Está difícil baixar a tensão pré-eleitoral. O maior interessado, o presidente Lula, simula sair das especulações por ser pessoalmente contra o inexistente terceiro mandato. Sem resultado prático mas até com riscos. A sucessão de 2010 volta aos bastidores, de onde não deveria arredar pé antes da hora. A cada quinzena, entre duas viagens, o presidente repete a renúncia que ninguém leva a sério porque em desacordo com as circunstâncias.
O modo prático de não deixar a idéia do terceiro mandato se desidratar foi sacá-la periodicamente do bolso e deixá-la engatinhar. A maneira insuspeita de não cair no vazio é programar desmentidos reincidentes. Uma coisa, porém, não anda sem a outra. O terceiro mandato vive em balão de oxigênio. Quando ninguém toca no assunto, o presidente desanca com insinceridade a outra reeleição, a oposição aproveita e põe numa cesta Lula, a sucessão de 2010 e o terceiro mandato. A mal contada história começou quando Lula foi reeleito, reapareceu das cinzas a idéia de trocar a reeleição pelo mandato de cinco anos. Durou pouco. O terceiro mandato surgiu com jeito de contrabando exatamente de onde se esperava: o saldo social do novo eleitorado que, graças às pesquisas, mostra apetite para quantos mandatos houver. Daí o motivo de Lula ostentar aquela visível felicidade de gato de porta de açougue. Juntaram-se, a esta altura, a fome e a vontade de comer, com ou sem metáfora, e a idéia do terceiro adquiriu o sentido que lhe faltava. Só o terceiro mataria a fome de votos dos localizados abaixo do nível de consumo conspícuo da democracia.
Único interessado legítimo, a Lula não convinha abrir cedo demais o debate, e o custo aumentar por tabela. Também não lhe cabia abster-se. O desinteressado é o PSDB, às voltas com dois candidatos bem tratados pelas pesquisas. Lula deu aquele passo atrás, a renúncia, para dar dois à frente na hora certa, pela dialética do sindicalismo. Mas precisava de uma estratégia que lhe permitisse fazer média democrática sem deixar cair a peteca, que vem a ser o terceiro mandato, com a volta da renúncia por cima.
Já a oposição estacionou na perda da noção de diferença entre o que é objetivo e o que é subjetivo. Uma vez por semana, alguém cita a prioridade de Lula e a oposição se encarrega de fazer ameaças que não cumpre. Primeiro pareceu que Lula tinha desistido, mas logo se viu que era só da boca para fora. Para dentro ele degustava a hipótese. Bastaria administrar o tempo, depois que as pesquisas sobre preferências dos eleitores preencherem o vazio político. Sondagens de opinião pública não curam, mas têm efeito de tranqüilizante cívico. E não deixam as expectativas murcharem.
O presidente tem prazer em provocar a oposição que, para argumentar, parece peixe com falta de oxigênio em água rasa. Enquanto Lula se dá ao luxo de recusar o que não existe. Comprometer a própria biografia, não. Comandar de longe a operação, também não. Fica subentendido que, a continuar esse desencontro nacional, algo mais pesado estará à espera da democracia brasileira. Um governo sobrecarregado de promessas de votos e uma oposição em dívida com a classe média amuada não encontram outra maneira de viver o tempo legal. Do lado do governo, não há candidato com um mínimo de requisitos para disputar com a oposição a preferência do eleitorado. Do lado oposicionista, falta tudo, exceto candidatos recomendados pelas pesquisas. O vago mal-estar nacional de fundo ético não se traduz em decisão. Por enquanto, é tudo subjetivo, embora não desprovidas de razão as suspeitas de intenção oculta por parte do governo (aliás, de qualquer governo). Até a oposição balança com imprudência no legalismo confinado a comissões parlamentares de inquérito. A democracia não deve sua atual aparência frondosa às CPIs, mas também não está ameaçada pelo excesso de fanfarronadas oficiais que ficariam melhor em pregão de bolsa de valores.
Por enquanto, Lula não pode dizer que aceita. Deixa subentendido, para o pessoal petista, que recusa agora, mas se não depender dele, aceitará se ocorrer consenso. Daí porque Lula, sócio do tempo, investe a longo prazo em votos futuros, além do ciclo pessoal de vida política útil.
Não é por outra razão que a oposição, para dizer o mínimo dessa tendência sem rumo, investe na suspeita. A matéria prima nacional pode alimentar CPIs que, eleitoralmente falando, têm sido estéreis. Para qualquer lado que a oposição se vire, dá de cara com o problema. Falta-lhe resignação para viver fora do poder. Já o governo sabe o segredo para sobreviver sem precisar explicar porque faz exatamente o oposto do que prometia.
O impasse se desenha acima de governo e oposição. E, se não for equacionada politicamente, a tensão vai permear uma sociedade que já viveu (e parece ter esquecido) situações, no mínimo, parecidas. Quando a decisão política não vem de dentro das urnas, a solução — como a água solta — procura até encontrar uma saída. E encontra. A questão do terceiro mandato foi recolhida à gaveta dos problemas que o tempo encaminhará na devida oportunidade. Não é que Lula tenha ficado incontrolável. Já era. Mas a hipótese do terceiro é viabilizada, de um lado, pela inércia administrativa do governo que nos falta e, de outro, pela oposição que temos. Não houve necessidade de pesquisa para verificar que, de um jeito ou de outro, o terceiro continua em todas as cabeças.


"Gato de porta de açougue."
Você está de parabéns!
Está colocação foi perfeita.
Adorei a matéria.