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RIO DE JANEIRO

Porta-voz da Presidência classifica fuzilamento no Rio como ‘incidente’

Um homem foi morto depois que o carro onde estava com a família foi alvo de 80 tiros disparados por militares. Casos não são incomuns no Rio de Janeiro

Porta-voz da Presidência classifica fuzilamento no Rio como ‘incidente’
Afirmações de membros do governo gerou indignação na oposição (Foto: Anderson Riedel/PR)

O porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, classificou como “incidente” os 80 tiros disparados por militares contra o carro de uma família, em Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro. O “incidente” causou a morte do músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos.

“A questão referente ao incidente com a morte do cidadão, eu repito: o Comando Militar do Leste e o Exército Brasileiro estão apurando os eventos em um inquérito policial militar, que está sendo acompanhado pela Justiça Militar e Ministério Público”, afirmou, segundo noticiou o Estadão.

Ao ser questionado se o presidente Jair Bolsonaro havia se pronunciado sobre o assunto, Rêgo Barros desconversou, mas admitiu que o presidente não fez nenhum tipo de manifestação de pesar. Em contrapartida, Bolsonaro pediu que o caso seja “o mais rapidamente elucidado”.

A não manifestação causou estranheza, gerando críticas da oposição. Isso porque Bolsonaro costuma usar as redes sociais com frequência, manifestando-se sobre alguns casos que ganham repercussão nacional. No último dia 4 de abril, por exemplo, ele usou o Twitter para parabenizar policiais de São Paulo pela morte de 11 suspeitos de uma tentativa de assalto a banco.

O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, também classificou o episódio como um incidente, em entrevista ao Conversa com Bial, da TV Globo. Moro afirmou que “lamentavelmente esses fatos podem acontecer”.

“Foi um incidente bastante trágico. Lamentavelmente, esses fatos podem acontecer. Não se espera, não se treina essas pessoas para que isso  aconteça, mas tendo acontecido, o que conta é o que as autoridades fazem a respeito, quais são as providências tomadas e o Exército está tomando as providências cabíveis”, classificou o ministro. Dez militares foram presos pelo Exército pelo fuzilamento.

Moro também foi questionado pelo jornalista Pedro Bial se a situação não se enquadraria no Pacote Anticrime, apresentado pelo ministro. Bial perguntou se o episódio não seria uma situação de “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Moro negou.

“Pelo que eu entendi no episódio, e mais uma vez destacando que ele está em apuração pelo Exército, aparentemente, não teria havido sequer uma situação de legítima defesa”, destacou o ministro.

Críticas da oposição

O posicionamento de integrantes do governo sobre o caso gerou revolta na oposição. O presidente nacional do Psol, Juliano Medeiros, usou as redes sociais para classificar a afirmação de Moro como “inadmissível, um absurdo, um escárnio”.

Já a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) afirmou que Bolsonaro é “incapaz de dizer para a família enlutada sentimentos e pêsames”.  Ademais, acusou o presidente de apoiar “crimes do Estado, ao qual confere poder de decidir a vida e a morte dos brasileiros”.

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva destacou a grande quantidade de tiros disparados contra “uma família inocente” no Rio de Janeiro, pedindo para que o caso tenha uma punição “exemplar e rigorosa”. “Jamais podemos naturalizar a escalada da crueldade, banalizar a violência. […] Chega de impunidade e conivência”, escreveu Marina Silva.

Caso semelhante

O fuzilamento do carro em Guadalupe reacendeu a memória de outro caso também ocorrido na zona norte do Rio de Janeiro. Em 2015, um veículo com cinco jovens foi fuzilado em Costa Barros. Todos os jovens morreram.

Segundo testemunhas, os jovens estavam indo comprar lanche e pararam na abordagem policial. Mesmo assim, os policiais alvejaram o veículo. Os policiais militares envolvidos na morte dos jovens afirmaram que foram ao local checar uma denúncia de roubo de carga. Os PMs estão presos no Batalhão Especial Prisional, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio.

“Atira primeiro. Pergunta depois”

Moradores de comunidades do Rio de Janeiro relatam medo nas ações policiais em diferentes bairros. Muitos acusam os agentes de atirar primeiro e perguntar depois. Inúmeros casos reforçam a base do argumento.

Em 2010, um homem de 46 anos foi morto por policiais que teriam confundido uma furadeira com uma arma. Em 2014, dois jovens foram mortos depois que policiais militares teriam confundido uma peça de moto com uma arma. Ambos os casos foram relembrados pelo portal R7 em 2015.

Em 2015, um PM teria confundido um macaco hidráulico na garupa de uma moto com uma arma e atirou contra dois mototaxistas, que acabaram mortos. Em outro caso, também ocorrido em 2015, policiais dispararam contra um grupo de quatro amigos sem razão aparente. A primeira versão foi de que os jovens teriam atirado contra os oficiais, mas um vídeo mostrou que os jovens estavam desarmados. Os rapazes começam a correr e ouvem-se tiros na sequência. O rapaz que estava filmando, de 15 anos, morreu. (O vídeo pode ser visto aqui).

Em 2018, um homem de 26 anos foi morto depois que policiais de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) teriam confundido seu guarda-chuva com um fuzil e o “canguru” (suporte para carregar criança) com um colete à prova de balas.

Mais recentemente, no último dia 2 de abril, policiais militares balearam um jovem de 22 anos. Segundo a família do jovem, os PMs teriam confundido uma furadeira com um fuzil. Ao pesquisar no Google o termo “PM confunde”, não são raros os casos que terminaram em tragédia, que normalmente são jovens, negros ou pardos e moradores de comunidade.

Fontes:
Estadão-Porta-voz classifica fuzilamento como 'incidente' e diz que Bolsonaro não manifestou pesar
O Tempo-‘É um incidente trágico que pode acontecer’, diz Moro sobre fuzilamento

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1 Opinião

  1. Ludwig Von Drake disse:

    Lamentavelmente, porque a Lei assim o exige, os militares responderão criminalmente por algo que eles não deram causa…assim como a família, também são vítimas da criminalidade e do desgoverno do Rio de Janeiro.

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