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Por que tanto interesse pelo livro interativo?

Por que estes livros de tarefas e de colorir estão fazendo tanto sucesso, principalmente, entre adultos?

Por que tanto interesse pelo livro interativo?
Rayana Faria, de 26 anos, é assistente editorial e adepta do livro 'Destrua este diário' (Foto: arquivo pessoal)

Na correria do dia a dia, o estresse faz parte da rotina de muitos. Talvez não seja coincidência que o mercado de livros interativos esteja em alta. Os livros “Destrua este diário” de Keri Smith, “Jardim Secreto” de Johanna Basford e “O Livro do bem” de Ariane Freitas e Jessica Grecco são exemplos desta nova tendência que está conquistando adeptos de todas as idades. Enquanto no “Destrua este diário”, o leitor é convidado a realizar tarefas com o intuito de realmente fazer jus ao título da obra, o “Jardim Secreto” traz inúmeros desenhos em preto e branco para que sejam coloridos da forma que o “leitor” quiser. Já “O Livro do bem” estimula o leitor a interagir com a obra, a partir de tarefas e desafios nas redes sociais.

Segundo a psicóloga e analista do comportamento, Claudia Menegatti, as pessoas estão frequentemente submetidas a situações de estresse que são sentidas pelo organismo como desafiadoras. Ela afirma que as pessoas ficam estressadas quando não conseguem interromper o ciclo de sentir que seus corpos estão excessivamente cansados ou sendo muito exigidos do ponto de vista intelectual, emocional ou físico. “Nesse sentido, tem efeito antiestresse qualquer ação que desvie a atenção das condições estressantes e promova sensações de bem-estar e relaxamento. Os livros interativos atingem esse propósito, pois trazem atividades prazerosas, lúdicas e pouco usuais no cotidiano dos adultos, do mundo do trabalho.”

Destruir para construir

Claudia Menegatti acredita que os livros interativos estão tendo uma procura grande por adultos, porque as obras representam uma quebra do cotidiano produtivo. “O livro ‘Destrua este diário’, por exemplo, propõe atividades que, além de lúdicas, representam a quebra de regras. Todos aprendemos que um livro não pode ser danificado, rasgado, maltratado. (…) Nele também o leitor poderá lembrar de suas qualidades pessoais, ou mesmo escrever palavrões em alguns momentos. Esse tipo de atividade tem função de catarse, ou seja, promove alívio de tensões emocionais.”

Rayana Faria, de 26 anos, é assistente editorial e adepta do livro “Destrua este diário”. Ela conheceu a obra vendo posts no Tumblr e em blog literários. No início, ela achou a ideia do livro um pouco estranha. “Sempre dei muito valor aos meus livros e era impensável comprar um para ‘destruir’, porém, conforme fui vendo as fotos dos diários de outras pessoas e como cada uma ‘destruía’ de maneira diferente, me interessei pela proposta e resolvi comprar também.”

Ela conta que essa ideia de o livro servir para desestressar tem dois lados. “Por um lado, a ideia de ter tarefas prontas para fazer é desestressante, porque não é necessário ter muita criatividade para desempenhá-las. Mas por outro, conforme fui vendo como cada pessoa ia além das tarefas propostas e personalizava as páginas de maneira mais criativa [com aquarelas e colagens, por exemplo], me senti um pouco pressionada a ter ideias diferentes para que o meu diário ficasse tão bonito quanto os que via na internet.”

Rayana não teve problemas em gastar dinheiro em um livro que o objetivo é destruí-lo. “Acho que, apesar de ser um livro para destruir, no fim, construímos alguma coisa. O produto final é um livro totalmente diferente daquele que compramos na livraria, é realmente um diário, no qual investimos tempo para que tivesse mais a ver com a nossa personalidade.”

Marina

A editora e vlogueira de 22 anos, Marina Vargas, com seu livro personalizado (Foto: arquivo pessoal)

Já a editora de 22 anos, que tem um canal do YouTube, Marina Vargas, achou o “Destrua este diário” um livro bem diferente do que estava acostumada a comprar. Marina se desestressa com o livro. “A maioria das tarefas são ligadas à criatividade (…), que não temos exatamente tempo para fazer na rotina do dia a dia, mas quando tiramos um tempinho para isso, pode ser um momento para se focar naquilo e esquecer todos os problemas.”

Como o livro mexe com imaginação e criatividade, Marina não enxerga uma faixa etária específica para o livro. Ela acha que a obra pode agradar de criança a adultos. “Por incrível que pareça, no começo, as tarefas são até difíceis para os adultos muito ligados a seguir o padrão, as regras, mas aos poucos você vai se soltando, e aí sim você consegue se descontrair e se divertir mais.”

Pintar para resgatar

A psicóloga afirma que os livros de colorir resgatam atividades que são, em geral, muito prazerosas desde a infância, “negadas” ao cotidiano da maioria das profissões e atividades. “Portanto, os efeitos podem ser benéficos ao reequilíbrio do organismo, principalmente se há regularidade em se expor a essas atividades. “

retocado

A gerente de recursos humanos, Maria Luiza Moreira, de 30 anos, com suas pinturas prontas (Foto: arquivo pessoal)

Este é o caso de Maria Luiza Moreira de 30 anos. A gerente de recursos humanos é adepta do livro “Jardim Secreto”. Ela foi comprar um livro para dar de aniversário para o irmão e acabou comprando um presente para ela mesma. Ela conta que assim que viu o livro, reviveu as lembranças da infância. “Estava em busca de um passatempo para extravasar o estresse do dia a dia (…) Foi com esse livro singelo e uma caixa de lápis de cor que minha visão sobre o mundo passou a ser mais colorida.”

Para Maria Luiza não tem nada melhor do que voltar para casa após um dia cansativo de trabalho, trânsito e correira e se deparar com um mundo só seu, fazendo com que seus pensamentos sem percam em detalhes e cores. “É uma sensação maravilhosa dar vida para algo preto e branco e deixá-lo tão colorido e vivo. Me sinto mais relaxada e com sensação de dever cumprido.” No entanto, ela diz que cada pessoa tem sua válvula de escape, portanto, algumas podem ficar ainda mais nervosas quando pintam, já que podem não ter paciência para tantos detalhes, por exemplo.

Clarissa Carino, por sua vez, tem 30 anos e trabalha como assistente administrativa, além de cursar administração e ser blogueira. Ela se encantou com o “Jardim secreto”. Clarissa conta que não costuma pegar o livro quando está estressada, mas que ele a distrai e a diverte. Quando completa uma página, ele diz que se sente feliz. “Gosto de ver como ficou o resultado final e compartilhar no Instagram, por exemplo, para as pessoas verem.”

Claudia explica que algumas pessoas ficam mais calmas com esses livros porque as atividades fazem com que o indivíduo preste mais atenção ao momento presente, ao que está produzindo em cada página do livro, de maneira progressiva e lúdica.  “São comportamentos que remetem e se aproximam à prática de mindfulness, muito difundida na atualidade.  Mindfulness é um conceito relativo à atenção plena e sem julgamentos no momento presente. Esse conceito deriva das práticas meditativas orientais que foram propostas por Kabat-Zinn nos EUA para controle do estresse.” No entanto, a psicóloga alerta que algumas pessoas podem ficar estressadas com esse tipo de livro. “Alguém que reage com respostas de ansiedade diante de dificuldades, possivelmente apresentará isso em vários contextos, incluindo as atividades de um livro, de um caça-palavras ou de um jogo de videogame.”

Livro interativo do bem

livro do bem

As autoras Jessica Grecco e Ariane Freitas com ‘O livro do bem’ (Foto: arquivo pessoal)

“O Livro do bem” de Ariane Freitas e Jessica Grecco nasceu depois do sucesso da página do Facebook Indiretas do bem. A obra traz reflexões e tarefas ao longo do texto, que estimulam o leitor a interagir com a obra. “O leitor deve preencher as tarefas do seu jeito e assim criar as suas próprias páginas. A melhor parte é que nunca irá existir um Livro do bem igual ao outro”, dizem as autoras ao O&N. Além disso, Ariane e Jessica promovem semanalmente desafios fotográficos com prêmios no canal do Instagram. Ao longo do livro, também há algumas playlists que ajudam a criar o clima para preencher as páginas e relaxar.

“O objetivo do Indiretas do bem é levar inspiração, espalhar amor e estimular a busca pelo autoconhecimento. Com a rotina corrida que todos nós vivemos é muito difícil separarmos um tempinho para cuidar da gente, olhar com carinho para as pessoas que amamos, resgatar aquele hobby que acabou ficando de lado por conta do ritmo do dia a dia”, elas explicam.

Elas contam que já ouviram vários depoimentos de pessoas que se apoiaram ao livro para superar um momento difícil, além de muitos casais que namoram à distância, mas se mantém ligados através da obra. “Enfim, é um livro para você curtir e lembrar de tudo aquilo que te faz bem e deixa seu dia a dia mais feliz”.

 

Caro leitor,

O que acha dos livros interativos? É adepto de algum? Acha que a quebra do paradigma de o leitor poder participar do livro estimula o interesse pela obra?

 

 

 

 

3 Opiniões

  1. maria tereza disse:

    Não sou adepta a qualquer moda ou coisa que se torne vício. Seria interessante saber quem é/são dono/s de fábrica de lápis de cores… no Brasil é difícil se encontrar alguma coisa transparente. mt

  2. Da redação disse:

    Caro leitor, não entendemos o seu comentário. Nada mudou no sistema de comentários de leitores.

  3. Roberto1776 disse:

    A oportunidade de interagir com textos e noticiários para aliviar o nosso stress de cada dia sempre foi promovida pelo site OPINIÃO E NOTÍCIA, onde podíamos desabafar as nossas frustrações com a praga que governa o país há mais de 12 anos.
    O novo formato do site diminui drasticamente esta possibilidade. Felizmente alguns artigos ainda podem ser comentados. Não nos privem deste prazer.

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