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Propaganda de medicamento deve ser proibida?

Propagandas transformam medicamentos em produtos de consumo, induzindo à automedicação. Mas como proteger a sociedade sem criar leis paternalistas?

Propaganda de medicamento deve ser proibida?
No Brasil, apenas medicamentos de venda livre podem ser anunciados diretamente ao consumidor ( Foto: Flickr)

Ao contrário de perfumes ou sabonetes, medicamentos consumidos sem o acompanhamento de um médico podem fazer mal à saúde. É tarefa dos médicos orientar seus pacientes para que eles tomem decisões informadas sobre tratamentos específicos. Na contramão dessa tendência estão as propagandas de medicamentos, muitas vezes apresentadas como se tratassem de recomendação médica.

Para os médicos é difícil competir com as estratégias de marketing dos comerciais. Muitos brasileiros não têm acesso a médicos, mas têm televisão, internet e farmácias para comprar os produtos recomendados em comerciais de TV e anúncios online. Segundo dados da Anvisa, o Brasil é o pais com o maior numero de farmácias e o quarto maior mercado consumidor de medicamentos no mundo.

“No mundo atual, o consumidor tem informação de sobra e pouco tempo para processá-la e conferi-la”, diz Melby Huertas, professora de administração da Fundação Educacional Inaciana (FEI), em São Paulo, e autora de uma tese de doutorado sobre o apelo das propagandas de medicamentos.

Antigamente, o médico era parte do problema quando aparecia em anúncios na televisão recomendando um determinado produto. Em 1944, um comercial de cigarros Camel, nos EUA, que atribuía ao cigarro efeitos medicinais (alívio contra o estresse e a ansiedade), fez sucesso com o slogan: “Mais médicos fumam Camel do que qualquer outro cigarro”. O anúncio mostrava um médico bonitão fumando um cigarro da marca. Sobre a sua mesa, um maço ao lado do estetoscópio. “Veja como os cigarros Camel combinam com a sua garganta”, dizia o anúncio.

 

Em 2006, também nos EUA, Robert Jarvik, pesquisador que desenvolveu o primeiro coração artificial, foi alvo de polêmica ao aparecer na televisão fazendo propagando do remédio Lipitor, contra o colesterol. Em alguns anúncios, Jarvik, que é formado em medicina mas não é cardiologista nem tem licença para exercer a medicina, aparecia dizendo que ele próprio tomava o remédio.

Hoje no Brasil é raro ver médico em propaganda de medicamento, embora muitos dentistas continuem “vendendo” produtos de saúde bucal em comerciais de TV.  Para muitos brasileiros, a figura do dentista só se materializa em suas vidas nessas ocasiões, nos comerciais em meio à novela. Segundo uma pesquisa recente do IBGE, mais da metade da população não tem o hábito de ir ao dentista anualmente.

Enquanto isso, são as celebridades que mais emprestam suas imagens para vender medicamentos  no Brasil. É comum ver atores interpretando uma cena de dor de cabeça ou azia e testemunhando a eficácia de um determinado remédio. Quando o produto é vitamina, as estrelas costumam ser os atletas, como Neymar e Pelé. “A prova de que esse tipo de propaganda funciona é que as pessoas se identificam com as personalidades e acabam consumindo o produto apresentado por elas, conforme comprovam algumas pesquisas já realizadas”, diz a professora de administração da Universidade Mackenzie Paula Camargo, em sua tese de doutorado sobre o assunto.

Apesar dos riscos da automedicação, Melby acredita que a propaganda de medicamentos já é bastante regulamentada no Brasil e que não é preciso proibi-la. Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde até remédios vendidos sob prescrição podem ser anunciados na TV, no Brasil, ao longo dos anos, o controle sobre esse tipo de propaganda foi se tornando mais rígido.

“Não creio que a solução seja proibir, mas regulamentar e orientar a propaganda desse produtos para a educação do consumidor”, diz Melby. “Os órgãos poderiam se limitar a assegurar que a informação que chega ao consumidor é verdadeira, o que lhe permitirá tomar decisões  corretas. Alertas sobre a falta de imparcialidade dos anunciantes na propaganda também poderiam ser úteis. A melhor defesa para o consumidor será sempre seu próprio conhecimento.”

Hoje, por lei, é possível fazer propaganda apenas de medicamentos over the counter (OTC) — aqueles de venda livre que ficam ao alcance do consumidor nas farmácias. Os chamados “medicamentos éticos”, que precisam de receita médica, não podem ser anunciados diretamente ao consumidor, apenas aos próprios médicos — uma prática que não está livre de polêmica também. Laboratórios costumam convidar médicos para encontros de “consultoria” em resorts, onde pagam seus gastos e oferecem regalias enquanto apresentam as maravilhas de seus produtos.

 

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1 Opinião

  1. ney disse:

    Os médicos que estão alegres, pois paga-se uma nova consulta para eles receitarem o mesmo remédio.

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