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ESTRATÉGIA POLÍTICA

Sem rumo ou ‘comprado em dólar’

O PT e o ex-presidente Lula ou não sabem o mal que fazem quando pedem a cabeça do ministro da Fazenda ou estão 'comprados em dólar'

Sem rumo ou ‘comprado em dólar’
Saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não faria muita diferença, diz economista (Wilson Dia/Agência Brasil)

O governo federal, com a ajuda do ex-presidente Lula, tem consigo a incrível façanha da apressar a perda do segundo grau de investimento do Brasil, postergar a retomada do investimento, aumentar a volatilidade cambial e as expectativas de inflação.

O pedido do ex-presidente Lula para a saída de Joaquim Levy noticiada fortemente pelos jornais de sexta-feira, 16, e que levou a uma reunião entre o ministro e a presidente da República, reunião esta em que supostamente o ministro carregava em seu bolso uma carta de demissão (não confirmado), deixou o mercado nervoso e aumentou ainda mais as incerteza da economia.

Leia também: ‘O ministro Levy fica’, diz Dilma 

Por que tanto nervosismo com a troca de um ministro da Fazenda? Por pelo menos quatro motivos. Primeiro, a agenda do ajuste fiscal, independentemente de quem sente na cadeira que é hoje ocupada por Joaquim Levy, é a mesma. Assim, alguém achar que a troca de um ministro faria muita diferença está equivocado. Mas a depender de quem seja o novo ministro e do seu desejo de agradar politicos do PT  o quadro econômico pode piorar ainda mais.

Segundo, uma dos grandes ou o maior entrave ao processo de ajuste fiscal e que alimenta as incertezas é a atuação dos parlamentares e simpatizantes do PT. A cada dia a população é bombardeada com criticas do PT ao ministro da Fazenda e a sugestão de um suposto plano de ajuste alternativo que, ao contrário de resolver a crise, agravaria a crise fiscal. Apenas alguém muito inocente (mesmo com Ph.D. e com título de professor titular) poderia achar que aumento do gasto publico em um país com déficit nominal de 9% do PIB resolveria uma crise fiscal.

Terceiro, um outro entrave ao ajuste econômico é o governo do PT. Entre os parlamentares de oposição há a convicção que não há como negociar com um governo do PT porque, um mínimo consenso politico pró-reformas hoje, seria utilizado em um momento seguinte pelo PT para acusar políticos dos partidos de oposição de promoverem uma agenda liberal contra os trabalhadores e as classes de renda mais baixa do país.

Ou seja, muitos parlamentares de oposição acreditam que o governo que hoje pede ajuda do Congresso Nacional para aprovar o aumento da CPMF será o mesmo que amanhã usará a aprovação de qualquer reforma para jogar a culpa dessas mesmas reformas no colo da oposição. Tem dúvidas? Quem foi o senador que primeiro criticou veementemente o ultimo plano de ajuste fiscal? Um senador do PT: Lindbergh Farias.

Quarto, muitos alegam que, mais do que trocar o ministro da Fazenda, o processo de ajuste seria mais fácil com a troca de governo. Mas como estamos há três anos de uma nova eleição, os analistas veem duas possibilidades com o governo atual. O governo se mantém até 2018 em um cenário de estagnação, com um ajuste fiscal incompleto e com pouquíssimos avanços estruturais. A outra possibilidade é a presidente não terminar o seu mandato e, por isso, analistas de mercado hoje visitam mais deputados e senadores do que os ministérios da Fazenda, do Planejamento e o Banco Central.

E a possibilidade de o governo conseguir se fortalecer politicamente e aprovar uma agenda de reformas estruturais? Hoje, quase ninguém acredita nessa possibilidade, e o PT junto com o ex-presidente Lula, ao atacarem sistematicamente a equipe econômica do governo Dilma, aumentam as incertezas e fazem com que todos fiquem trabalhando com os dois cenários possíveis apontados acima.

O PT e o ex-presidente Lula ou não sabem o mal que fazem quando criticam a política econômica e pedem a cabeça do ministro da Fazenda ou estão “comprados em dólar” (linguagem do mercado para quando alguém compra dólar no mercado futuro por um preço pré-estabelecido e, se o valor da moeda dispara, a pessoa tem um grande lucro, pois  vai comprar a moeda por um preço menor no dia de fechamento da operação e vender a um preço mais alto).

*Mansueto Almeida é economista do Ipea e escreve no Blog do Mansueto

Fontes:
Blog do Mansueto - Sem rumo ou 'comprado em dólar'

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2 Opiniões

  1. Markut disse:

    Não é de fato, ruptura institucional. É algo pior: imaturidade institucional, irresponsabilidade criminosa de um governo , hoje amaldiçoado por grande maioria, mas que se aferra ao poder,sob o manto protetor da consagração das urnas, garantido por um voto alienado, de um eleitor predominantemente analfabeto funcional, que mal lê, sem entender e garatuja a sua assinatura , refém do cabresto, da desinformação, da anestesia. É esse voto que consagrou a posse de um governo de vorazes arrivistas, populistas, no pior sentido, à qual se mesclam os representantes dos históricos grotões oligárquicos, ainda muito poderosos.
    Só o grito da rua, pressionado pelo desespero da perda de poder aquisitivo é que poderá intimidar os responsáveis por “isso tudo que está aí”.
    Os que teriam o dever de fazê-lo, uma oposição atuante,atualmente inerme,andam todos com um extranho rabo preso.

  2. Beraldo Dabés Filho disse:

    Não é plausível imaginar que o perfil do eleitorado brasileiro tenha mudado nas últimas três eleições presidenciais. Elementar, já que todos os governos anteriores, desde 1889 tiveram este mesmo eleitorado. Argumento incoerente, até mesmo porque o refinado vocabulário utilizado, revela grau de cultura acadêmica elevado, se bem que na última sentença, recorre ao linguajar popular e escorrega no “extranho rabo preso”. EStranho…

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