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Mundo árabe

Que venham os islamitas

Grupos como a Irmandade Muçulmana podem obter vitórias democráticas em países que viveram a Primavera Árabe. Da 'Economist'*

Que venham os islamitas
Partidos islamitas prometem equilibrar religião e política nos países da Primavera Árabe

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Durante anos os ditadores do norte da África e do Oriente Médio se venderam como a única alternativa a uma tomada islâmica do mundo árabe. De fato, o Islã não inspirou a Primavera Árabe – nem mesmo no Egito, onde a Irmandade Muçulmana foi, por muito tempo, a principal força de oposição ao regime de Hosni Mubarak. Teriam os autocratas razão? Após o despertar das revoluções, movimentos islamitas têm ganhado destaque, e partidos políticos organizados sob a bandeira do Islã podem chegar ao poder nas eleições do fim do ano nos parlamentos revigorados da Tunísia e do Egito. Esse cenário deixa liberais seculares por toda a região nervosos com a possibilidade de que os islamitas tomem conta da revolução, transformando-a em veículos para regimes opressivos e intolerantes.

Esses medos são compreensíveis, mas não devem impedir a democracia. Uma vez que os islamitas aceitem as regras da democracia pacífica, como fazem os principais partidos atualmente, eles devem ter uma chance de chegar ao poder, se essa é a vontade dos eleitores. O mundo árabe tentou suprimi-los (com a vergonhosa conivência do Ocidente) e não conseguiu.

Se expor aos islamitas é, de fato, um risco. Nos últimos dias, salafistas, que defendem uma versão puritana e retrógrada do Islã, atacaram manifestantes na Praça Tahrir, e no mês passado, em Tunis, destruíram um cinema que exibia um filme minimamente provocativo, porém falsamente acusado de difamar o Islã. Alguns democratas seculares temem que se os tiranos que ainda resistem na Líbia e na Síria forem derrubados, eles serão substituídos pela pior espécie de islamita.

Tais medos não devem ser exagerados. O termo “islamita” cobre um amplo espectro, e os salafistas são apenas uma pequena minoria. O novo islamismo tradicional, que inclui a Irmandade Muçulmana egípcia e o partido Nahda, da Tunísia, se desenvolveu ao longo dos anos, e agora percebe que a nova geração de jovens árabes usando Facebook e YouTube nunca irão se curvar aos imans anacrônicos que costumavam controlar os grupos islamitas. A maioria modernizadora agora insiste que irá respeitar os direitos das mulheres, que não irão forçá-las a usar véus, que não irão banir o álcool, que irão respeitar minorias étnicas e religiosas e que não irão impor as leis da sharia.

Os islamitas mais pragmáticos alegam que merecem uma chance de provar a sinceridade de suas propostas de políticas pluralistas. Encorajar os partidos seculares a se juntarem contra eles, ou bani-los, como tribunais turcos fizeram em determinado momento para defender o secularismo, tem mais chances de unir as facções que tradicionalmente iriam lutar umas contra as outras e de fomentar a violência.

Muitos seculares céticos árabes dirão que ouviram essas promessas antes, e que após conquistarem um pouco de poder, mesmo que – a princípio aceitem dividir o governo em uma coalizão, eles gradualmente tomarão conta de tudo, estabelecendo regimes no estilo do Irã. E se a população se voltar contra eles nas urnas, eles nunca abandonarão o poder.

O único caminho a seguir

O comportamento dos islamitas da Turquia, que os árabes agora enxergam como inspiração, sugere que essa visão é muito pessimista. Apesar de sinais preocupantes de autoritarismo recentemente, os turcos, em geral, demonstraram moderação religiosa e retidão constitucional e conseguiram domar um exército inclinado a golpes de Estado. Suas credenciais democráticas serão provadas quando eles abrirem mão do poder após uma derrota eleitoral, mas após nove anos no governo, eles parecem casados com as urnas, promovendo a ideia de que o Islã e a democracia podem coexistir. No Egito e na Tunísia, a melhor proteção contra uma sinistra tomada islamita – e um teste antecipado – será a nova Constituição, que separa a mesquita do Estado e garante os direitos das minorias.

A população continuará a se dividir a respeito das relações entre Estado e religião no mundo árabe, como fizeram por séculos na Europa. Mas após 30 anos de estagnação, está claro que nem os sentimentos religiosos nem as aspirações políticas populares podem ser suprimidos. Essas duas forças, o Islã e a democracia, devem encontrar um ponto comum, e a maneira como será alcançado moldará o futuro do Oriente Médio.

Fontes:
The Economist - "Bring the Islamists in"

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2 Opiniões

  1. Rudy Lang disse:

    Quanto otimismo irresponsável.

  2. Eleutério Sousa disse:

    O ideário fatalista fa religião muçulmana não de coaduna com a democracia tipo ocidental…

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