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PRESSÃO DE TODOS OS LADOS

Sergio Moro aos leões

Crise gerada por vazamento de mensagens da Lava Jato erode o apoio a Moro no Congresso, no meio jurídico, na imprensa e com parte da população

Sergio Moro aos leões
O ex-juiz, agora, só se segura ao cargo por vontade de Bolsonaro (Foto: Rodrigues Pozzebom/ABr)

Muitos se surpreenderam quando, em novembro passado, Sergio Moro aceitou o convite de Jair Bolsonaro e se tornou ministro da Justiça. O movimento do ex-juiz da Lava Jato gerou questionamentos não só entre seus críticos, mas entre renomados agentes de operações de combate à corrupção.

Gherardo Colombo, um dos juízes encarregados da operação Mão Limpas, que apontou conexões entre a máfia e a classe política na Itália, frequentemente citada como inspiração da Lava Jato por Moro, foi um dos que estranhou sua “súbita” conversão à política, depois de, como juiz, influir nas eleições. “Isso é uma coisa que na Itália teria escandalizado muito”, disse, em entrevista à revista Quatro Cinco Um.

Também membros da força tarefa da Lava Jato, como revelam as mensagens publicadas pelo The Intercept, se preocupavam com o impacto da decisão de Moro nos rumos da operação. Em mensagens privadas, Deltan Dallagnol questionou colegas sobre como o ex-juiz se portaria frente a suspeita de corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro. Faria vista grossa?

Já Lula, em entrevista, profetizou: Moro sucumbiria às pressões de Brasília. É o que vem ocorrendo rapidamente desde o vazamento das mensagens privadas de integrantes da Lava Jato. Mas o processo de esvaziamento do ministro começou antes, em grande parte por obra de seu chefe, o presidente da República.  

Se no início do ano alguns otimistas viam na figura de Moro um contraponto jurídico aos prováveis rompantes autoritários de Bolsonaro, com o tempo ficou claro que seria o presidente quem moderaria as ações do ministro da Justiça, não o contrário.

Nem liberdade para nomear uma substituta para o conselho do ministério foi dada a Moro por Bolsonaro. O ministro foi obrigado a recuar da escolha de Ilona Szabó, especialista em segurança pública, pois os filhos do presidente a consideraram “esquerdista” demais para o cargo.

Em seguida, o presidente declarou que tinha a intenção de nomear Moro para o Supremo Tribunal Federal quando surgisse uma vaga, o que está previsto para o fim de 2020. Como a nomeação só pode acontecer depois de sabatina no Senado, o ex-juiz viu-se, desde então, exposto a avaliação dos políticos.          

E os atritos com os congressistas começaram também antes dos vazamentos. Anunciado como “ministro-técnico”, Moro viveu um embate com Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara, ao pressioná-lo pela aprovação de seu criticado pacote anticrime. Maia avisou, via Twitter, que quem dita a pauta da Casa são os deputados, e não o “funcionário de Bolsonaro”.

Mas a gota d´água veio mesmo com as mensagens da “Vaza Jato”. De ministro “indemissível”, o ex-juiz, agora, só se segura ao cargo por vontade de Bolsonaro.

Pressões de todos os lados

As reações de Moro ao escândalo das mensagens vazadas marcaram o fim de sua atuação “técnica”. Antes sóbrio e cortês no trato com a imprensa e políticos – o oposto da esplanada bolsonarista – o ex-juiz partiu ao ataque para se defender das acusações.

Convocado na Câmara e no Senado para explicar o conteúdo das mensagens, Moro utilizou-se das táticas de seus investigados na Lava Jato. Questionou a veracidade das mensagens, sem negar que possa tê-las escrito; sem desqualificar por completo o conteúdo, procurou chamar a atenção para a forma como foi obtido; e, por fim, insinuou que o objetivo da publicação do material não seria esclarecer a forma como se deram as investigações da Lava Jato, mas favorecer corruptos condenados. Em diversos momentos, bateu boca e ironizou deputados da oposição.

Sintomaticamente, Bolsonaro elogiou a atuação do ministro frente aos congressistas. A imprensa, por sua vez, que antes o apoiava de maneira quase incondicional, em parte o abandonou: jornais como Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo pediram, em editorial, o afastamento do ministro para o esclarecimento do caso. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) fez o mesmo.

Com a popularidade em baixa desde o início do ano, Bolsonaro lançou uma boia salva-vidas a Moro. Convidou o ministro para assistir a um jogo de futebol ao seu lado no estádio Mané Garrincha, em Brasília, oportunidade na qual o ministro vestiu a camisa do Flamengo.

Mas o estrago estava feito: 58% da população reprovou a conduta de Moro no caso das mensagens vazadas, indica o DataFolha. Só 31% não viu problemas nos diálogos dele com Dallagnol. Bolsonaro, atento ao movimento da população, disse que “não confia 100% em ninguém”.

Com novas conversas vindo à tona, Moro, enfraquecido, pediu licença de uma semana do cargo para lidar com “assuntos pessoais”.

Na volta da licença, novos fatos pareciam favorecer o ministro. Quatro suspeitos de terem hackeado os celulares de Dallagnol foram presos, e um deles afirmou ter repassado as mensagens para o site The Intercept. Disse, ainda, que diversas outras autoridades tiveram seus telefones invadidos.

Por erro de cálculo ou por sucumbir à pressão, Moro avançou o sinal. Deu declarações em que insinua ter tido acesso às investigações da Polícia Federal – que correm em sigilo – e ligou para membros do STF e do Congresso que supostamente foram também hackeados. Disse, por fim, que mandaria destruir as mensagens – atribuição que não é sua.

As reações foram imediatas. Se sentindo constrangidos por Moro, o STF determinou que o material apreendido seja compartilhado com a Corte, evitando que as mensagens se percam. Membros da PF externaram desconforto com o ministro, que estaria desrespeitando a independência investigativa do órgão.

Em outro lance mal calculado, o ministro expediu uma portaria que prevê a deportação de estrangeiros “suspeitos” no Brasil. A decisão foi lida como uma ameaça a Glenn Greewald, responsável pelo site The Intercept. Associações de jornalistas do Brasil e diversos outros países saíram em defesa de Glenn, e o próprio Ministério Público se pôs a investigar a portaria, vista por muitos juristas como inconstitucional.

Nesse meio tempo, o STF decidiu, a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PSL), pela suspensão dos processos com dados compartilhados pelo Conselho de Administração de Atividades Financeiras (Coaf). Sobre a medida, que enfraquece a operação Lava Jato, mas livra o filho do presidente de investigações, o ministro da Justiça não fez nenhum comentário. Era o que temia Deltan Dallagnol.

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10 Opiniões

  1. José Antonio Alves disse:

    Não se preocupem agora com Moro. Ele será o próximo ministro do STF a ser nomeado pelo Presidente Bolsonaro. Aí, os corruptos que fazem lobby contra ele cairão por terra.

  2. DINARTE DA COSTA PASSOS disse:

    Só você acredita nesta possibilidade! MORO está na hora de renunciar, várias autoridades que se prezam ou prezaram por seus nomes já fizeram ou fazem isso. Quanto mais sangrar melhor para oposição. O sonho de ser Ministro do Supremo Tribunal já afundou e o que pode acontecer é ele pegar uma boa “cana” por ter manchado a imagem do Judiciário com sua imparcialidade.

    VOU ASSISTIR DE CAMAROTE ESTE EPISÓDIO!

  3. Eleutério sousa disse:

    MANCHAR A IMAGEM DO JUDICIÁRIO? ACHA QUE PODE SUJAR AINDA MAIS? O BRASIL É CONHECIDO POR TERRA DA IMPUNIDADE… OXALÁ O MINISTRO CONSIGA ENDIREITAR O PAÍS…. MAS, ATÉ LÁ, “EM RIO QUE TEM PIRANHA, JACARÉ NADA DE COSTAS!”

  4. Leonora HERMES LUZ disse:

    O interessante é que que acredita em Moro herói, Bozonaro presidente, Olavo decente e Estados Unidos aliado bonzinho também crê que escancarar o cinismo desse bando de crápulas no poder atualmente é “lobby de corruptos”. Nego não lê, não se informa, não pesquisa e o Brasil vai ficando careca, desfalcado, submisso e cada vez mais desigual.

  5. Pedro disse:

    #LULALIVRE E #MORONACADEIA

  6. jayme endebo disse:

    Moro vai continuar ministro e será nomeado para o supremo. Quem acredita em informações de militante camuflado de jornalista é fanático ou ingenuo.A lava jato vai continuar e ainda tem muito bandido para ir pra jaula.

  7. Rogerio de Oliveira Faria disse:

    Des Moro nando…

  8. Ataíde Duarte disse:

    Leandro, sua matéria é fundamentada exclusivamente na sua vontade de que tal fato ocorra: que Sérgio Moro seja jogado aos leões. Não há qualquer base teórica, que valide o que você escreveu. Está explícita somente a sua pretensão. Conclui-se, portanto, que sua escrita – como diz acima o Jayme Endebo – é a de um militante petista travestido de jornalista. Um detalhe relevante: na sua matéria você diz que o Sérgio Moro bateu boca com os congressistas. Cite, por favor um caso.

  9. Francisco V. S. Sobrinho disse:

    O Sérgio Moro deveria ter ficado era quietinho lá no cargo dele, aí continuaria seu trabalho com independência, não ficaria atrelado ao executivo, manteria a credibilidade na sua atuação como juiz e poderia condenar ou absolver qualquer um que fosse do lado A, B, C … Z, sem nenhum constrangimento. Era certo que ele como ministro não teria poder de nada, não manda nada, depende do presidente “deixar” e dos congressistas, que deveriam assumir a devida posição de representantes dos cidadãos que os colocaram lá em cima, mas que “não estão nem aí para o compromisso que assumiram”, aprovarem. Coitado, foi “um bobão”.

  10. Rogério Freitas disse:

    “A verdade vos libertará”.
    A mentira travestida de verdade vos escravisará.
    É dificil acreditar no Sr. Moro, suas atitudes o condenam.

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