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Quando os tucanos já não têm mais força para cantar

Oposição precisa de novos rumos se desejar permanecer no cenário político de forma relevante

Quando os tucanos já não têm mais força para cantar
Apesar de ainda ser o grande partido de oposição, PSDB quase não tem força no cenário político

Tucanos não podem conviver juntos, os grandes bicos ficam no caminho. A frase, amplamente conhecida, não diz respeito aos pássaros nativos, mas aos líderes do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). O partido governou o país durante oito anos, sob as mãos de Fernando Henrique Cardoso, que formou as bases para o posterior sucesso econômico do país. Continua sendo o maior partido de oposição ao governo, mas nas últimas três eleições tem perdido lugares nas casas do Congresso. As próximas eleições acontecem apenas em 2014, mas já existe a disputa entre três tucanos, sobre quem deve ser o próximo candidato. Muitos acreditam que o partido irá se dividir, a menos que rapidamente se unam por atrás das cortinas.

Os candidatos em questão são José Serra, candidato presidencial derrotado em 2002 e 2010; Geraldo Alckmin, governador de São Paulo e candidato presidencial derrotado em 2006; e Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais, atualmente ocupa uma cadeira no Senado. Muitos especialistas esperavam que, após sua segunda derrota, Serra fosse se afastar da disputa em favor do jovem, e mais carismático, Aécio Neves. Entretanto, terminou seu último discurso dizendo: “Esta não é uma despedida, mas um “até logo”, deixando claro que não deixará o caminho livre ao mineiro.

Alckmin tenta colocar Serra em segundo plano, convencendo-o de ser o candidato do PSDB para a prefeitura de São Paulo, em 2012, trabalho já realizado por Serra em 2005 e 2006. Se deixado de lado novamente, Aécio Neves pode deixar o partido. Junto a ele, iriam as maiores esperanças do PSDB de reconquistar a presidência. O atual prefeito Gilberto Kassab, amigo particular de Serra, estaria criando um novo partido, que muitos acreditam que poderia abrigar o candidato, caso o PSDB não aceite suas condições.

Apoiadores de Serra e Alckmin confortam-se com a trajetória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que só ganhou sua primeira eleição na quarta tentativa. Mas a analogia é um tanto quanto distorcida. O Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, construiu uma organização poderosa, enquanto oposição. O PSDB, ao contrário, a cada dia torna-se mais fraco.

Diferentemente do PT, o PSDB sempre foi mais um clube repleto de brilhantes tecnocratas do que uma organização de massa. Os jovens tucanos reclamam que a geração que fundou o partido, que teve importante relevância durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985, não conseguiu submeter-se aos novos nomes do partido. Nas eleições do último ano, muitos jovens optaram por Marina Silva, uma dissidente do PT, atual militante do Partido Verde (PV). A classe média brasileira, principal apoiadora do PSDB, também pode ter migrado. Pesquisas mostram que Dilma Rousseff é tão popular quanto Lula foi em seus três primeiros meses de mandato, mas, ao contrário do ex-presidente, é vista com bons olhos entre ricos e pobres.

Tão prejudicial como a abundância de pretensos líderes é a falta de um programa de governo distinto. Quando Lula assumiu o cargo, adotou as políticas econômicas tucanas. Agora, há pouca distância ideológica entre o PT, cujas raízes estão no movimento trabalhista, e o PSDB. Enquanto Lula esteve no governo, o PSDB vendeu-se como um partido de boa administração, mas com o governo Dilma, que tornou-se conhecida como uma gestora capaz, a tarefa torna-se mais complicada. Até mesmo as privatizações, defendidas por FHC e execradas por Lula, não possuem mais uma diferença definida. Dilma já disse que irá abrir os aeroportos brasileiros aos investimentos privados.

Esta política sobreposta irá confrontar com o vitorioso, na luta pelo poder dentro do PSDB, com uma escolha difícil. O partido deve seguir uma posição de centro-esquerda e torcer para que a maré se volte contra o PT (talvez com um grande escândalo político ou uma recessão econômica? Ou deveria mover para a direita, em um território político praticamente desocupado?

Apesar do custo dos impostos no Brasil ser muito alto para um país de média renda, os políticos continuam acreditando que os gastos públicos – e não o corte nos impostos – os elegem. A população pode ser grata a qualquer tipo de benefício, sem perceber o quanto de impostos pagam por ele. De fato, o bolsa família, carro chefe do governo Lula, deu menos retorno a muitos destinatários, do que eles pagam nos impostos sobre a venda de alimentos.

Um político com a coragem para desafiar os impostos poderia colher ricas recompensas eleitorais, é o que afirma Alberto Almeida, do Instituto Análise, uma consultoria paulista. Em pesquisas recentes, ele notou que os brasileiros, incluindo os mais pobres, teriam despertado para o fato de pagarem altos impostos.  A decisão de Lula de sustentar a demanda durante a recessão mundial, reduzindo temporariamente os impostos sobre a venda de alguns produtos, funcionou como uma cartilha de impostos.

A população até então não havia percebido que uma grande parte do custo de um eletrodoméstico, por exemplo, vai direto para o governo. Quando perguntados se o corte dos impostos deveria ser mantido, aplicado com mais profundidade, ou revertidas as receitas extras para programas sociais, dois terços da população acreditam que os cortes devem ser mais profundos. Este é um dos motivos pelos quais os tucanos precisam aprender uma nova forma de cantar.

Fontes:
The Economist - When toucans can't

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1 Opinião

  1. Paulo Fernando disse:

    Pelo que se nota nesse artigo, os Tucanos tem levado muita desvantagens no campo da liderança política e é notório sim, a cada ano um enfraquecimento político do Partido, isto é, não há um equilibrio de forças como se vê nos EUA, entre os democratas e republicanos. No sistema democrático, a oposição é importante na governabilidade, mas, há tempo de reconstruir, um partido forte de oposição, para que ambos, governo e oposição, caminhem na mesma posição para o bem do Brasil.

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