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Onde a França fabrica sua classe dominante

Políticos franceses tentam se distanciar do elitismo, mas a vasta maioria deles recebeu educação em escolas tradicionais e de dificílimo acesso

Onde a França fabrica sua classe dominante
Ségolène Royal, François Hollande e Dominique de Villepin se formaram na ENA na classe de 1980

É uma regra não escrita da política francesa que os presidentes devem se distanciar da elite de Paris. François Mitterrand tinha raízes em Conhaque, e na Borgonha, Jacques Chirac se instalou na rochosa região de Corrèze, no centro-sul do país. O mesmo acontece com os candidatos atuais. François Hollande, um socialista, também é radicado em Corrèze, onde é um deputado. Nicolas Sarkozy, o titular de centro-direita, que vem de Neuilly, um subúrbio de Paris, é de origem húngara e não frequentou as melhores escolas francesas.

É estranho, então, que os quatro aspirantes à presidência deste ano tenham se formado na mesma universidade, a Ecole Nationale d’Administration (ENA): Hollande, o independente de centro-direita, Dominique de Villepin e dois candidatos menores. Mais estranho ainda, tanto Hollande como Villepin são da classe de 1980, conhecida como a série Voltaire, assim como Ségolène Royal, ex-parceira de Hollande e candidata socialista derrotada em 2007 (os três estão circulados na foto, acima).

O fato de uma turma única de cerca de 80 estudantes franceses ter tamanha influência política mostra como o país fabrica sua classe dominante. Outros ex-alunos da ENA de 1980 incluem Jean-Pierre Jouyet, chefe regulador dos mercados financeiros, que está cotado para um alto cargo caso Hollande alcance a presidência; Henri de Castries, presidente da AXA, uma gigante do ramo de seguros; Pierre Mongin, diretor do metrô de Paris; e uma série de ex-ministros e embaixadores.

Os chamados Énarques, que tendem a ser ferozmente inteligentes e respondem perguntas com a frase “Há três pontos”, desmentem as acusações de elitismo. A faculdade seleciona seus alunos por mérito em um exame competitivo, e a taxa de matrícula é gratuita. A ENA foi criada em 1945 como uma instituição meritocrática com o objetivo de produzir uma elite administrativa pós-guerra. No entanto, desde cerca de 1980, poucas pessoas de camadas mais pobres têm conseguido ingressar na instituição. A participação dos alunos da classe trabalhadora nas quatro principais grandes écoles, incluindo a ENA, caiu de 29% em 1950, para 9% em meados da década de 1990, diz um estudo.

Todos os países têm escolas ao estilo Ivy League, mas o domínio da ENA em cargos de topo na França é de tirar o fôlego. Sete dos últimos 12 primeiros-ministros foram énarques. Dos mais de 600 chefes seniores franceses, 46% são provenientes de uma das três grandes écoles, incluindo a ENA, de acordo com a pesquisa de dois acadêmicos. Alexandre de Juniac, ex-chefe de gabinete do Christine Lagarde durante seu período no Ministério das Finanças, é o chefe da Air France; outro ex-chefe de equipe, Stéphane Richard, comanda a France Telecom. François Pérol, ex-chefe de gabinete de Sarkozy, é o chefe do Banque Populaire Caisse d’Epargne.

Várias grandes écoles tentaram aumentar a sua diversidade. Em 2009, a ENA criou um esquema para preparar estudantes de baixa renda para o exame de admissão. Mas o progresso é lento. O primeiro aluno do curso só conseguiu um lugar recentemente. Enquanto isso, ex-alunos da ENA não estão ressurgindo apenas na corrida presidencial. O governo de Sarkozy, que há cinco anos tinha apenas dois énarques, está chegando ao fim com seis.

Fontes:
The Economist - Old school ties

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2 Opiniões

  1. André Luiz D. Queiroz disse:

    Que a elite política francesa moderna venha prioritariamente de uma mesma ‘alma matter’, a meu ver, é um fenômeno que atesta a excelência acadêmica da instituição.

    Quanto ao fato de poucos alunos oriundos das classes menos abastadas chegarem a ingressar na ENA, também vejo como um fato ‘natural’ (embora não necessariamente desejável). Uma instituição que prima pela busca da excelência acadêmica tenderá a selecionar mais seus alunos; desde que essa seleção seja pelo mérito acadêmico, não há nada de errado!

    Seria muito bom para o Brasil se nossas elites políticas fossem oriundas de meios acadêmicos aos moldes da ENA. Mas, infelizmente, a nossa realidade é bem outra…

  2. Mairon Santos disse:

    Esta estrutura é a mesma, só muda de lugar.

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