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Prisão do ‘Talibã norte-americano’ completa uma década

Pais de John Walker Lindh esperam que seu filho receba perdão presidencial

Prisão do ‘Talibã norte-americano’ completa uma década
John Walker Lindh abandonou a vida na Califórnia e se juntou ao Talibã no Afeganistão

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Em uma quieta rua de Mill Valley, uma próspera cidade ao norte de San Francisco, o centro islâmico local vai aos poucos se esvaziando após as orações de sexta-feira. Após a saída dos fiéis, Abdullah Nana relembra como, há mais de uma década, um jovem branco apareceu lá, confuso e buscando respostas. “Ele estava numa encruzilhada em sua vida, incerto de seu rumo neste mundo. Tudo indicava que o islã era a forma de ele se preencher espiritualmente”. Nana conta que rapidamente ficou amigo do jovem de 16 anos, que se converteu ao islã, e logo abraçou o desafio de aprender árabe e memorizar o Alcorão.

Esse jovem era John Walker Lindh, que cresceu em uma família católica, e hoje é um prisioneiro na “unidade de comunicações especiais”, em Terre Haute, Indiana, cumprindo a metade de sua sentença de 20 anos. Sua família acredita que seja a hora de rever o caso do “Detento 001”, o primeiro suspeito detido na “guerra ao terror”, declarada por George W. Bush há dez anos. De acordo com seu pai, Frank, ele está alojado em uma ala especial no corredor oeste do prédio, originalmente usada como corredor da morte. Foi lá que Lindh – cuja imagem correu o mundo e lhe rendeu a alcunha de “Talibã Americano” – matriculado em um curso por correspondência da Universidade de Indiana, completou seu desafio de memorizar o livro sagrado.

A aventura

Aos 17 anos, Lindh recebeu a permissão de seus pais para viajar ao Iêmen para aprender árabe. Ele retornou brevemente à Califórnia, mas não se readaptou, e voltou ao Iêmen, de onde escreveu para seu pai, perguntando se poderia ir ao Paquistão continuar seus estudos. Frank respondeu “Confio no seu julgamento, e espero que você viva uma aventura incrível”.

Lá, Lindh se matriculou em uma escola religiosa no vilarejo de Bannu no noroeste do país, onde sua visão de mundo parece ter se tornado mais dura. Sem o conhecimento de seus pais, ele atravessou a fronteira com o Afeganistão, onde, com a ajuda de um grupo militante, recebeu dois meses de treinamento militar no campo de treinamento al-Farouq, financiado por Osama bin Laden. Lindh teria se encontrado com Bin Laden em duas ocasiões, mas Frank nega qualquer envolvimento de seu filho com o terrorismo, afirmando que ele era “um dos milhares de jovens muçulmanos que serviu voluntariamente no Afeganistão, na luta contra os guerrilheiros da Aliança do Norte, que eram financiados pelos russos”.

Mas Michael Chertoff, que exercia o cargo procurador-geral na época, afirma que Lindh “foi lutar a favor de um regime que era hostil aos Estados Unidos e que apoiou os ataques do 11 de setembro. Para mim, isso é algo muito sério. Não chega a ser traição, mas é como um crime muito próximo”.

Um divisor de águas

As acusações iniciais contra ele afirmavam que Lindh fora convocado pela Al Qaeda para realizar um ataque nos Estados Unidos ou em Israel, mas se recusou. No início de setembro, ele fazia parte de um pelotão de 75 soldados não-afegãos na região de Takhar, no nordeste do país. Foi então que tudo mudou, diz Frank.

“Houve um divisor de águas na história. Os ataques de 11 de setembro aconteceram, e então o governo norte-americano tomou a decisão de mudar nossa política de forma abrupta, e invadir o Afeganistão para derrubar o regime do Talibã”. Logo após o início dos bombardeios aéreos, a unidade de Lindh se viu obrigada a retroceder, caminhando pelo deserto de Kunduz, onde se rendeu à Aliança do Norte. Os soldados foram transportados até a fortaleza de Qala-i-Jangi, nos arredores de Mazar-i-Sharif, que estava sob o controle do general Abdul Rashid Dostum. Lá uma batalha deixou um oficial da CIA e e 100 prisioneiros mortos. John Lindh foi baleado na perna, e se abrigou no porão junto com outros prisioneiros. Lá mais e mais prisioneiros morreram graças a granadas atiradas pelas forças de Dostum pelos tubos de ventilação e de água gelada bombeada numa tentativa de afogá-los. Com estilhaços pelo corpo e sofrendo de hipotermia, Lindh conseguiu chegar à superfície no dia 1° de setembro de 2001 foi entregue às forças norte-americanas.

Foi então, depois de passar sete meses sem notícias do filho, que os pais de Lindh descobriram o que havia acontecido com ele, ao ver um artigo online que trazia uma fotografia granulada, na qual imediatamente reconheceram seu filho. Lindh foi levado a uma base em Camp Rhino, onde, segundo seu pai, ele teria sido “deixado em um contêiner de metal sem aquecimento completamente nu por dois dias no deserto afegão, e suas feridas não foram tratadas”. Em seguida veio o que a mãe de Lindh, Marilyn Walker descreve como “uma interminável tsunami de cobertura negativa na mídia”. O procurador -geral John Ashcroft anunciou que Lindh era “um terrorista treinado pela Al Qaeda que conspirara com o Talibã para matar norte-americanos”. “Aquela imagem ficou marcada na mente das pessoas que estavam arrasadas emocionalmente após o 11 de setembro”, diz Frank.

Foi nessa atmosfera que Lindh foi levado de volta aos Estados Unidos em janeiro de 2002, mas em um acordo de última hora, as autoridades abandonaram as acusações de terrorismo e ligações com a Al Qaeda em troca de uma confissão de Lindh, na qual ele se declarava culpado de apoiar o Talibã e abria mão das acusações de maus tratos”. No tribunal, John Lindh reconheceu: “Cometi um erro ao me juntar ao Talibã… Quero que o povo norte-americano saiba que se eu tivesse percebido na ocasião, o que agora sei sobre o Talibã, nunca teria me juntado a eles”.

No lugar errado

A sentença de 20 anos foi, de acordo com seu pai, a melhor coisa que se podia esperar já que “o poço estava envenenado contra meu filho nos Estados Unidos”. Chertoff defende o resultado. “Ele se declarou culpado, o juiz impôs uma sentença apropriada, e eu acredito que ele irá cumpri-la”. Com relação à afirmação de que Lindh estava no lugar errado na hora errada, Chertoff afirma que “as prisões estão repletas de pessoas que dizem ter estado no lugar errado na hora errada”. Sendo assim, as visitas continuam acontecendo em Terre Haute, onde, separados por um vidro, Lindh e sua família falou por meio de um telefone monitorado.

Lindh nunca dá demonstrações de autopiedade ou faz reclamações, mas já disse a seu pai que essa era uma tática. “Ele sente que reclamar dará munição às autoridades que o mantém preso aqui”, diz seu pai.

Os pais de Lindh tentam acabar com o que acreditam ser uma imagem pública falsa do “Talibã Americano”. “É importante que, em qualquer momento que saia da cadeia, John seja capaz de viver sua vida sem ter que se preocupar com alguém que possa querer machucar-lo”. Embora seus pais esperem que um dia, o presidente possa conceder o perdão a Lindh, tirando-o da prisão antecipadamente, eles reconhecem que essa possibilidade é um tanto remota.

Fontes:
BBC - A decade on for the 'American Taliban'

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1 Opinião

  1. Rudy Lang disse:

    Você confiaria em uma cascavel? Talvez em um aligator? uma aranha armadeira? Bem alimentados, esses animais, enquanto estivessem de barriga cheia, talvez até não sejam tão perigosos quanto os “mussuls”. Pois enquanto os “mussuls” não passarem por um processo de iluminação interior, o que os cristãos e judeus já experimentaram há séculos, eles tentarão retomar, de qualquer maneira, o que conquistaram e perderam no decorrer da idade média, começando pela Espanha. Portanto, luz para cima desses selvagens e muito cuidado. CUIDADO, acima de tudo. Bin Laden foi apenas um exemplo do que essa turma é capaz.

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