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Obama, um socialista europeu?

Gostaria que isso fosse verdade. Os norte-americanos da esquerda deveriam realmente começar a defender os princípios básicos do socialismo. Por Michael Kazin

Obama, um socialista europeu?
Obama e o candidato socialista francês François Hollande: semelhanças? (Reprodução/Internet)

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No último outono, Mitt Romney afirmou que Obama “tem sua inspiração política na Europa e em seus socialistas”. Eu gostaria que isso fosse verdade, embora o socialismo tenha raízes norte-americanas também. Mas, na verdade, Romney não tinha nenhuma evidência para a sua colocação. Nos países mais ricos da Europa, os cidadãos têm o beneficio do berço ao túmulo do sistema de bem-estar social, até a atual onda de austeridade. Enquanto isso, a principal conquista do nosso presidente é um projeto de saúde modelado a partir do que foi projetado por seu adversário do Partido Republicano.

Não parece incomodar os republicanos que a condenação do presidente como um socialista seja tão contrária dos fatos. Mas o que me incomoda é o fracasso do Partido Democrata ao subir para o nível dos insultos ao Partido Republicano. De fato, um dos aspectos mais deprimentes da política norte-americana hoje é como os democratas foram coagidos a uma postura defensiva na batalha de ideias. Obama declarou que “o governo deveria fazer para as pessoas apenas o que eles não podem fazer melhor por si só e nada mais”. Compare essa postura apologética com a plataforma de eleição de François Hollande, o provável socialista a ser eleito presidente da França em 6 de maio, que declara: “A igualdade está no coração de nossos ideais. A redistribuição permanente de recursos e riquezas é necessária para fazer a igualdade de direitos uma realidade, para reduzir as disparidades de condições e lutar contra a pobreza”.

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Comparado com seus homólogos europeus o Partido Democrata é defensivo. E isso é um problema  para o qual eu gostaria de oferecer uma solução modesta: os norte-americanos da esquerda devem realmente começar a defender os princípios básicos do socialismo.

Eu não estou, é claro, me referindo ao cruel sistema ineficiente antidemocrático que reinou na antiga União Soviética e sobrevive apenas na atual Cuba. Os ideais socialistas que valem a pena serem considerados são escrupulosamente democráticos e libertários civis. E eles continuam sendo uma opção nas nações de quase toda a Europa, bem como no Japão, América Latina e África do Sul.

Nos Estados Unidos, tais pontos de vista nem sempre foram considerados diabólicos ou alienígenas. Um século atrás, o Partido Socialista da América, elegeu centenas de candidatos em municípios como Antlers, Oklahoma e Nova York, e atraiu pensadores importantes como John Dewey, DuBois e Thorstein Veblen. Ataques socialistas sobre a injustiça do capitalismo desregulados ajudaram a inspirar a criação de agências como o FDA, a SEC, e do National Labor Relations Board. Elas ajudaram a fazer os norte-americanos receptivos ao apelo de Franklin Roosevelt para um futuro em que a segurança econômica seria alcançar um status tão elevado como a Primeira Emenda da Constituição.

Em 1966, o organizador dos direitos civis Bayard Rustin e o economista Leon Keyserling, elaboraram um plano abrangente para uma nova ordem social-democrata. O plano teria garantido a todo cidadão um trabalho, um rendimento anual, seguro de saúde, boas escolas, e habitação digna, tudo pago por um imposto de renda progressivo que seria desapossado dos ricos. Ele foi calorosamente aprovado por Martin Luther King Jr e por cada grande organização negra, assim como por muitos sindicatos. Mas a escalada da guerra no Vietnã rompeu a coligação que apoiou e o aumento do conservadorismo logo fez toda a ideia de redistribuição da riqueza um pária eleitoral.

Hoje, na ausência de uma alternativa radicalmente igualitária, Obama e seus  companheiros centristas liberais, se tornaram, por padrão, a maioria dos norte-americanos. No outono passado, manifestantes fizeram uma tentativa astuta de ampliar o espectro ideológico, mas o aumento do movimento foi suspenso, pelo menos no momento. Portanto, não há incentivo para que o presidente ou a maioria dos outros democratas questionem o messianismo de livre mercado, que une todos os republicanos, e alegra os corações (e abre os talões de cheques) de ricos em todo o país.

Um movimento articulado socialista fora do Partido Democrata oferece uma escolha mais ousada. Seriam necessários sindicatos, ou uma nova forma de união, para dar aos trabalhadores um músculo institucional para empurrar para trás cortes salariais e a disseminação do emprego precário. Seria difícil definir cuidados com a saúde nacional, financiada pela tributação progressiva, como a marca de uma sociedade civilizada, bem como a única maneira séria de controlar os custos. Esta medida iria encorajar experimentos em propriedade cooperativa e controle local.

O renascimento da social-democracia seria uma bênção para os democratas tradicionais também. Com uma esquerda séria e uma direita inflexível por outro lado, eles poderiam fazer um autêntico apelo para os eleitores que dizem quererem um verdadeiro regime moderado centrista. No mínimo, os conservadores teriam que abandonar suas concepções maniqueístas e começar a debater as suas posições de adversários.

Ironicamente, a ilusão sobre a ideologia de Obama pode já estar ajudando o “socialismo”, ao menos como uma palavra para desfrutar de um pouco de atenção. Em uma pesquisa da Pew Research Center realizada em dezembro de 2011, jovens de 18 a 29 anos de idade disseram ter opiniões positivas do socialismo, como tiveram do capitalismo. Em geral, três de cada dez norte-americanos tiveram uma reação positiva ao “socialismo”. Apenas 50% apoiavam calorosamente o “capitalismo”.

Agora, seria obviamente um erro levar essa, e as pesquisas semelhantes, muito a sério. A maioria dos norte-americanos que diz gostar do “socialismo” estão, sem dúvida, reagindo às acusações de direita contra um presidente que eles gostam. Se Obama é um socialista, isso soa bem para eles.

Mas a onipresença do termo em si pode constituir uma oportunidade para os radicais ofereceram ao público, pela primeira vez em décadas, um argumento para o socialismo fundamentado em ideais que a maioria dos norte-americanos estimam: responsabilidade comunitária e direitos iguais. Como Michael Harrington, o último grande líder dos socialistas dos EUA, escreveu em 1966: “A democratização do poder econômico, social e política concentrada é a única esperança para a realização de ideais humanistas ocidentais. A possibilidade de uma nova ordem de coisas em que as pessoas realmente decidam o seu próprio destino”. Deve ser um bom momento para começar essa discussão, uma vez que a maioria dos norte-americanos está justamente revoltada com a ordem que temos.

Fontes:
The New Republic - Obama, a European Socialist? I Wish!

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