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Por que a dengue continua a assustar São Paulo?

No Brasil, o estado é o terceiro com maior incidência de casos por habitantes

Por que a dengue continua a assustar São Paulo?
A doença ocasionada pela picada do mosquito Aedes aegypti, contaminado pelo vírus, não é uma raridade no Brasil (Reprodução/James Gathany/Wikimedia)

O aumento do número de casos de dengue no estado de São Paulo tem assustado a população. Mas será que apenas a época do ano fez com que a epidemia se alastrasse? Será que a crise hídrica também está interferindo na epidemia?

Segundo o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, São Paulo é o terceiro estado com maior incidência de casos por habitante. O estado apresentava 117,7 casos por cem mil habitantes no período entre 4 de janeiro e 14 de fevereiro. A cidade com maior incidência da doença em todo país é a pequena Trabiju, a 308 km da capital paulista. Apesar de registrar apenas 113 casos atualmente, segundo o diretor interino de Saúde, William Letice, o número é significativo, considerando que Trabiju tem apenas 1.650 habitantes, segundo o IBGE.

A doença ocasionada pela picada do mosquito Aedes aegypti, contaminado pelo vírus, não é uma raridade no Brasil. “A ocorrência de epidemias de dengue não é novidade; trata-se de um evento epidemiológico que vem ocorrendo e se repetindo em diversos estados e regiões do país ”, diz Rodrigo Angerami, médico infectologista, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia. De acordo com dados da Superintendência de Controle de Endemias da Secretaria de Saúde de São Paulo, desde 1990/91, quando foi registrada uma epidemia de grandes proporções, com início em Ribeirão Preto, as epidemias de dengue vêm ocorrendo todos os anos no estado.

O médico lembra que dois elementos contribuem fortemente para a ocorrência de epidemias: a proporção de indivíduos suscetíveis ao sorotipo circulante em dado momento em uma área específica, ou seja, pessoas que ainda não tinham sido expostas a um ou mais sorotipos específicos do vírus da dengue, e que por isso não apresentam imunidade para tal; e a taxa de infestação do mosquito vetor, o Aedes aegypti. Estes foram exatamente os dois fatores que o diretor interino de Saúde de Trabiju apontou como as possíveis causas do aumento do número de casos no município. “O aumento inesperado do número de casos, conforme dados preliminares, ocorreu possivelmente devido à existência de um grande foco em área próxima à urbana, o que culminou em um aumento expressivo no número de casos. Outro fato relevante é que a população estava suscetível à doença, uma vez que o município não havia registrado ainda grandes números de casos.“

Mas o que a crise hídrica poderia ter haver com a dengue? Segundo Angerami, a falta d’água pode estimular o aumento dos criadouros do mosquito. “Era mais do que previsível que dentre as diversas consequências decorrentes da chamada crise hídrica estaria o risco de aumento da infestação pelo Aedes aegypti a partir dos criadouros voluntariamente criados pela população no enfrentamento da escassez de água”, explica.

A pesquisadora Denise Valle do Instituto Oswaldo Cruz, lembra de alguns cuidados que devem ser tomados em época de falta d’água. “É necessário redobrar a atenção ao se estocar água dentro de casa ou em áreas externas, como os quintais e lajes. A orientação geral é eliminar todos os possíveis criadouros. Quando isso não for possível, como é o caso de tonéis e recipientes para armazenamento de água para consumo, deve haver vedação completa, sem deixar frestas, para impedir que o mosquito consiga entrar por estes pequenos espaços e colocar seus ovos. Em até dez dias, os ovos conseguem se desenvolver e dar origem a novos mosquitos adultos”, explica.

A prevenção continua sendo a melhor ferramenta contra a dengue. “O ciclo de vida do Aedes aegypti, do ovo ao mosquito adulto, leva de 7 a 10 dias. Se realizarmos uma verificação rápida, de apenas 10 minutos, uma vez por semana, nos locais onde o vetor costuma colocar seus ovos, podemos interferir no seu desenvolvimento e impedir que ovos, larvas cheguem à fase adulta”, afirma a pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz.

Agora resta saber se as políticas públicas vão conseguir dar conta de remediar a situação atual e prevenir outra epidemia futura. “O controle do vetor é o pilar principal para a prevenção de surtos e epidemias de dengue. O objetivo deve ser prevenir a ocorrência das epidemias, não o controle das mesmas depois que passam a ocorrer”, comenta o infectologista.

 

Caro leitor,

O que acha que está acontecendo em São Paulo para que a dengue esteja se espalhando? Acha que o governo de São Paulo vai conseguir administrar a situação atual?

 

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