China que estão fazendo a festa. O Real fica supervalorizado pela entrada maciça de dólares voláteis pelos juros altos. Menos empresas vem para o Brasil pela burocracia, as regras pouco claras de regulamentação. As multinacionais trazem seus empregados, mais qualificados. A Educação que promove as grandes mudanças só dão frutos em 15 anos. Como tivemos o mais baixo investimento na área, de olho na vitória imediata de um grupo, teremos ainda muitos anos pela frente para resgatar esse buraco criado. Espero que Dirceu/Dilma/Erenice/Waldomiro, todos economistas, trilhem um caminho mais virtuoso.

  10. Markut disse:

    Não Hélio, não haverá caminho virtuoso para gente cuja ascenção política se pautou sempre no oportunismo imediatista. Em nenhum deles se vê algum resquício de objetivos sociais sinceros e viaveis.
    O direcionamento das falas vazias deles está sempre dirigido a dois tipos de público: Um,absolutamente mal informado e anestesiado e o outro, absoluta e convenientemente ciente da balela impingida.
    A Marina poderia ser ,eventualmente, a exceção, mas ela está soterrada pela avalanche de sandices, ou do nada, despejada pelos outros candidatos.

  11. Richoff disse:

    Lendo os artigos e os leitores observo a qualidade de leitores como Helio e Markut, e a repetição fraca dos bordões de alguns. Deveriam ler Apocalípticos e Integrados de Umberto Eco.

  12. helio(rio de janeiro) disse:

    “Cale-se para sempre” é o brado democrático de um leitor. Mesmo com a imprensa se queixando de perseguição não me calarei. As minhas idéias incomodam alguns. Penso que os que mais se irritam com minhas opiniões são os que mais tem medo de confessar que tenho razão.

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