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Partidos políticos: sacos vazios

No Brasil, quase sempre, não representam idéias ou ideologias. Por José Celso de Macedo Soares

Partidos políticos: sacos vazios
Partidos criaram-se em torno de chefes, diz autor

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As últimas eleições decretaram a falência dos partidos políticos no Brasil. No Brasil, quase sempre, não representam ideias ou ideologias. Na faixa dita democrática, eles se misturam, cada um defendendo seus interesses particulares.

O mal não é novo. Os partidos, desde a independência, criaram-se em torno de pessoas, de chefes, não raro os interesses regionais predominando sobre os interesses nacionais. Dir-se-á que, no Brasil, política é sinônimo de mexerico de aldeia, questiúncula de dize tu direi eu, de conluios, cuja importante solução não tem outro critério senão proveito do chefe tal, ou de ser contrário, ou a benefício de parentes e aderentes.

Um pouco de história. No Império tivemos dois partidos: Conservadores e Liberais, que se alternavam no poder de acordo com a vontade do Imperador. Não havendo sistema eleitoral, não se pode dizer que houve representação correta. O senador baiano Nabuco de Araújo, em seu famoso discurso do sorites, demonstrou que, no Império, a representação partidária era uma farsa. Com o advento da República, até 1945 – com o interregno do Estado Novo getulista – os partidos perderam suas características nacionais para serem meramente grupelhos regionais. Já com a Constituição de 1946, criaram-se partidos nacionais. Não houve, entretanto, cuidado quanto aos requisitos para formação dos partidos. Daí sua proliferação, apenas para barganhas pessoais. Deixando de lado o período dos governos militares, em que representação correta não havia, a situação hoje, no Brasil continua a mesma: dezenas de partidos sem a menor representatividade, meros agrupamentos para atender ambições políticas de chefetes regionais

Verdade é que nossos políticos, com as exceções de praxe, procuram os partidos de acordo com suas conveniências e quais a possibilidade de se elegerem por esta ou aquela legenda. O troca-troca de partidos é uma constante na vida pública brasileira, embora a Justiça Eleitoral tenha posto um cobro a esta desfaçatez, dos que se elegeram por determinado partido e, depois de eleitos, sem cerimônia, mudavam de partido.

Na verdade, isto não incomoda a maioria do eleitor brasileiro que, em geral, vota na pessoa e não no partido. O brasileiro, com honrosas exceções, sabe em quem votou para Presidente, Governador ou Prefeito mas, se perguntado em que deputado votou, não se lembra, tudo na tradição de quem olha e procura sempre o “chefe”, o “soberano”, esquecendo que quem faz as leis que lhes vão afetar a vida, diuturnamente, são os legisladores, seus representantes. Mas, como no Brasil votar é obrigatório e não facultativo, como deveria ser, o brasileiro vota porque necessita do documento comprobatório. Pretender que esses fantasmas de partidos, tristes e desanimados, abandonem a demagogia, é o mesmo que pedir a um saco vazio que se ponha de pé. Assim, os brasileiros acabam tendo razão em desprezarem os partidos.

O panorama desalentador do nosso atual parlamento é resultado da falta de consistência de nossos partidos políticos e do defeituoso sistema eleitoral brasileiro.

Vendo os atuais partidos brasileiros, não posso deixar de lembrar do Marquês de Halifax, estadista inglês: “O melhor partido não é nada senão um tipo de conspiração contra o resto do país.”

Fontes:
Instituto Millenium - Partidos políticos: sacos vazios

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4 Opiniões

  1. Carlos U. Pozzobon disse:

    O esvaziamento dos partidos é resultado do sistema político. E como ninguém parece ter lucidez suficiente para propor uma reforma profunda (a menos das maquiagens episódicas), continuaremos a navegar nos mesmos mares procelosos. No meu ponto de vista, as reformas devem começar pelo sistema político. Este é o ponto de partida para mudanças profundas. Para se ter uma ideia da crise, considere os temas que a sociedade discute e que os candidatos não falam, por exemplo, no tema educação: cotas raciais e absenteísmo de professores. Por que acontece isso? Porque a estrutura política se desmembrou da nação brasileira. Não interessa a política tal como está tratar de temas polêmicos. E no entanto são eles a verdadeira essência da política. É com essa defasagem que se faz uma ditadura…

  2. Peter Pablo Delfim disse:

    O avanço de Serra não passa pelo reordenamento das forças da base política de Lula e sim pelo desalinhamento de uma estratégia voltada para os movimentos do oponente. É evidente que as atitudes do oponente devem serem debatidas e repelidas mas que tal ação não interfira com a adequação que os diferentes momentos exigem frente aquele que vota; reside aqui o resultado da equação proposta. Serra é previsivel em seus ataques descabidos, suas agressões e denuncias de espancamento moral e suas repetitivas promessas…. aqui terminou Serra. Dilma Rousseff é o concreto que independe do imaginario e somente poderá crescer por conta deste. Tanto Sera como Dilma não mais despertam a atenção das classes brasileiras mais favorecidas pois estas já sabem tudo o que tinham de saber sobre ambos e na sua imensa maioria tem seu voto definido. Sobra o povo fora das classes referidas que serão aqueles que verdadeiramente irão definir as eleições e a quem se deve afinar o discurso e os rumos de abordagem. Nesse caso, a mesmice e o titubeio tem serios compromissos com o fracasso e é necessário inovar com tranquilidade transmitindo otimismo e segurança sem o qual não há salvação. É preciso fazer com que o povo enchergue nem que no seu imaginario o que o espera nesse País com a eleição da Dilma Rousseff.

  3. Markut disse:

    Já de há muito, essa diversidade de siglas, tendendo ao infinito, nada mais é do que uma sopa de letras, cuja caudal se destina ao palácio do planalto.
    Num regime verdadeiramente democrático duas condições essenciais:
    – eleitorado mais eslarecido, com melhor escolaridade.
    – só tem sentido um partido de situação e um de oposição, alternado-se no poder, cada um com a sua respectiva ideologia, claramente definida.
    Convem começar pela melhora revolucionária da escolaridade básica, que está na raiz deste arremedo de democracia que temos atualmente.
    E, enquanto isso, que não é a curto prazo, instar os ilustres togados do TSE a alterar fundamentalmente o estúpido sistema eleitoral vigente.
    Enquanto tivermos tiriricas legalmente habilitados a nos representar e legislar em nosso nome, nada feito.

  4. Marcelo Sommer disse:

    José Celso faz uma análise correta do fenômeno. Mas o problema nao é partidário. Os sintomas apontados demonstram que, sendo o Brasil muito diferente em cada regiao, impor um sistema de partidos de envergadura nacional é uma utopia. O equívoco está em nao admitir uma federacao de fato, com representacao indireta a nível nacional e fluxo de recursos invertido, com fundos de equalizacao econômica nacionais. Os interesses regionais nunca deixarao de ter sua influência. Mas com o centralismo e a visao unitária de país, esses regionalismos contaminam o ambiente nacional. Quem vai eleger o presidente é o chefe, que pode entrar em toda e qualquer regiao e dizer quem sao os chefetes que realmente contam e que sempre sao os que mais recebem favores do centro. Se a eleicao para presidente fosse indireta, garanto que os deputados eleitos seriam melhor conhecidos por seus eleitores. Parece uma heresia política, mas nao é. Como o preconceito cunde, tomarei as pedradas de estilo. Mas insto a que se analise a questao… total, nada é definitivo neste mundo. A eleicao indireta nao é anti-democrática. Os paises parlamentaristas elegem seus governos indiretamente.

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