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EXÉRCITO NAS RUAS

Rio: a tropa e os ‘tempos extraordinários’ de sempre

Exército está de volta às ruas do Rio de Janeiro, porém, o grande capo desta cidade ‘entregue à bandidagem’, já está atrás das grades e se chama Sergio Cabral Filho

Rio: a tropa e os ‘tempos extraordinários’ de sempre
Vinte e três anos depois da ‘Operação Rio’ exército está de volta às ruas (Foto: Agência Brasil)

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Corria o ano de 2012 quando, em editorial, o jornal Estado de S. Paulo comentava as medidas anunciadas naquela feita pelo Ministério da Justiça para mais uma “ajuda federal” ao estado do Rio de Janeiro, então governado por Benedita da Silva, no escopo do combate à criminalidade: “As medidas de combate ao crime organizado no estado anunciadas pelo governo federal são praticamente as mesmas tomadas oito anos atrás durante a Operação Rio”.

Pois oito anos antes, em 1994, e sobre ela, a Operação Rio, o outro jornalão de São Paulo, a Folha, sacramentava também em editorial, e no calor do desenrolar das ações: “Poucos resultados efetivos e muito abuso de autoridade. É assim que se pode definir a primeira intervenção mais direta do Exército no combate à criminalidade no Rio”.

Juntando a referência ao eterno retorno das mesmíssimas “medidas de combate à criminalidade”, feita pelo Estadão, e os “poucos resultados efetivos” com “muito abuso de autoridade” detectados pela Folha, assim chegamos ao Rio de Janeiro do ano dezessete do século XXI, vinte e três anos depois da Operação Rio, agora mesmo, portanto, onde e quando o Exército de Caxias, hoje de Etchegoyen, está uma vez mais mobilizado para a “guerra”. A “Guerra do Rio”, como a imprensa carioca costuma dizer, sem a distância crítica sobre a questão criminal que vez por outra pode-se ver manifestada na imprensa paulista.

Pois foi na sequencia de uma escalada de manchetes dos jornais do Rio de Janeiro dando conta de uma cidade “entregue à bandidagem”, “refém da criminalidade”, que o governo Itamar Franco, e portanto e também o jornal Globo, empurraram goela abaixo do então governador Nilo Batista um convênio prevendo a presença ostensiva das Forças Armadas nas favelas e bairros populares da capital fluminense.

Como pano de fundo para a Operação Rio, que começou no dia 31 de outubro de 1994, estava descortinada a ideia difundida por essa mesma imprensa carioca de que fora justamente o padrinho político de Nilo Batista o responsável pelo estado de coisas na segurança pública do Rio. Isso porque Leonel Brizola, quando por duas vezes governador do estado, não permitia que a polícia fizesse justamente operações de “guerra” no meio de favelas e bairros populares.

Tanto ontem quanto hoje — hoje, à luz dos cadáveres ainda quentes do Jacarezinho — a premissa de que o Estado deve evitar a todo custo desencadear tiroteios diários e intensos em áreas de imensa densidade populacional, em vez de promovê-los, deveria parecer óbvia, mas não é.

Em 1994, durante a Operação Rio, o grupo Tortura Nunca Mais acompanhou aquela ocupação pelo exército de favelas do Rio, constatando torturas em moradores e um sem número de outras violações de Direitos Humanos (esses cujo respeito incondicional também já figurou, um dia, no rol dos óbvios ululantes) fazendo inclusive denúncias à Procuradoria Geral da República. A fundadora do grupo, Cecília Coimbra, é autora de um livro chamado “Operação Rio: o mito das classes perigosas”, no qual diz, sobre aquele famigerado “convênio”:

“Centenas de pessoas foram presas arbitrariamente, várias torturadas e mesmo sequestradas, milhares de casas invadidas, os mais variados roubos perpetrados, escolas, igrejas e centros comunitários utilizados para operações militares e transformados em centros de triagem e torturas. Toques de recolher vigoraram em quase todos os locais e morros invadidos, em flagrante desrespeito ao direito de ir e vir”.

De volta ao Rio, Exército, Marinha e Aeronáutica estão mobilizados contra o “crime organizado”, nas palavras dos artífices de mais essa “intervenção federal”, os mesmos que sabem bem: guerras pressupõem a identificação precisa do inimigo a ser combatido. O grande capo deste Rio “entregue à bandidagem”, “refém da criminalidade”, porém, já está atrás das grades, já responde a mais processos do que Fernandinho Beira-Mar ou Isaías do Borel, e se chama Sergio Cabral Filho. São tempos realmente difíceis e extraordinários.

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2 Opiniões

  1. laercio disse:

    Sessenta e quatro mil mortos/ano vítimas de ações marginais e ainda temos que ouvir falar em abuso de autoridade…
    O exército e a polícia estão com as mãos amarradas! Estamos lhe dando com “demônios” que por vícios são chamados de bandidos.
    … Nossas universidades estão preocupadas demais com critérios técnicos e se esquecerem da ética!
    A moral de cada pessoa não admite a situação criminal presente! Se o estado não conseguiu trabalhar então não se deve falar em abuso de autoridade, deixa a polícia e o exército trabalharem para exterminar quem está matando o povo.
    O povo tem que ser o primordial em uma nação! Aqui no Brasil ele é destruído convenientemente em nome de lucro, tem muita gente falando bobagem porque lucra muito com o atual estado de neurose crônica instalada na sociedade.
    Não vou falar acorda autoridade porque estão todos acordados até demais…
    Quanto o Estado dizer sua parte então poderemos falar em abuso de autoridade, enquanto não faz sua parte devemos valorizar os heróis da polícia e exército! O Brasil ainda tem uma bandeira devido esses agentes, do contrário estaríamos em guerra civil há muito tempo.

  2. Lucinda Telles disse:

    Cecília Coimbra é uma gracinha. Ela me lembra o doente que reclama do hospital, do plano de saúde, do SUS, do médico, do enfermeiro, do remédio, do soro, da injeção, do . . .Chega um ponto que nem sabe mais qual é a doença.

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