Início » Brasil » Por que a passagem do ônibus custa o que custa?
TRANSPORTE PÚBLICO

Por que a passagem do ônibus custa o que custa?

Há mais de 30 anos, 'encampação' de Brizola resultou em pouca melhoria no transporte rodoviário carioca, mas expôs como as empresas usavam (usam?) gambiarras nos cálculos para reajuste

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Em peça publicitária publicada na imprensa carioca no último dia 6 de junho, o Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio de Janeiro (Rio Ônibus) declarou “guerra” à prefeitura do Rio, acusando-a de promover o colapso do transporte público na cidade com sua recusa em autorizar o reajuste das passagens. Três meses antes, porém, em março, o jornal Extra publicava reportagem mostrando, desde então, que falar nessa “guerra” só faz mesmo sentido assim, entre aspas, tendo em vista que Marcelo Crivella, em plenos tempos de arrocho, manteve isenções fiscais às empresas de transporte rodoviário da ordem de R$ 71,7 milhões em 2017, R$ 75,6 milhões em 2018 e R$ 79,3 milhões em 2019.

O aumento das passagens, de 3,9%, também acabou autorizado, mas pela Justiça, e depois revogado, também pela Justiça, e correrão os recursos, sempre, é claro, na Justiça. Caso a passagem de ônibus no Rio, afinal, suba de 3,80 para 3,95 em 2017, subirá sem ônus político-eleitoral para ninguém, logo neste país onde o Judiciário vem sendo acusado, por todos os partidos políticos, de agir como partido político.

Em artigo publicado no último dia 12 de junho no jornal Globo, João Senise, coordenador geral de mobilizações do Meu Rio, classificou aquela peça publicitária da Rio Ônibus como “terrorismo” de concessionárias que “jamais divulgaram quanto ganham, quanto gastam e quanto lucram”, que todos os anos pedem reajustes das passagens com base em “fórmulas misteriosas”, e sugeriu que a prefeitura do Rio surfasse a onda da Operação Lava Jato para promover uma “mudança radical” neste notório e antigo vespeiro: a cassação das concessões das empresas de ônibus que operam no Rio, a fim de recomeçar “tudo do zero”.

No dia 31 de dezembro de 2014, a administração Eduardo Paes anunciou o maior aumento da passagem de ônibus na capital fluminense em dez anos, de 13,3%. No dia em que aquele aumento entrou em vigor, 4 de janeiro de 2015, o então secretário municipal de Transportes, Rafael Picciani, foi ao estúdio do programa Bom Dia Rio para falar sobre o assunto, e disse que a prefeitura informava ao cidadão por que a passagem do ônibus custa o que custa: “quantos por cento é referente ao óleo diesel, quantos por cento é referente ao pneu, à mão de obra…”.

Referia-se, mais este Picciani, à disponibilização na internet pela prefeitura, ainda sob a batuta de Eduardo Paes, da “fórmula paramétrica” para o cálculo do aumento anual da passagem de ônibus no município. De fato, lá estão discriminados os cinco itens levados em conta na hora de definir o índice de reajuste: 21% do total do índice são relativos a despesas das concessionárias com combustíveis (variável 1); 3% à rodagem da frota (variável 2); 25% a gastos com chassis e carrocerias (variável 3); e 45% estão vinculados a custos de mão de obra (variável 4); além de 6% relativos a “outras despesas” (variável 5).

A página ainda está online, aqui, e lá consta também, em nome da transparência, a fórmula profundamente esclarecedora, a “paramétrica”, com que se chega anualmente ao preço da passagem paga pelo cidadão carioca, que é esta: T1 = T0 x [ (0,21 x ∆ OD)+(0,03 x ∆RO)+(0,25 x ∆ VE)+(0,45 x ∆MO)+(0,06 x ∆ DE)].

‘Travessura socialista’ revela motel em Nova Iguaçu

Houve um tempo em que não existia nem internet nem relações amigáveis, ou “guerras” apenas entre aspas, no Rio de Janeiro entre governantes e empresas que exploram o transporte público no estado e na capital; havia, isto sim, relações “insuportáveis”, palavra usada pela imprensa à época para informar sobre a queda de braço travada na década de 1980 entre o ex-governador Leonel Brizola e a entidade patronal que daria à luz a atual Rio Ônibus.

De um lado, Brizola resistia às constantes requisições dos donos das frotas por aumento das passagens (eram tempos de inflação a galope); de outro, os empresários respondiam com locautes, ou seja, tirando os ônibus das ruas. O governador ficou especialmente irritado com a falta de ônibus em vários pontos da capital no dia 15 de novembro de 1985, data das primeiras eleições diretas para as prefeituras das capitais — das quais, no Rio, seu correligionário Saturnino Braga acabaria saindo vencedor.

Aquelas disputas culminaram, no dia 10 de dezembro daquele ano, com uma “mudança radical”, para usar a expressão de João Senise, e bota radical nisso: um decreto de encampação (estatização) de 16 empresas de ônibus que operavam linhas estratégicas da capital e dos corredores metropolitanos. Brizola afirmou, à época, que a medida foi tomada “para defender a população”, acenou com tarifas mais baixas e prometeu melhorias no serviço em 72 horas.

Só se via o jovem ex-secretário de Transportes de Eduardo Paes no ultrassom do pré-natal quando o secretário de Transportes de Brizola, Brandão Monteiro, pôs em prática um “pente fino” nas empresas encampadas, descobrindo, antes mesmo do Reveillón de 1986, que seus respeitáveis proprietários apresentavam dados falsos sobre custos de operação a fim de justificar as constantes requisições de reajustes das tarifas feitas ao governo.

Constatou-se, assim, fraudes nos valores do óleo diesel (variável número 1 da “fórmula paramétrica”); adulteração no número de quilômetros rodados pelos ônibus (variável 2); nos preços de chassis e carrocerias (variável 3); e no número de rodoviários contratados (variável 4). Além disso, despesas de agências de turismo, concessionárias de carros, lojas de roupas e até de um motel em Nova Iguaçu entravam nas planilhas apresentadas como bases de calculo para aumentos das passagens dos ônibus (variável 5: “outras despesas”).

Em janeiro de 1989, quando, menos de um ano depois de suceder Brizola, Moreira Franco devolveu aos seus antigos donos as 16 empresas incorporadas à Companhia de Transportes Coletivos do Rio por seu maior antagonista político, a população, em nome da qual se levou a cabo a encampação, ainda seguia — e seguiria até hoje, quase 30 anos depois, pagando passagens caras e viajando mal.

Mas a “travessura socialista” de Brizola (que foi a expressão utilizada à época pelo sindicato patronal para definir a “encampação”) e o “pente fino” de Brandão Monteiro fazem a divulgação na internet de meros percentuais “paramétricos” parecer algo tão transparente quanto o vidro fumê de um carro oficial; mostraram que de planilhas empresariais cheias de lêndeas não nasce outro bicho senão o piolho da engorda das tarifas; e indicam que, sob a mais absoluta normalidade brasileira, a passagem de ônibus custa o que custa porque sim, e custe o que custar.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

5 Opiniões

  1. Áureo Ramos de Souza disse:

    Não sou carioca, agora lendo esta reportagem me leva a dizer que não sei como é que aqui em Recife se paga uma passagem e anda em 4 (quatro) linhas de ônibus sem pagar nada. É vantagem? não, pois quando eu andava pegando só um ônibus para chegar ao centro do Recife gastava 30 minutos e agora com este pega aqui, solta lá e pega outro e outro gastamos mais de 01 (uma) hora para se chegar ao Recife. Se meu patrão me esperava em 30 minutos agora ele espera uma hora e se tiver engarrafamento bote hora nisso. Ai não entendo qual nossa vantagem nem tão pouco sei a vantagem dos proprietários e do Grande Recife Transporte. Será que entre ficam embutidas como as do Rio de Janeiro?

  2. Rogerio Faria disse:

    FETRANSPOR e a sua “caixa preta.”

  3. Markut disse:

    No clima de corrupção institucionalizada, este é apenas mais um capítulo.

  4. Glaucia Welp disse:

    Tinha que ser o Moreira Franco do PMDB, a abafar a safadeza desses empresários da Rio Ônibus.

  5. Natanael Ferraz disse:

    Na minha cidade carteiros, policiais e idosos não pagam a tarifa, estudantes pagam meia, trabalhadores tem vale-transporte; e o transporte é uma calamidade. Apenas gente que nem eu, que não tem “direitos”, paga a passagem. Penso que devem cair todas as isenções e todos devem pagar o preço. Depois buscaremos as melhorias. Enquanto isso eu vou na minha motocicleta.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *