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Raízes da cleptocracia brasileira

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A tomada de consciência do adiantado estado de corrupção na vida brasileira coincidiu com a anedota que se perdeu ao longo do tempo. Sobrou apenas a moral do caso esquecido: depois de passar uma temporada no Brasil, uma senhora voltou para Portugal e, quando lhe perguntavam, como estavam indo os brasileiros, respondeu na bucha: "Aquilo lá está que é uma roubalheira só". Começavam a se tornar explícitas, e até com aceitação social, nos negócios e na política, práticas que causavam estranheza.

A intransigência oposicionista comprometeu, no retorno à democracia depois do Estado Novo, a bandeira da moralidade pública e facilitou a chegada de candidatos que se apresentavam com o slogan "rouba mas faz". Roubar passou a ser mais importante que a capacidade de fazer. O roubo se tornou o subproduto de uma prática que veio a ser tolerada pelo eleitor e contribuinte por sobreviver impunemente.

O regime constitucional de 1946 a 1964 viveu o contraste entre a intolerância e a eficiência (incluído o roubo), mas não lhe garantiu durabilidade. Havia uma crise política latente naquela República que nasceu velha. A primeira República estava carcomida pelo anacronismo representativo e o jogo de empurra das oligarquias, mas as seguintes não melhoraram a identidade democrática a ponto de moralizarem os costumes, a administração e a sociedade.

Com a democracia, o contraste entre maneiras diferentes de governar e roubar passou a girar em torno da opção eleitoral entre roubar e fazer. Não era explícita a opção, mas o eleitor entendia. Prevaleceu a certeza de que a corrupção viera para ficar. Com o fim da eleição direta, a moralidade se retirou em protesto.

No segundo retorno à democracia, com a explosão do eleitorado (multiplicado por cinco) desde a ultima eleição direta (1960), foram-se as precauções éticas. O primeiro presidente (após os militares) eleito pelo voto direto foi tirado do poder sem ajuda de voto, num rompante ético, mas não se providenciou a tranca para a porta arrombada. E assim chegamos ao mais longo e extenso levantamento de irregularidades na vida pública, já no século 21, quando a frase da portuguesa entrou em circulação como moral de fábula política. O Congresso caprichou na quantidade de escândalos que abalaram a confiança dos cidadãos mas não trouxeram cuidado na hora de votar. Depois da temporada do mensalão e do caixa 2, o eleitorado continuou incapaz de extrair dos fatos a lição moral. O saldo aproveitável é apenas a confiança dos cidadãos na democracia, mesmo com o Congresso tendo de se contentar com a mais baixa cotação de toda a história brasileira.

Dizia Aluízio Salles, personagem da noite carioca, que a generalização do roubo na vida brasileira indicava a existência de uma verdadeira mania brasileira de roubar. A seu ver, caracterizava-se um caso de cleptomania. Daí à cleptocracia foi apenas um pulo. Até para votar matéria de interesse público, deputados e senadores negociam vantagens, nomeações, verbas e prestigio que captem votos populares nas eleições.

A cidadania começa esboçar uma consciência de culpa ao querer saber como foi possível a inversão de valores nessa proporção. Quer saber como se conciliou o funcionamento normal das instituições com os costumes capazes de demolir qualquer regime. Processa-se na vida brasileira a indagação de cada cidadão a respeito do que fez e do que deixou de fazer para que a sensação coletiva chegasse a esse ponto de desconforto moral.

Que motorista, ao ser parado por transgressão das normas do trânsito, resiste à tentação de passar ao guarda que lhe pediu documentos uma recompensa monetária? É equívoco admitir que, por morar numa comunidade pobre, alguém possa fazer ligação clandestina, chamada de "gato", para ter luz sem precisar pagar. Repete-se a ligação clandestina no caso de utilizar sem pagar a televisão por assinatura. São da mesma espécie criminosa as cópias piratas de DVDs e CDs que concorrem deslealmente (por não pagar impostos e direitos autorais) com empresas que operam dentro da lei. O espírito criminoso que divulga senhas de acesso a programas de computador nos sites de hackers também contribui para desacreditar os homens e as instituições.

Restaurantes que se apropriam de um pedaço das calçadas, onde armam mesas e servem os clientes, desrespeitam os pedestres que por ali passam, idosos e deficientes físicos. As calçadas também não fazem exceção a motoristas que deixam de procurar garagens e estacionam os veículos no espaço dos pedestres. As pequenas transgressões não se limitam a cidadãos sem espírito público. Não é raro qualquer um assistir a um motorista de veículos policiais estacionar irregularmente como se estivesse dispensado de observar as normas de trânsito. Um levantamento completo de pequenas transgressões da vida diária ajudaria na formação de uma consciência de responsabilidade pública do cidadão. Cada cidadão, além de pagar impostos e observar a lei, passaria a cobrar dos outros cidadãos, e dos políticos principalmente, um novo padrão de conduta.

Este é um Brasil que parece estar longe no tempo mas, por força da opinião pública, poderá se antecipar desde que ninguém se esconda atrás das pequenas transgressões e queira, farisaicamente, exigir dos outros um comportamento exemplar, de que se dispensa.

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9 Opiniões

  1. Markut disse:

    Complementando o comentário de Valadares, quanto à cleptocracia,que impera entre nós,volto a bater na tecla que, solução para este problema, só a médio e longo prazo,desde que se dê início, imediatamente, a um processo de educação básica competente e se deixe para trás ,políticas demagógicas de assistencialismo contraproducente, que só servem para perpetuar, no poder, aqueles que lá já estão instalados.
    A leniência do povo está diretamente ligada à falta de escolaridade competente,que deveria ser uma bandeira a ser desfraldada prioritariamente. Porem, num verdadeiro círculo vicioso, isso dependeria de um apetite cívico e político, que, dentro do atavismo da nossa cultura colonial, não temos ainda.
    Recomendo a leitura do enfoque original de Alberto Carlos Almeida "Educação faz bem", onde se conclue que a leniência e acomodação do povo é diretamente proporcional à falta de escolaridade básica.
    É conveniente para os refestelados no poder,manter a massa eleitora desinformada e anestesiada, pouco importando o que isso significa de prejuizo para a cidadania e para a melhoria do status social de um povo que seja mais bem preparado para as exigências funcionais que a economia globalizada exige.
    Este problema não é so brasileiro, mas ,sim, de toda a América Latina.
    Vamos ter que esperar que surja uma liderança aquinhoada pelos deuses de um mínimo de espírito cívico e de postura de Estadista?
    Somos um país que tem tudo para se tornar a tão desejada potência emergente.
    Graças, porem. ao nosso atavismo cultural, vamos continuar deitados em berço esplêndido?

  2. EDVALDOTAVARES disse:

    A SÚPLICA DE UM BRASILEIRO. Após a queda da malfadada CPMF o presidente Lula afirmou que não seriam criados novos impostos para compensar os 40 bilhões, que não mais teria. Uma vez terminado o 2007, o Ministro da Fazenda diz que a regra somente valia para o ano passado. O presidente afirma o corte na veia das despesas públicas e, ninguém vê a desativação de secretarias, demissão de apadrinhados e extinção de do assistencialismo demagógico. Na verdade, a medida é: não haverá aumento de salários dos servidores públicos civis e militares e, o IOF é agigantado. Como posso ser honesto se os primeiros a me roubarem são os órgãos do governo? Como não comprar DVD ou CD pirata, de boa qualidade, por R$ 5,00 se um original, cheio de impostos, custa de 29,00 a 45,00 ou mais reais? Ensinem-me, por favor, eu quero ser totalmente honesto. Quero acreditar em todas as autoridades, quero falar sem medo de errar que nos diversos segmentos do Executivo, Legislativo e Judiciário todos são honestos. Quero ter fé no meu presidente, no meu STJ, STF, no meu prefeito e até no meu vereador. Quero circular pelos quatro cantos do meu país executando todos os tipos de negociações e pagar todas as dívidas e impostos sem um pingo de receio de estar sendo enganado, pela propaganda comercial, no peso, na qualidade dos produtos adquiridos e, roubado no troco, nos impostos ou no mais insignificante relacionamento de negócio. Como brasileiro em atitude de súplica, rogo encarecidamente: "Deixem-me ser 100% honesto, pelo amor de Deus. É o que mais desejo". "BRASIL ACIMA DE TUDO". EDVALDOTAVARES. MÉDICO. BRASÍLIA/DF.

  3. FELIZARDO CLEMENTINO VIEIRA disse:

    Em primeiro lugar se é portuguesa é suspeita, porque ja se esqueceu dos santinhos do pau oco (as imagens de santo no Brasil eram feitas com um buraco no meio que eram para levar nosso ouro e jóias preciosas e não serem identificadas).
    Este pessoal do DEMO é mesmo do DEMO, estão desesperadas com os indices de aprovação do governo LULA então vivem o tempo todo tentando desqualificar o nordestino que esta fazendo mais pelo país do que eles fizeram nos últimos 502 anos , aliás , só depredaram, dilapidaram, é uma pena, que estas pessoas não consigam por nenhum momento se colocarem no lugar dos outros, para avaliar, o que é ser uma pessoa de cor, o que é ser um analfabeto, o que é uma mãe não ter o que da de comer a um filho ( sim porque ainda hoje os padres e pastores de muitas igrejas ainda são contra ao uso de preservativos e outros modos de prevenção ainda dizendo que elas as mães irão para o inferno se fizerem uso destas prevenções e não é muito necessário ir muito longe das capitais ou dos grandes centros). LULA DE NOVO COM A FORÇA DO POVO.

  4. rian disse:

    Chega de querer denegrir os que nos ofendem com razão. Enfiemos a carapuça. Melhor palavra impossível. sim, estamos numa cleptocracia.

  5. FELIZARDO CLEMENTINO VIEIRA disse:

    Eu não concordo com este texto em nenhuma linha. Mas e assim o fosse, quais foram as primeiras pessoas que foram deixadas neste país pelos saqueadores portugueses? Porque todo mundo fica o tempo todo só apontando o que os outros fazem, mas quando é a vez dele ser honesto ele diz “eu estou sobrevivendo”!” eu estou defendedo o leite das minhas crianças!” São muitas poucas as pessoas que podem dizer que não tem o rabo preso, nem que seje com sua consciência? São muito pouco os jornalistas que ao procurarem dizer as verdades no jornal, os seus editores não mandaram eles retificarem os seus escritos, inclusive mentindo a favor desta ou daquela versão, e eles ainda assim continuaram nos seus locais de serviço. E por favor não me venha com a moral norte americana que mataram todos os seus indios , devastaram todas as suas florestas e querem obrigar que sejamos educados com os nossos indios com nossas florestas, o mesmo vale para a europa e etc .

  6. MARIA MARINA SILVA disse:

    A corrupção vem, na verdade, de nossa capitalista elite branca, que sempre dominou e continua a comandar o Brasil. Enquanto isso, negros, nordestinos, índios e pobres sofem com a mamata.

  7. Zearmando disse:

    Endosso as palavras de EdvaldoTavares. Acrescento, ainda, que tem muita gente cheia de ideologias ultrapassadas que não vê a descarada ajuda que o (nosso, diga-se de passagem) governo se compremeteu a mandar para Cuba, em detrimento de muitos projetos relevantes inacabados ou por serem iniciados aqui, no Brasil, por falta de verbas. Diga-se de passagem, serão enviados para Cuba numerário da ordem de R$ 1 bilhão. E aumentam a carga tributária para cobrir "buracos" deixados pela extinção da CPMF.
    Acho que tem muita gente cega, surda, muda e, acima de tudo, desinformada. Ou se faz passar por tal.
    Coisa de políticagem tupiniquim.
    E a gente tem que aguentar indivíduo que acha que pode, simplesmente, fazer uma lavagem cerebral no povo e fazer com que acreditemos nas suas ideologias furadas.

  8. lian disse:

    E o pior para a maioria e o melhor para a minoria,é que o país só funciona em seu organismo interno com a corrupção.Ela,é inerente ao da SOCIEDADE DE CONSUMO QUE É COMPORTAMENTAL.Uma nação Cleptocrata na atual circunstância é que gera o sistema,portanto não rompe-se de chofre,demora bastante.Saiba que a partir do momento em que a política e a mídia se entrelaçam,tudo tende ao massacre da critica popular,enfraquecendo as reações.

  9. Elzí disse:

    Isso acontece todos os dias. No centro de Basília por exemplo os policiais PM, os agentes do DETRAM sobem nas calçadas que foram feitas recentemente e não podemos fazer nada porque eles se acham no direito de não cumprir as Normas que o cidadão comum cumpre. Além de concordar com tudo acima escrito eu acho também que o câncer no Brasil está mais que enraizado a cleptocracia não tem cura.

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