Início » Brasil » Quando o menos se torna mais
ESTILO DE VIDA

Quando o menos se torna mais

Conheça a história de pessoas que decidiram largar o consumismo para ter mais qualidade de vida

Quando o menos se torna mais
Minimalistas preferem viver com menos para ter mais tempo e qualidade de vida (Foto: Pixabay)

Yuka Saheki era workaholic, trabalhava diariamente das 7h às 22h. Sem tempo e sempre estressada, Yuka começou a sentir dores de cabeça, no corpo, além de uma vontade de chorar por qualquer coisa. Sua forma de desestressar era fazer compras. Yuka não estava sozinha nessa de aliviar as mágoas nos shoppings, segundo uma pesquisa do SPC Brasil de 2016, 36% dos brasileiros fazem compras para aliviar o estresse. Ela poderia continuar na rotina de viver para trabalhar e trabalhar para comprar, mas resolveu mudar de vida há dez anos. Trocou de emprego, virou funcionária pública e decidiu que iria viver sem pressa, mesmo morando na cidade de São Paulo.

Há dez anos, Yuka adota o estilo de vida minimalista (Foto: arquivo pessoal)

Yuka adota o estilo de vida minimalista. Aos 36 anos e com duas filhas, ela se considera mais feliz agora do que no tempo em que vivia comprando. Ela vendeu seu apartamento e passou a morar de aluguel por perceber que casa própria não representa segurança financeira. “O minimalismo nada mais é do que descobrir o que é essencial e eliminar o resto. O que a sociedade impõe para que eu seja (supostamente) feliz é muito diferente do que, de fato, me faz feliz. E saber essa diferença foi fundamental para eu reconhecer e encontrar a minha felicidade (…) Estou aprendendo a desfrutar sem possuir (…) Cada pessoa é única e deve buscar os ingredientes da sua felicidade”, explica Yuka, autora do blog Viver Sem Pressa, ao Opinião e Notícia.

Para a psicanalista Margaret Waddington Binder, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, o ser humano atual é feito de excessos. Com tantas informações e avanços tecnológicos, tudo se tornou excessivo e rápido. Além disso, a competitividade extrema nos deixa confusos sobre o nosso próprio valor.  “Deixamos de encontrar um sentido duradouro para a nossa existência. (…) Estamos na cultura do vazio e vamos criar estratégias para preenchê-lo nem que seja apenas com coisas materiais”, explica.

Para combater o vazio das compras, algumas pessoas estão adotando o estilo de vida minimalista e decidindo por conta própria viver com menos. Segundo Marcelo Mocarzel, doutor em Comunicação e pesquisador da UFF e da PUC-Rio, os minimalistas têm uma relação individual com o consumo. “A gente já teve grupos que pregavam o não consumismo como os hippies e os punks, mas eles pensavam sempre num modelo de sociedade alternativa, ou seja, numa ruptura, numa contra-hegemonia. Eu acho que a grande diferença é que os minimalistas vivem na sociedade, se vestem como os outros, moram no mesmo lugar, mas eles têm uma relação individual com o consumo. Eles acreditam que, se cada um fizer isso, haverá uma mudança coletiva”, explica.

Para Yuka, as duas grandes dificuldades para adotar esse estilo de vida foi suportar o julgamento alheio e enfrentar a comparação. “É muito importante descobrir o quanto é o suficiente para você. Se estou satisfeita com cinco pares de sapato, não há necessidade de ter 50, mesmo se o mundo inteiro disser para eu comprar mais. Faço isso com cada item da minha casa. Com o tempo, você irá aprender a selecionar melhor em todos os campos da sua vida, incluindo escolher pessoas (…) Ao não comparar a minha vida, meus amigos, minha roupa, meu salário, meu estilo de vida com a dos outros, comecei a prestar mais atenção em mim e a descobrir o que, de fato, me fazia feliz”, diz.

Mas será que os minimalistas são realmente mais felizes? Segundo Margaret Waddington Binder, os psicanalistas observam atualmente um ser humano que sofre muito por conta do vazio, da falta de si próprio. “A felicidade, geralmente, tem a ver com uma intensa atividade interior, simbólica e afetiva. É um sentimento de plenitude e não de um vazio que não se consegue preencher. Ser feliz seria o resultado de uma vida produtiva e da possibilidade de amar o outro, poder fazer escolhas e pensar. Não pode haver felicidade quando você está internamente passivo, com sua alma adormecida, acreditando que tendo mais e consumindo sem parar alcançará a tal plenitude. Na verdade, precisamos de muito pouco para viver bem e este pouco não está no mundo exterior. O homem de agora precisa fazer escolhas, precisa escolher entre o comprimido ou a palavra, entre a ação imediata e a reflexão, entre ter coisas ou pensamentos. O homem precisa escolher entre ter ou ser”, defende a psicanalista.

 Consumo consciente

 Outro ponto a ser observado no consumismo desenfreado é o quão sustentável é esse modelo. Num momento em que pelo menos 8 milhões de toneladas de plásticos acabam nos oceanos anualmente e 35% do plástico consumido são descartados após 20 minutos de uso, pensar sobre o meio ambiente é essencial. Neste cenário, surge o conceito de consumo consciente.

Fernanda Cortez é a idealizadora do Menos 1 Lixo (Foto: Divulgação)

Uma das referências brasileiras no assunto é o site Menos 1 Lixo, que além de ser uma plataforma de educação ambiental, é um movimento de conscientização sobre o que está por trás do lixo. Sua idealizadora é Fernanda Cortez, defensora da campanha Mares Limpos da ONU Meio Ambiente e apresentadora do programa Menos é Demais, do Discovery Home & Health.

No lugar de copos descartáveis, ela passou a usar um copo retrátil reutilizável e influenciou muitas pessoas a fazer o mesmo. Como o produto vinha da China, ela não tinha certeza se a mão de obra era ou não explorada. Por isso, resolveu criar um copo 100% brasileiro. “O copo do Menos 1 Lixo é um grande agente de transformação de comportamento, porque quando você cria esse hábito de levar seu copo e deixa de utilizar milhares descartáveis (em um ano eu economizei 1.618), você passa a perceber outros lixos gerados, e começa a eliminar esses lixos da sua vida também. Além de disseminar essa consciência por aí, já que o copo acaba rendendo muita conversa e é um bom ponto de partida para as pessoas falarem mais sobre isso”, explica em entrevista ao O&N.

Para ela, o consumo consciente é bem mais simples do que as pessoas costumam pensar. “Cada escolha de consumo é sobre apoiar um tipo de empresa em que acreditamos e pensar em como estamos deixando um impacto mais positivo no planeta. E essas escolhas se dão no nosso dia a dia. Deixar de usar um canudo já é um pequeno passo e isso não altera a rotina. Outras escolhas mexem um pouco mais, como, por exemplo, fazer compras a granel, levando seus próprios potes e saquinhos. Mas essa forma de compra também acaba entrando na nossa rotina como entrou o supermercado na vida das pessoas. E quando você chega em casa com as compras já organizadas em potes, acaba tendo mais tempo livre para ficar com os filhos, por exemplo”, explica. Os canudos descartáveis que chegam aos mares acabam fazendo mal aos animais marinhos, como mostra o vídeo da tartaruga que se tornou viral (IMAGENS FORTES). Além disso, geralmente, seu uso é dispensável. Entre as alternativas, estão os canudos reutilizáveis de vidro, metal e bambu. As compras a granel, por sua vez, evitam o desperdício de embalagens.

Da mesma forma que Yuka se sente mais feliz com o minimalismo, Fernanda se encontrou no consumo consciente. “O nosso consumo do ano passado foi o equivalente a 1,6 planetas. Isso significa que consumimos 60% mais do que o planeta tem capacidade de regenerar, e isso para manter um padrão de vida muito além do que, de fato, precisamos. Vivemos uma sociedade do descarte e o consumo consciente é um passo para repensarmos essa forma de vida. Mas o que me deixa mais feliz é que consumir de forma consciente nos deixa menos escravos de um comportamento de consumo que, de fato, não traz mais felicidade, mas faz com que as pessoas dediquem suas vidas inteiras a ganhar dinheiro para comprar ainda mais, quando a plenitude não pode ser alcançada pela aquisição de bens materiais”, explica a idealizadora do Menos 1 Lixo.

Comprar a granel, optar pela bicicleta, preferir embalagens de vidro podem lembrar hábitos do passado, mas essa volta não quer dizer que os minimalistas ou os consumidores conscientes são pessoas desatualizadas. “Os minimalistas acabam tendo determinados hábitos de consumo antigos, mas acho que, ao mesmo, tempo são pessoas conectadas e modernas. Afinal, a própria tecnologia possibilita que eles tenham esses comportamentos. Hoje em dia, por exemplo, é possível ter vários livros em um só aparelho”, explica Marcelo Mocarzel. Para Fernanda Cortez, essa volta ao passado é uma escolha e é muito bem-vinda. “É uma volta por opção, porque entendemos que fomos longe demais com a escolha de tornar tudo descartável, sem entender o impacto ambiental desse descarte”.

Consumir menos pode estar em alta nas redes sociais, pode ser tendência na internet, mas tem muita gente que realmente adota esses hábitos como estilo de vida. Ter mais tempo, qualidade de vida e ajudar o meio ambiente são apenas alguns exemplos do que você pode ganhar com isso.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *