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‘REFORMA PATRIÓTICA NA EDUCAÇÃO’

Queima de livros gera polêmica na China

Biblioteca queima livros para acatar ordem do governo, que baniu obras no âmbito de sua chamada ‘reforma patriótica na educação’

Queima de livros gera polêmica na China
Imagens circularam pelas redes sociais, gerando polêmica (Foto: Twitter/Michael Anti)

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Uma biblioteca na China, localizada no condado de Zhenyuan, na província de Gansu, gerou polêmica ao promover uma queima de livros postada nas redes sociais.

Fotos de duas mulheres, que seriam funcionárias locais, queimando uma pilha de livros do lado de fora da biblioteca percorreram as redes sociais no último fim de semana, despertando críticas e comparações com o regime nazista.

Segundo um artigo publicado no jornal local de Zhenyuan, a queima visa acatar a ordem do Ministério da Educação do país, que em 15 de outubro deste ano determinou o que chamou de “firme limpeza” em todas as bibliotecas de escolas primárias e secundárias.

No documento, o órgão anunciou o que chamou de “reforma patriótica na educação” para “criar um ambiente seguro” em escolas. Livros considerados tendenciosos, que abordem religiões ilegais na China ou promovam “perspectivas e valores globais incorretos” serão banidos.

As instituições têm até março de 2020 para reportar ao governo seus esforços para atender a demanda do Ministério da Educação. As escolas devem informar quais livros retiraram das prateleiras de suas bibliotecas, bem como o nome do autor, a editora e a data que o livro foi publicado.

Segundo noticiou o Guardian, a notícia da queima de livros fez muitos chineses lembrarem a era da Dinastia Qin, quando livros eram queimados e acadêmicos queimados vivos como forma de controlar a população e impedir críticas ao regime.

“A forma como uma sociedade lida com livros é um teste para sua abordagem em relação ao conhecimento e à civilização e nunca deve ser arbitrária ou bárbara”, criticou um editorial da popular revista Beijing News, que posteriormente foi censurado.

No Weibo – a versão chinesa do Twitter – o debate se alastrou pelo fim de semana. “Horripilante. Primeiro você demoniza intelectuais públicos, depois queima livros. Esta é uma nova revolução cultural?”, disse um usuário da rede social, em referência ao período entre 1960 e 1970, quando intelectuais eram perseguidos e atacados.

Outras postagens destacavam que o regime nazista também recorreu à queima de livros e um usuário ironizou a ação, afirmando que “ignorância é poder”.

Outros casos pelo mundo

A China não é o único país a censurar o pensamento livre para promover uma reforma patriótica na educação. Na Hungria, o governo do primeiro-ministro Viktor Orbán promoveu uma controversa reforma no sistema educacional em fevereiro deste ano.

Os novos livros aprovados pelo governo para serem usados em escolas promovem a visão de nacionalismo cristão de Orbán. A reforma também eliminou programas acadêmicos opostos aos valores ultraconservadores do governo, o que obrigou uma das principais universidades da Hungria a transferir seus cursos para o exterior.

Além disso, Orbán determinou o fechamento do Institute to the History of the 1956 Hungarian Revolution, um renomado centro de pesquisa do país. A medida foi tomada via decreto, sem qualquer consulta ao Instituto. No decreto, Orbán incorporou o Instituto ao Veritas Historical Research Institute and Archive, criado pelo governo há cinco anos e que, segundo os críticos, promove uma versão da história que favorece a ideologia e o programa de governo de Orbán.

No Brasil, dezenas de organizações em defesa da Educação e de professores lançaram, em novembro do ano passado, um manual de defesa contra perseguições de docentes, assinado por cerca de 60 entidades.

O documento reúne dicas, pedagógicas e jurídicas, de como os profissionais de ensino – sejam professores ou diretores – devem agir em caso de intimidação ou tentativa de censura no âmbito do chamado “Escola sem Partido”.

O manual foi lançado na esteira de episódios polêmicos envolvendo a perseguição a livros e professores. Em outubro de 2018, o Colégio Santo Agostinho, no Leblon, bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro, retirou o livro “Meninos sem Pátria”, de Luiz Puntel, da lista de leitura do 6º ano do ensino fundamental, após a obra ser acusada de “doutrinar” as crianças. A obra, ambientada no período da ditadura militar brasileira, fala sobre uma família que precisa deixar o Brasil.

Em Belo Horizonte, o tradicional colégio católico também chamado Santo Agostinho foi alvo de um processo na Justiça, impetrado por dois promotores do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), sobre supostas aulas que falavam sobre “ideologia de gênero”. A Promotoria de Justiça de Educação, porém, questionou a competência da denúncia e determinou a suspensão do processo.

Também em outubro de 2018, a deputada Ana Caroline Campagnolo (PSL-SC) foi alvo de um inquérito do Ministério Público Federal (MPF) para apurar suspeita de intimidação a professores de Santa Catarina. O processo foi aberto após a deputada postar em suas redes sociais um pedido para que estudantes filmem ou gravem “todas as manifestações político-partidárias ou ideológicas” por parte dos professores. A deputada fez o pedido logo após a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais ser confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A publicação gerou polêmica e chegou até o MPF.

Além de abrir inquérito para investigar o caso, o MPF em Chapecó (SC) orientou que as instituições de ensino superior impeçam qualquer tipo de assédio moral contra os professores, seja por alunos ou familiares.

Em novembro de 2018, o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) gerou polêmica ao tentar invadir um colégio no Rio de Janeiro, para promover o que chamou de “auditoria”. O deputado – que ganhou fama após destruir uma placa em homenagem à vereadora assassinada Marielle Franco – divulgou dois vídeos, em suas redes sociais, nos quais afirmava que iria auditar o Colégio Estadual Dom Pedro II, em Petrópolis.

No vídeo, Silveira diz que a diretora da instituição, Andrea Nunes Constâncio, teria “retaliado” funcionários que o permitiram entrar no colégio, sem o aval da escola. Silveira, que é ex-policial militar, divulgou um vídeo onde afirma que, por ser deputado, “pode entrar em qualquer estabelecimento sem permissão”. Ele diz que a visita tinha como objetivo contribuir para a modernização do sistema de notas, faltas e presenças.

O Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (Sepe-RJ), núcleo Petrópolis, divulgou uma nota de repúdio ao vídeo. Em resposta, Silveira divulgou um segundo vídeo sobre o tema.

“Eu não só vou auditar o Colégio Dom Pedro II, de Petrópolis, desde o início da sua gestão. Isso não é uma ameaça, é um fato. Como também vou solicitar junto ao governo do estado, e federal, uma auditoria do Sindicato de Petrópolis [Sepe]. Sepe, vocês acabaram de chamar minha atenção também. Quando começa muito defesa de esquerda para a esquerda, eu sinto cheiro de m*. E quando eu sinto cheiro de m*, a gente tem que limpar. Vamos ver o que a gente vai encontrar? […] Então, diretora [Andrea Nunes Constâncio], você será auditada e sua escola também, desde o início da sua gestão, e também as anteriores”, afirmou o deputado eleito.

As afirmações de Daniel Silveira geraram indignação em diferentes organizações em defesa da Educação. A Associação Petropolitana dos Estudantes (APE) divulgou uma nota de repúdio, classificando as afirmações como “perseguição”. A entidade também destacou o apoio à “pluralidade de pensamento” e afirmou que não vai aceitar “ameaças e xingamentos”.

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