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TURBULÊNCIA POLÍTICA

Processo de impeachment de Trump antecipa ano eleitoral nos EUA

Qualquer resultado diferente da dupla vitória de Trump – no impeachment e na corrida eleitoral de 2020 – será devastador para a política externa brasileira

Processo de impeachment de Trump antecipa ano eleitoral nos EUA
Brasil tem apostado no alinhamento total aos EUA e numa suposta amizade entre Trump e Bolsonaro (Foto: Flickr/White House)

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Já em 2016, com a vitória do magnata Donald Trump na eleição presidencial dos EUA, pairou a dúvida sobre os rumos que tomaria o governo de uma das nações mais poderosas do mundo.

Em um país com uma democracia que impera há mais de 200 anos, onde a previsibilidade é um valor supremo, a dúvida não era pouca coisa: empossado, Trump seguiria no modo eleitoral, distribuindo ofensas a jornalistas e alimentando com ódio e mentiras sua base popular? Ou privilegiaria a “governabilidade” e a institucionalidade do cargo, tornando-se apenas mais um direitista na nação que já viu George Bush (pai e filho) e Ronald Reagan?

Trump foi pelo primeiro caminho, e a possibilidade de um processo de impeachment o acompanhou desde os primeiros meses como inquilino da Casa Branca.

Sua relação com advogados russos no período eleitoral, em uma suposta tentativa de sabotar sua adversária democrata, Hillary Clinton, e o acordo que firmou com uma ex-estrela pornô com quem se relacionou para comprar-lhe o silêncio quase lhe valeram o processo, mas os deputados do Partido Democrata, temendo o desgaste da abertura do impeachment ante um eleitorado que rejeita solavancos políticos, não ousaram ir adiante.

O cenário mudou com a denúncia anônima de um alto funcionário do governo estadunidense que presenciou uma ligação telefônica entre Trump e o presidente da Ucrânia, o ex-humorista Volodymyr Zelenski.

Na conversa, o presidente dos EUA teria pressionado seu colega ucraniano a ordenar uma investigação contra o político democrata Joe Biden, vice-presidente nos anos de Obama e possível candidato à Presidência em 2020.

Quando vice-presidente, Biden atuou para afastar o ex-procurador ucraniano Viktor Shokin do cargo, de acordo com ele por suspeita de corrupção. Trump alega que o afastamento se deu, na verdade, pois Shokin investigava o filho de Biden, que tem negócios no setor energético na Ucrânia.

Em troca da abertura de investigação proposta por Trump, o governo norte-americano liberaria algo como 400 milhões de dólares em auxílio militar ao país europeu, afirmou o denunciante anônimo, o que de fato aconteceu dias depois da ligação.

Diante disso, a democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Deputados, abriu, em 24 de setembro, o processo de impeachment contra Trump. Uma investigação tem sido conduzida pela Casa, que já teve acesso à transcrição do telefonema e busca ouvir embaixadores e funcionários relacionados ao caso.

Para prosperar, mais da metade dos deputados têm de acatar o impeachment, que segue para o Senado, com maioria republicana, onde três quartos dos senadores precisam apoiar o processo, o que no momento parece improvável.

O impeachment na mídia estadunidense

Prevalece, na mídia estadunidense, a impressão de que o impeachment tem poucas chances de vingar. Mas mesmo jornais amantes da estabilidade como o New York Times e o Washington Post tem apoiado, editorialmente, a investigação contra Trump.

“Trump é uma emergência nacional, flagrantemente violando as atribuições de seu cargo”, escreveu o colunista David Leonhardt nas páginas do Times. O jornalista chama atenção para o fato de o país estar “em crise”, muito embora a “crise pareça tão normal”.

Para ele, a única chance de o impeachment ir adiante é se as ruas do país forem tomadas por manifestantes. “A presidência de Trump tem se tornado muito dura aos americanos para que a aceitemos sem tentar mudanças”, conclui.

Já o almirante William McRaven, ex-comandante militar das Operações Especiais dos EUA, vocalizou, também no Times, críticas comuns a Trump inclusive dentro do Partido Republicano, que representa a direita estadunidense.

A insatisfação republicana com o presidente aumentou após a decisão de retirar o apoio aos curdos que lutam contra o Estado Islâmico na Síria, entregando-os, na prática, à morte pelas tropas turcas que guerreiam na região.

“Um general quatro-estrelas aposentado me disse: não gosto dos Democratas, mas Trump está destruindo a República”, relatou McRaven, sobre a decisão de abandonar os curdos à própria sorte.

E arremata: “Se o presidente não entende a importância desses valores [lealdade e liberdade], se ele não demonstra a liderança que a América precisa, domesticamente e no exterior, então é chegada a hora de uma nova pessoa na Casa Branca – republicano, democrata ou independente – e o quanto antes, melhor”.

O Washington Post admite, em editorial, que o impeachment é um remédio amargo, mas afirma que trata-se da solução “menos pior”, tendo em vista a forma como o próprio presidente conduz seu mandato.

“Ninguém sabe o que ele fará, exceto que, refletindo sua experiência como estrela de reality show, ele se esforçará para dominar o ciclo de notícias dia a dia. Isso significa que ele precisa diariamente de material mais incendiário para incitar sua base. Inevitavelmente, isso dragou sua administração para o impeachment”.

Reside nessa quase “procura” do impeachment por Trump, avalia a CNN, o principal dilema da oposição democrata: a abertura do processo pode reforçar a narrativa do presidente de que ele é “perseguido” pela classe política e pela mídia, que o estariam impedindo de trabalhar em nome do “cidadão de bem” dos EUA.

Sem ter apresentado resultados satisfatórios em política externa, em meio a uma guerra comercial com a China que penaliza agricultores norte-americanos e enfrentando o risco de desaceleração da economia, esse discurso pode ser útil a Trump, do ponto de vista eleitoral, analisa a maior rede televisiva de jornalismo do país.

A CNN conclui, enfim, que o processo de impeachment, aceito ou não pelo Senado, tem desde já o efeito de “adiantar” o processo eleitoral de 2020.

Mais da metade da população – exatos 51% – apoiam, de acordo com uma pesquisa de opinião contratada pela CBS, rede de TV estadunidense, a abertura do processo. No entanto, os números são díspares se consideradas as afiliações partidárias: entre os que se consideram democratas, 85% querem o impeachment, enquanto apenas 12% dos republicanos concordam com o impedimento. Como o Brasil, os EUA vivem uma acirrada polarização política.

Já as pesquisas eleitorais apontam que a senadora Elizabeth Warren, vista como potencial candidata à presidência pelo Partido Democrata, está 10 pontos à frente de Trump na corrida pela Casa Branca. Com um sistema eleitoral complexo, sem voto obrigatório e baseado em colégios eleitorais, contudo, é difícil fazer previsões sobre 2020.

O certo é que qualquer resultado diferente da dupla vitória de Trump – vitória política no impeachment e vitória eleitoral em 2020 – será devastador para a política externa brasileira, até o momento inteiramente fundamentada no alinhamento total aos EUA e numa suposta amizade entre o mandatário estadunidense e Jair Bolsonaro (PSL).

E se a derrota for para Warren, senadora preocupada com os efeitos da crise climática e defensora da igualdade entre homens e mulheres, tanto pior para Bolsonaro.

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2 Opiniões

  1. Roberto Henry Ebelt disse:

    Governos do Partido Democrata (simbolizado por um BURRO)sempre foram prejudiciais ao Brasil, salientando-se o de Jimmy Carter que, no momento em que Brizola estava neutralizado no Uruguai, sem lenço e sem documento, com a mão ESQUERDA LHE ALCANÇOU UM PASSAPORTE AMERICANO, LIBERANDO O TIRANETE GAÚCHO para estraçalhar o estado do Rio de Janeiro ao proibir a POLÍCIA de trabalhar nas favelas, o que deu origem ao maior entreposto de drogas do mundo.

  2. Rogério Freitas disse:

    É preciso mudar lá.
    É preciso mudar aqui.
    Tanto lá como aqui é preciso prevalecer a verdade.
    O jogo político embasado na mentira prejudica a nação, especialmente os mais vulneráveis.

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