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Mulheres influentes

Primavera Árabe faz surgir ‘síndrome de Maria Antonieta’

Mulheres elegantes de líderes que se tornaram alvos das revoluções tornaram-se símbolos da rejeição popular. Por Fernanda Dias

Primavera Árabe faz surgir ‘síndrome de Maria Antonieta’
A rainha durante a Revolução Francesa tornou-se símbolo da rejeição popular(Reprodução/Internet)

A Primavera Árabe mudou os rumos da política no Oriente Médio e no Norte da África e, de quebra, possibilitou o desenvolvimento do que tem sido chamado de síndrome de Maria Antonieta. Como a rainha durante a Revolução Francesa, mulheres elegantes de autocratas árabes tornaram-se símbolos da rejeição popular. Algumas, como a rainha Rania, da Jordânia, ainda são muito populares no exterior e consideradas mulheres influentes no mundo. Mas, nos seus próprios países, é difícil encontrar quem as defenda.

Os ventos para Rania começaram a virar em fevereiro, quando a família real começou a ser acusada de corrupção. Apesar de ainda manter uma agenda oficial bastante ativa e de se esforçar em prol de melhores condições de vida para mulheres e crianças, Rania parece ter se tornado um dos pontos mais fracos da monarquia. Sua imagem é percebida no país como a de uma mulher cheia de privilégios e alheia à realidade de seus súditos.

Desde 1999, quando se tornou rainha, Rania já passou a enfrentar certa desconfiança da população mais conservadora por usar roupas de grifes, como Givenchy, Marc Jacobs e Gucci, e aparecer em revistas de moda – muitas vezes sem o véu. Rania coleciona títulos como o de mulher mais glamourosa do ano de 2010, além de estar na lista das mais bem vestidas da revista Vanity Fair e na lista de Mulheres Mais Poderosas da Forbes.

Em 2010, a rainha celebrou com grande pompa seus 40 anos: levou 600 convidados para o deserto de Wadi Rum, no sul do país. Logo depois, veio o vazamento massivo de informações do Wikileaks que relatavam ódios étnicos e políticos na Jordânia, revelando uma estabilidade política de fachada. Rania sintetiza a insatisfação de ambos os lados da disputa: é desprezada pela elite pela sua origem palestina e mal vista pelos jordanianos de origem palestina por seus hábitos ocidentais.

Com o início da Primavera Árabe, regimes da Tunísia e do Egito caíram e irromperam os protestos na Líbia e na Síria. Para escapar da onda que atingia a região Abdullah II, da Jordânia, aprovou uma série de medidas econômicas e iniciou uma reforma constitucional, numa tentativa de acalmar os ânimos dos manifestantes locais.

O rei Abdullah ainda é considerado intocável, mas o seu regime está sob questão. E as queixas centram-se na rainha. Em fevereiro, 36 representantes tribais lançaram um comunicado pedindo “liberdade, dignidade, democracia, justiça, igualdade, direitos humanos e o fim da corrupção”. O texto evitou qualquer crítica ao soberano, mas fez referências diretas à rainha, como no trecho em que eles dizem rejeitar “aniversários ultrajantes que são celebrados às custas dos pobres e do Tesouro nacional”. O manifesto também pede que a rainha retorne as fazendas dadas a sua família, terras consideradas por eles roubadas dos jordanianos.

Rania chegou a ser comparada a Leila Trabelsi, numa referência à ex-primeira-dama da Tunísia, que segue refugiada na Arábia Saudita, e como o marido, Ben Ali, já sofreu várias condenações por corrupção. Acredita-se que ela tenha fugido da Tunísia com mais de US$ 50 milhões em barras de ouro. Trabelsi trabalhava como cabeleireira quando conheceu seu futuro marido e teve sua primeira filha, enquanto ele ainda estava casado com sua primeira esposa. Quando Ben Ali assumiu o poder, em 1987, ele obteve o divórcio e se casou com Trabelsi, que supostamente começou a instalar membros de sua família em posições de poder. Nas décadas que se seguiram, o sobrenome da primeira-dama se tornou sinônimo de corrupção e ganância.

Khadija Gamal, nora do ex-presidente do Egito Hosni Mubarak, é outro grande símbolo da síndrome de Maria Antonieta. De cliente de costureiras e cirurgiões plásticos de renome, ela se tornou mulher de um prisioneiro. Os dois filhos do ex-líder, que renunciou em fevereiro em meio a uma série de protestos da população, enfrentam acusações relacionadas à corrupção. Em particular, Gamal Mubarak, o marido de Khadija responde por incitar forças policiais a abrir fogo e atacar manifestantes pró-democracia na Praça Tahrir. Ele teve um papel político muito influente nos últimos dez anos e é acusado de se beneficiar da posição de seu pai para acumular fortunas estimadas em mais de US$ 700 milhões.

Os exemplos não param por aí. Asma Al-Assad, mulher do presidente sírio, Bashar Al-Assad, ganhou em fevereiro um artigo da Vogue, no qual foi classificada como “glamourosa, jovem e muito chique – a mais magnética primeira-dama”. A revista afirmava ainda que o governo foi eleito com surpreendentes 97% dos votos. Na entrevista, a primeira-dama afirmava que a Síria era o “país mais seguro” do Oriente Médio. Menos de um mês depois, forças do governo mataram seis pessoas na cidade de Deraa. O timing do artigo não poderia ter sido pior, e a revista foi ridicularizada por mostrar um “mundo fashion” alheio à realidade. Na última sexta, a alta comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, Navi Pillay, estimou em 3 mil o número de mortos nos sete meses de protesto contra o regime.

Um artigo da revista virtual norte-americana Slate, uma das primeiras a usar o termo síndrome de Maria Antonieta, retrata que ainda é difícil de imaginar, mesmo em meio à atual turbulência, que a rainha Rania e suas colegas vão ficar fora de moda em nível mundial, pelo menos não enquanto permanecerem no poder. Segundo a publicação, revistas femininas estão viciadas em realezas, num sentimento quase melancólico, uma saudade dos dias de Jackie O. e da princesa Diana. “Mas aqui está a ironia: o mesmo estilo de vida extravagante que saltou essas mulheres para o cenário global é o que está fazendo elas serem vaiadas agora”, dizia o artigo da publicação.

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5 Opiniões

  1. Sylvia disse:

    Será que a vida no Egito vai melhorar por terem substituído o Osni Mubarak, um ex-militar, por outro ditador, militar da ativa? Tomara…mas não confio, não…Vamos ver se virão eleições realmente livres. E se a classe média vai crescer como, felizmente para nós, parece estar acontecendo no Brasil.

  2. Cinai disse:

    É mesmo apropriado a comparação. Por conta dos luxos, gastos do reinado de Maria Antonieta. A frança viveu anos de fome.
    O povo tem mesmo que vigiar e condenar luxos em todo sistema de governo. No Brasil por exemplo são os gastos dos políticos.
    Ainda bem que estamos vendo movimentos a políticos. Esta tímido ainda mas, é assim, depois vai ganhando força. Daqui mais um pouco, teremos uma movimentação em grande número e eu estarei presente!!

  3. Beraldo Dabés Filho disse:

    Os governantes militares, que estão sucedendo “ditadores árabes”, são todos escolhidos e “financiados” pelos EEUU e seus asseclas.

    Está ficando tudo do jeito que estava. A diferença é que aqueles estavam no poder há décadas e estes há meses.

    As promessas de eleições livres, como preliminares de democracia, até poderão ocorrer, a critério dos EEUU, cujo seriço de inteligência estará atento, para determinar o melhor momento, que será aquele em que os fantoches americanos, possam estar gozando de algum prestígio popular. Difícil, muito difícil!

    De qualquer forma, a democracia nos Países Árabes, mesmo nascendo sob a tutela americana, será benéfica.

    Num médio prazo, digamos, de 20 anos, todos estarão em melhores condições gerais, e livres de amarras tutelares, que não passam de colonialistas.

    Livres da nociva ingerência dos EEUU e pela similaridade histórico-cultural, terão boas chances até de formar um bloco econômico.

    Para os EEUU e seus asseclas, será um tiro no pé.

    “Síndrome de Maria Antonieta” é coisa de marketing americano, contra o Mundo Árabe.

    Nada mais.

  4. Geferson Alves disse:

    Aumentos absurdos dos próprios salários.
    Aumento do número de vereadores.
    Aumentos nos desvio do dinheiro público.
    Gastos exorbitantes com as Copa 2014.
    Mais aumento de impostos, Pode?
    Um dias “eles” também serão arrancados do esgoto e linchados pelo povo exausto de tanto desmando. Inclui-se aí o judiciário lerdo e corrompido.
    Povo revoltado ninguém segura!

  5. Markut disse:

    Para desgosto de toda espécie de déspotas, o surgimento de uma classe média, inevitavel, quando há desenvolvimento social,imporá a necessidade de outros paradigmas de governança, pois será um púbico consumista e mais esclarecido, do que as hordas de bárbaros do mundo muçulmano, acorrentadas secularmente à ignorância e fanatismo, adrede cultivadas pelos césares de plantão.

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