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Primavera Árabe

Pressão externa pode fazer a diferença na Síria

Vizinhos começam a criticar o regime de Bashar Assad, que pode caminhar para 'cenário irreversível'

Pressão externa pode fazer a diferença na Síria
Brutalidade de Bashar Assad gerou críticas da Turquia e da Arábia Saudita

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O tempo está acabando, mas para quem? Desde que uma revolta popular surgiu há cinco meses, o presidente da Síria, Bashar Assad respondeu com uma mistura de promessas de reformas e repressão brutal. Durante o Ramadã, o mês de jejum dos muçulmanos, que começou no início de agosto, a repressão de seu regime se intensificou.

Em uma séria de ataques, os homens de Assad tomaram as cidades rebeldes, uma após a outra, aumentando os números de mortos no país desde março, que chegaram a 1500. A repressão às manifestações em Hama e Deir ez-Zor geraram revolta tanto no país quanto no exterior, deixando o regime cada vez mais isolado.

Os vizinhos da Síria, cujo longo silêncio era um sinal de que a queda de Assad poderia causar mais problemas que sua sobrevivência, parecem ter mudado de opinião. A Turquia tem uma fronteira de 850 km com a Síria, e cultivou laços com o país, em parte para dissuadir a Síria de criar problemas com sua incansável minoria curda. Mas o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, agora diz, sem receios, que sua paciência está se esvaindo, e ordenou a seu ministro de Relações Exteriores que exigisse uma aceleração nas reformas e a retirada das tropas das cidades.

Uma mensagem semelhante veio da Arábia Saudita, onde preocupações com a expansão das revoluções no mundo árabe tinham ofuscado o descontentamento com a aliança da Síria com o perigoso Irã xiita. No dia 7 de agosto, o rei Abdullah, um bastião autointitulado do islamismo sunita, divulgou um raro pronunciamento público exigindo que a Síria desse um fim a sua “máquina de matanças”.  O reino retirou seu embaixador do país, uma medida que depois foi seguida pelas outras monarquias do Golfo Pérsico. A Liga Árabe, que apostou no silêncio após as revoltas sírias, foi tomada de uma enorme dose de coragem e anunciou preocupações com as mortes de civis. O ministro das relações exteriores do Egito alertou para o perigo de a Síria caminhar para uma situação irreversível.  

As críticas regionais anulam as desculpas da China e da Rússia, que não podem mais bloquear ações ou discursos mais duros por parte do Conselho de Segurança da ONU, como fizeram no início do mês. Com outros países adotando a mesma retórica usada pelas potências ocidentais desde maio, quando os Estados Unidos disseram a Assad para implementar reformas ou renunciasse, o cenário parece pronto para punições severas. Em Washington, há rumores de que o governo de Barack Obama pode exigir a renúncia de Assad em breve. Mais sanções foram impostas pelos Estados Unidos no dia 10 de agosto, embora alguns analistas agora sugiram que talvez fosse melhor prometer removê-las se Assad prometesse renunciar.  

Ninguém espera uma intervenção militar parecido com o registrado na Líbia. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, deixou claro que a oposição síria não espera esse tipo de ajuda. Além disso, a povoada Síria apresenta um terreno militar muito mais complicado que a Líbia, e a OTAN não tem apetite para mais aventuras.  

Até agora, o regime de Assad rejeitou as críticas estrangeiras, se atendo ao discurso de que suas forças estão expulsando gangues de terroristas e agentes inimigos. Uma quase autossuficiência em alimentos e energia, e o medo de boa parte da classe média síria – cuidadosamente cultivada pelo regime – de um banho de sangue sectário semelhante ao do Iraque, ajudaram a apoiar o governo.

No entanto, comentaristas na Síria agora sentem uma mudança no clima, que pode ser acelerada pela pressão externa. Não se trata apenas de repulsa às forças de segurança que acenderam o sentimento sírio, mas sim uma convicção crescente de que o regime caminha para seus dias finais. As promessas de reformas não têm crédito, e não podem corresponder às expectativas das ruas. Rumores de demissões e a recente troca, sem explicações, do ministro da Defesa, apontam para uma redução no círculo interno do regime.

Apesar de vários casos de ataques a homens de segurança, a oposição se apoiou quase que inteiramente em métodos pacíficos de protestos, minando as acusações de motivos sectários. A selvageria da resposta do regime convenceu os manifestantes de que o movimento deve continuar ou, como um manifestante em Damasco alerta, “encarar uma vingança de proporções inimagináveis”.

Fontes:
The Economist - "Unfriended"

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