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LIVRARIAS EM AGONIA

Quem se anima a vender livros no Brasil?

Gigantes do mercado se movimentam a passos de... gigante; pequenos seguem penando no país onde 'vender livros é como vender geladeiras para esquimós'

Quem se anima a vender livros no Brasil?
O fechamento de livrarias generalistas tradicionais não é, evidentemente, um fenômeno carioca (Foto: Pixabay)

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Há pelo menos um clássico do gênero comédia romântica que está fazendo 20 anos: em 1998, entrava em cartaz o filme You’ve Got a Mail (No Brasil, “Mensagem Pra Você”), grande sucesso de crítica e de bilheteria estrelado por Tom Hanks e Meg Ryan, cujos personagens mantinham um namoro virtual, por e-mail, sem se conhecerem, sem sequer saberem os nomes um do outro, e sem saberem também que estavam prestes a se tornarem rivais no mundo bem real dos negócios. Se é que a palavra “rivais” pode ser apropriada para denotar o pé de desigualdade entre uma tradicional livraria de rua, literalmente da esquina, a The Shop Around The Corner (uma linda livraria especializada em literatura infanto-juvenil), e uma filial de uma gigantesca rede do mercado editorial americano, a Fox Books Megastore, prestes a ser inaugurada poucos metros adiante, no bairro nova-iorquino de Upper West Side.

No bairro, até poucos dias antes da inauguração, ninguém sabia do que se tratava aquela enorme e barulhenta obra que ia chegando ao fim sem qualquer indicação do que estava reservado à vizinhança. O herdeiro da rede e responsável pela sua mais nova filial, o jovem Joe Fox (interpretado por Hanks), pergunta a opinião de um assistente sobre pôr de uma vez o logotipo da empresa na fachada. O assistente responde que “seria o mesmo que anunciar que vamos abrir uma boca de fumo”, a moradores que verão na Fox Books “a loja que vai destruir tudo aquilo que eles amam”. O executivo responde: “Eles vão nos odiar no começo. Mas no fim das contas vamos conquistá-los. Sabe por quê? Porque venderemos livros baratos e estimulantes aprovados por lei”.

Quando finalmente, às vésperas da inauguração, a obra amanhece rodeada da identidade visual da Fox Books, a dona da The Shop Around The Corner, Kethleen Kelly (personagem de Meg Ryan) diz a dois dos seus três funcionários: “Não vai nos afetar em nada. É grande, impessoal, tem estoque demais e vendedores ignorantes”, no que um deles retruca: “Mas dá desconto”.

Rio de Janeiro, 2018: o Guia de Livrarias da Cidade do Rio de Janeiro à venda nas melhores livrarias da cidade do Rio de Janeiro foi lançado há poucos meses, três, a rigor, e sua lista de 204 casas livreiras cariocas já está defasada em pelo menos oito, que é o número das que fecharam as portas entre o fim da edição do livro e o dia da sua publicação. A Associação Estadual de Livrarias do Rio (AEL-RJ) informa que, entre 2016 e 2017, o Rio perdeu cinco livrarias, mas no mesmo período ganhou outras nove. Incluída nessas nove está a reinauguração da mítica Leonardo Da Vinci, no Centro da cidade. Entre as baixas estão o tradicionalíssimo sebo Al-Farabi, também no Centro, e a Livraria Bolívar, de Copacabana.

A grande maioria dos 204 estabelecimentos listados no Guia de Livrarias da Cidade do Rio de Janeiro não é generalista; 75% deles são livrarias de nicho, voltadas para o público infanto-juvenil, para o mercado de livros religiosos ou dedicadas apenas a livros técnicos. É esse, o nicho, o caminho encontrado para (tentar) sobreviver no mundo bem real dos negócios de livros, onde a realidade é, por exemplo, um preço “virtual”, na Amazon.com, de R$ 44,90, 36% mais barato do que em qualquer livraria de rua, para o último ganhador do prêmio Jabuti na categoria romance: “Machado”, de Silviano Santiago, sobre os últimos anos de vida do “bruxo do Cosme Velho”, que foi um grande frequentador das melhores livrarias da sua cidade, sendo que o próprio romance retrata as visitas de Machado de Assis na (extinta) Livraria Garnier.

O fechamento de livrarias generalistas tradicionais não é, evidentemente, um fenômeno carioca. Recentemente, também em 2017, a vizinha Niterói perdeu a última das suas mais tradicionais casas: a Gutenberg, no bairro de Icaraí. Mas o fenômeno se espalha mesmo para muito, muito além dos entornos da baía de Guanabara. Do outro lado do Atlântico, após um morticínio de livrarias ancestrais na região da Baixa-Chiado, em Lisboa, os portugueses foram surpreendidos na semana passada pelo anúncio do fechamento de mais uma mítica casa livreira, desta vez no Porto, e essa de sugestivo nome Leitura. Ainda hoje há parisienses órfãos da lendária livraria La Hune, ponto de encontro de intelectuais como Camus, Sartre e Simone de Beuvoir, que fechou as portas em 2015 e cujo prédio histórico virou cinzas no ano passado, destruído por um grande e metafórico incêndio.

A própria Nova York, desde a época da batalha em película da The Shop Around The Corner contra a Fox Books Megastore, perdeu lojas antes cultuadas pelo público, como a Coliseum Books e a Gotham Book Mart. Nem a Drama Bookshop, de nicho (teatro, música, ópera), resistiu aos e-books, à venda de brochuras online, e com desconto, e quem sabe até ao Facebook e à Netflix, que o dia tem só 24 horas, a semana ainda tem limitados sete dias e o ano segue não passando de 366, quando muito e bissexto.

No Brasil, a venda de e-books não chegou a decolar, apesar da chegada da Amazon ao mercado nacional, em 2012, vendendo apenas livros eletrônicos. Em 2014 a companhia começou a vender livros de papel. Em 2017, começou a vender eletrônicos que não são livros, mas sim televisores, celulares e liquidificadores. “Agora sim a Amazon poderá dizer que chegou ao Brasil”, ironizou a revista Exame em maio do ano passado, fazendo alusão à expansão da Amazon para além do mercado livreiro em um país onde 44% da população não lê livros e 30% nunca comprou um, o que explica a velha agonia das livrarias independentes nacionais mais do que as novas dificuldades que ora lhe complicam ainda mais o metiê. Quando do lançamento do Guia de Livrarias da Cidade do Rio de Janeiro, em outubro último, o presidente da AEL-Rio, Antônio Carlos de Carvalho, cantou a pedra: “Vender livros no Brasil é como vender geladeira para esquimós. Precisamos investir na formação de leitores”.

Em 2017, a Amazon também liberou no Brasil a funcionalidade de pessoas físicas e livreiros utilizarem sua tecnologia para vender livros novos ou usados, não sem, obviamente, abrir mão de ficar com um significativo percentual, e não sem cobrar mensalidade. A Livraria Cultura, diante disso, mexeu-se e anunciou no fim do ano passado a compra da Estante Virtual, site que reúne uma gigantesca rede de sebos de todo o território nacional, o que vai agregar à rede da família Herz quatro milhões de clientes de todo o território nacional. Meses antes a Cultura havia anunciado a compra das operações da Fnac no Brasil, o que significa nada menos que 30 lojas espalhadas pelo país.

Quem pode, portanto, se arma para enfrentar Golias com muito mais do que pedras catadas do chão. Talvez os grandes players do mercado nacional se aninem a novas investidas e movimentações multimilionárias diante do anúncio feito no último 19 de janeiro pela Nielsen Bookscan Brasil de aumento de 6,15% do mercado de livros no país em 2017, após uma queda de quase 11% em 2016. Pelo menos talvez haja, portanto, quem se anime.

 

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2 Opiniões

  1. Cido disse:

    Na dita sociedade da informação, mais do que nunca, a competência de leitura se faz essencial. Na avalanche de informações precisamos saber interpretar os dados para compreendermos a fundo a realidade. Os livros nos ajudam nessa empreitada. https://ladoblivros.com.br/sebo/

  2. Aline de Alencar Rosa disse:

    Os livros estão sendo desvalorizados, isto é muito triste pois quem quer ingressar na carreira de escritor terá um grande desafio pela frente.

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