Início » Brasil » Privatização sem mercado
capitalismo estatal

Privatização sem mercado

Transferência de obras de infraestrutura para o setor privado ocorrerá sem competição, sem riscos, e sem os reais benefícios que o mercado é capaz de trazer para os usuários

Privatização sem mercado
Concessões de Dilma são mais um caso de 'privatização brasileira' (Reprodução/Internet)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

É complicado coletar dados que mostrem as reais possibilidades de investimento de um governo. Números e estatísticas podem ser utilizados de forma a dar ao leitor a impressão de que tudo vai bem, se for essa a intenção, mesmo com o país em estado semi-falimentar. Quando um governo do PT anuncia a transferência de obras de infraestrutura, anteriormente parte dos estimados PAC e PAC2, para a iniciativa privada, esse parece ser um sinal inequívoco que as possibilidades do Estado de centralizar essas ações e fazer esse investimento sozinho não existem.

Esta semana o governo anunciou a privatização concessão de rodovias e ferrovias. Não haverá competição entre os concessionários, e os vencedores dos leilões terão rentabilidade garantida. No modelo de capitalismo estatal brasileiro, não pode haver a menor possibilidade de risco.

As rodovias devem ser privatizadas concedidas e operadas da forma que boa parte dos brasileiros já conhece: as concessionárias serão remuneradas com a cobrança de pedágios. No caso das ferrovias, a questão é ainda complicada. Um editorial da Folha de São Paulo tenta esclarecer um pouco as coisas:

No transporte ferroviário, a novidade anunciada foi separar construção, manutenção e operação; só as primeiras duas serão concedidas ao setor privado. Com isso, remove-se um grande entrave ao andamento dos projetos –a concentração das obras na Valec, empresa estatal de péssimo retrospecto.

Ela será agora responsável apenas por administrar a malha e comprar os direitos de sua utilização, para em seguida comercializar o transporte de cargas em leilões entre empresas interessadas. A receita assim obtida é que vai remunerar as concessionárias.

Com isso, assegura-se o direito de passagem para todos. Pelas regras atuais, o concessionário tem controle sobre a linha e pode excluir usuários potenciais.

O risco para o governo é assumir o ônus financeiro de garantir o volume de tráfego nas ferrovias, o que só reforça a necessidade de que os projetos tenham qualidade –algo inédito na área de planejamento dos governos do PT.

Empresas privadas construirão e manterão as ferrovias, mas a operação será entregue à estatal: como se aeroportos modernos fossem construídos pela iniciativa privada e entregues à administração da Infraero.

As privatizações concessões de Dilma são mais um caso de “privatização brasileira”: sem capacidade de investir, o governo apenas entrega algumas tarefas ao setor privado. Mas assegura que o processo todo ocorrerá sem competição, sem riscos, e sem os reais benefícios que o mercado é capaz de trazer para os usuários.

E se tudo der errado, não se enganem, a culpa será do mercado, do capitalismo, e da privatização concessão.

 

Fontes:
Ordem Livre - Privatização sem mercado

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

2 Opiniões

  1. celso disse:

    É como o caso da Vale, entregue por um valor simbólico.

  2. celso disse:

    “Após anos de massiva campanha pela venda da estatal nos anos 90, a Vale foi leiloada em maio de 1997. A primeira polêmica envolveu a cotação da estatal realizada pela corretora Marril Lynch, que a avaliou em R$ 10 bilhões. A empresa foi acusada de sub-avaliar jazidas e o conjunto do complexo industrial da empresa, com patrimônio superior a R$ 100 bilhões.
    Mais tarde se descobriu que a corretora era ligada à empresa Anglo American, participante do leilão. A estatal foi vendida por apenas R$ 3,3 bilhões. Para se ter uma idéia, esse valor significa menos do que o lucro da empresa em apenas três meses. No ano em que foi leiloada, o lucro líquido da empresa foi de R$ 12,5 bilhões, mais de três vezes o valor de sua venda.”
    http://inaciovacchiano.com/2010/10/28/a-fraudulenta-privatizacao-da-vale-do-rio-doce-%E2%80%93-vendida-por-r-33-bilhoes-lucrou-em-9-meses-r-20-bilhoes/
    “Outra irregularidade foi a subestimação das reservas de minério sob controle da Vale. Segundo informações da própria CVRD, as reservas de minério de ferro de Minas Gerais e da Serra dos Carajás eram de 12,9 bilhões de toneladas em 1995, muito acima dos 3,2 bilhões de toneladas anunciadas na época da privatização. Além disso, a privatização da Vale foi inconstitucional por vender reservas de urânio, que são de propriedade exclusiva da União, alienar milhões de hectares de terras e permitir a exploração de minérios na faixa de fronteira, o que não poderia ser feito sem a aprovação do Congresso Nacional.”
    “Se os altos lucros da Vale provaram algo foi o enorme prejuízo que o setor público amargou com a sua venda. Tais lucros não advêm de um suposto bom gerenciamento do setor privado, mas de uma situação externa favorável causada pelo aumento da demanda de matéria prima pela China e o conseqüente aumento do preço do minério.
    Como se isso não bastasse, dias antes do leilão da Vale foram descobertas jazidas de minério, incluindo ouro, que não foram contabilizadas no preço mínimo de venda.”
    Saul Leblon coloca bem os pingos nos iiiis.
    “Numa entrevista famosa de 2009, ao portal da revista Veja, FHC justificou a venda da Vale do Rio Doce, entre outras razões, ao fato de a 2ª maior empresa de minério do mundo ter se reduzido -na sua douta avaliação – a um cabide empregos, ‘que não pagava imposto, nem investia’. Notícias frescas da Receita Federal abrem um contraponto constrangedor à discutível premissa fiscal tucana. ”
    “A Vale foi acionada e dificilmente escapará, exceto por boa vontade de togados amigos, de pagar R$ 30,5 bilhões sonegados ao fisco durante a década em que esteve sob o comando de Roger Agnelli. O calote, grosso modo, é dez vezes maior que o valor obtido pela venda da empresa, em 1997.”
    “A teia de acionistas da Vale,formada por carteiras gordas de endinheirados, bancos e fundos, com notável capilaridade midiática, nunca sonegou gratidão ao herói pró-cíclico do boom das commodities metálicas. Enquanto o mundo mastigava avidamente o minério de teor de ferro mais elevado do planeta, Agnelli foi de vento em popa, incensado a cada balanço, seguido de robustas rodadas de distribuição de lucros.”
    “No primeiro soluço da crise mundial, em 2008, o herói pró-cíclico reagiu como tal e inverteu o bote: a Vale foi a primeira grande empresa a cortar 1.300 trabalhadores em dezembro, exatamente quando o governo Lula tomava medidas contracíclicas na frente do crédito, do consumo e do investimento. A Petrobrás não demitiu; reafirmou seus investimentos no pré-sal, da ordem de US$ 200 bilhões até 2014. Se a dirigisse um herói dos acionistas, teria rifado o pré-sal na mesma roleta da Vale: predação imediatista, fastígio dos acionistas e prejuízos para o país. ”
    “Em seu último ano na empresa, Agnelli distribuiu US$ 4 bi aos acionistas. Indiferente aos apelos de Lula, recusou-se a investir US$ 1,5 bi numa laminadora de trilhos que agregasse valor a um naco das quase 300 milhões de toneladas de minério bruto exportadas anualmente pela empresa. Resistiu no cargo até consumar-se a derrota de José Serra.Com a vitória de Dilma, o conselho foi destituído, em abril de 2011. ”
    “Com o velho truque de contabilizar em subsidiárias no exterior ganhos de fato auferidos pela matriz, surrupiou ao país quase um ano de faturamento da empresa (da ordem de R$ 37 bi em 2011).”
    E o pessoal está preocupado com as galinhas roubadas no mensalão. É brabo. Acredito que a situação atual apresentada acima é bastante diferente, o pessoal vai ter que investir para ter lucros.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *