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Uma nova era na política externa norte-americana

Participação limitada e sucesso na operação para derrubar Muammar Khadafi apontam para um novo modelo norte-americano de intervenção. Por Fareed Zakaria*

Uma nova era na política externa norte-americana
Intervenção na Líbia tem tudo para ser um divisor de águas na política externa dos Estados Unidos

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Em março, muitos neoconservadores em Washington criticaram a maneira com que Barack Obama controlava a intervenção na Líbia, afirmando que suas ações eram poucas e vinham muito tarde – que sua abordagem era multilateral e pouco coesa. Eles continuaram a criticar Obama por, nas palavras de um consultor anônimo da Casa Branca, “liderar do fundo”.

Mas agora que esses críticos estão sendo confrontados com o sucesso da operação na Líbia, o discurso mudou e os neoconservadores estão reivindicando o crédito pela operação, e afirmando que se seus conselhos tivessem sido seguidos, a intervenção na Líbia teria sido mais eficaz e com um sucesso ainda maior. Mas a intervenção deu certo justamente por não seguir o padrão tradicional das intervenções norte-americanas, e, de fato, deu origem a uma nova era na política externa dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos decidiram que só iriam intervir na Líbia se pudessem estabelecer uma série de condições:

1) Um grupo local disposto a lutar e morrer por mudanças; em outras palavras, um “contingente nativo”.

2) Legitimidade reconhecida na forma de um pedido de intervenção da Liga Árabe.

3) Legitimidade internacional, de acordo com a Resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

4) Divisão genuína do fardo com os britânicos e os franceses, determinando claramente quantas tropas eles estariam dispostos a ceder e precisamente qual o nível de comprometimento que eles estariam dispostos a assumir.

Foi somente depois que todas essas condições foram cumpridas, que o governo norte-americano aceitou desempenhar um papel essencial, ainda que de coadjuvante na operação na Líbia.

É importante enfatizar que embora esse papel fosse “de coadjuvante”, os Estados Unidos foram indispensáveis para a intervenção. Nenhum outro país conseguir eliminar a força aérea de Khadafi em três dias. Como o país ainda estava “apoiando” a operação após os ataques iniciais, os Estados Unidos se mantiveram nos bastidores e pediram à OTAN que fizesse o trabalho pesado, intervindo somente que julgasse necessário. Todas essas características sugerem um modelo bastante diferente de intervenção, e um avanço em relação sobre o velho, cara e expansivo modelo anterior.

Esse novo modelo tem duas características interessantes:

Em primeiro lugar, garante que haja uma aliança local genuinamente comprometida com os mesmos objetivos da coalizão estrangeira, o que significa mais legitimidade. E se há algo que as intervenções no Afeganistão e no Iraque nos ensinaram e que a legitimidade local é essencial.

Em segundo lugar, esse modelo garante que haja um compartilhamento genuíno da missão que evita que os Estados Unidos terminem donos dos países como aconteceu tantas vezes no passado.

A operação na Líbia custou US$ 1 bilhão, enquanto as guerras no Iraque e no Afeganistão custaram mais de US$ 1 trilhão. Não parece um modelo ruim para o futuro.

Existem críticos dessa abordagem na direita e na esquerda. Alguns à esquerda – os grandes internacionalistas liberais – estão horrorizados com o fato de que a população de Benghazi gritava o nome do presidente francês Nicolas Sarkozy. Eles acreditam que apenas o nome de Obama deveria estar na boca dos líbios liberados. Mas na verdade, não há nada errado com um mundo em que europeus estejam associados à causa da liberdade. Isso significa que eles estarão mais dispostos a assumir parte do trabalho e dos custos das intervenções. E também significa que eles estarão mais envolvidos no difícil processo de reconstrução.

O velho modelo da liderança norte-americana – no qual o país tomava as decisões sozinho, lidava com todos os problemas, pagava todos os custos e ficava com toda a glória – tem que mudar. Os políticos em Washington devem perceber que quando outros países se envolvem, eles também irão ficar com parte do crédito. É mais importante que a Líbia seja salva, e não que os norte-americanos sejam vistos como os únicos salvadores.

No futuro, o país terá novamente que seguir esse modelo limitado de intervenção. Os Estados Unidos não precisarão ter o orçamento de defesa ou a vontade nacional de se envolver em uma série de grandes operações militares em países que, francamente, não são vitais para seus interesses nacionais. A questão, no entanto, era que a revolução líbia foi um importante evento no contexto da Primavera Árabe, e se os Estados Unidos pudessem ajudar, seria de imenso benefício para ambos os países.

A pergunta antes da Líbia era: Esse tipo de intervenção pode ser bem-sucedida mantendo os custos – humanos e financeiros – sob controle?

Sim.

* Editor-chefe da revista Time e comentarista da rede de TV CNN

Fontes:
CNN.com - "A new era in U.S. foreign policy"

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4 Opiniões

  1. EDVALDO TAVARES disse:

    COMO SE DESTRÓI UM PAÍS

    A política externa americana está baseada no emprego de estratégias para que se apoderem das riquezas dos países os quais foram estabelecidos como alvos.

    No presente momento os interesses estão focados na manutenção do prestígio dos dólares “fajutos e furados” espalhados pelo mundo. E, o Petróleo é a principal comoditie, que o digam Iraque e Líbia. Quando o Nióbio for escolhido, no devido momento, como prioritário entre as comodities da vez, se houver resistência do povo, governo, entidades e Forças Armadas Brasileiras, o leitor do O&N poderá saber o que acontecerá ao Brasil na declaração de um antigo assassino econômico americano – http://aeiou.expresso.pt/assassino-economico-como-se-destroi-um-pais-video=f659998

    O leitor deste informativo deve fazer uma analogia da reportagem do assassino econômico dos USA com a demarcação de reservas indígenas (Reserva Indígena Ianomâmi, Reserva Indígena Raposa/Serra-do-Sol) e etc.), principalmente na Amazônia, e demarcação de áreas quilombolas; Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas; Centro de Lançamentos de VLS de Alcântara/MA; e demais insinuações de representantes de vários países em relação ao Brasil.

    Estou neste momento na Europa (França e Portugal), de onde mando este comentário e é acentuada a ênfase dada pelas TVs daqui sobre a quase queda de Kadhafi (irmãozinho do Lula) e a insinuação de que esteja refugiado em Cuba ou na Venezuela. Diante do conhecimento do conteúdo deste vídeo, que tomei aqui, em Portugal, fico em dúvida se a extinção do atual regime líbio é importante para o povo líbio ou para o império americano. Portanto, com a anuência do O&N coloco neste meu comentário o endereço eletrônico sobre essa declaração de um assassino econômico para que os brasileiros tirem as suas conclusões e fiquem mais espertos.

    BRASIL ACIMA DE TUDO. SELVA!

    DR. EDVALDO TAVARES – MÉDICO E DIRETOR EXECUTIVO DA INSTITUIÇÃO RAIZ DA VIDA, http://www.raizdavida.com.br, VISEU/PORTUGAL

  2. Luis Romero Verdejo disse:

    Será que já não chega de tanto intervencionismo americano ??? Daqui a pouco, vão vir derrubar a Dilma (não que seja “inderrubável”) e colocar a múmia do Antonio Carlos Magalhães (Toninho Malvadeza) no poder!!!

  3. Carlos U. Pozzobon disse:

    Parece que a questão da derrubada de Kadafi funcionou melhor assim do que se os EUA tivessem se envolvido diretamente. Como é caso resolvido, o problema agora é a Síria. Se os EUA conseguissem da Turquia o apoio aos insurgentes sírios, já teria desempenhado um bom papel. O que demonstra que a diplomacia tem uma tarefa até mais importante do que a mobilização militar. Afinal, os caças americanos já são usados pela Turquia e Arábia Saudita. E a Síria ainda mantém a geração Mig antiga. Portanto, Obama tem outros meios de ação que não só são diferentes dos empregados no Iraque e Afeganistão, como é capaz de obter ganhos políticos com relação aos republicanos. Isso só vai aparecer no próximo ano.

  4. CARLOS ABEL disse:

    O Prêmio Nobel da Paz, o Sr. Obama, juntamente com outros nobéis da França e da Inglaterra, aliados à covardia da China e da Rússia, e com a tibieza da ONU, na fase atual da história, resolvem quem pode ou não pode ser governo neste nosso planeta. Resolveram derrubar Gadafi (ou Kadafi?) e como ficam os outros déspotas, por exemplo, a turma da Arábia Saudita, um regime de terror tão ou quanto selvagem como o da Líbia? E a desculpa imperialista de que estão protegendo os civis? Estão protegendo ou matando?

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