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ELEIÇÕES 2018

Seria de auditório o programa do ‘Incrível Huck’?

O ‘Oprah’ brasileiro é a versão nacional da busca desesperada por ‘alternativas’ contra o descrédito em partidos e grupos políticos

Seria de auditório o programa do ‘Incrível Huck’?
Após anunciar que não seria candidato às eleições, Luciano Huck voltou atrás (Foto: Reprodução/Tv Globo)

A cena é de um filme de Hollywood quase que assumidamente trash: “Os Mercenários”, de 2010. Dois caçadores de recompensa rivais, interpretados por Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger, encontram-se com um potencial contratante, Mr. Church, interpretado por Bruce Willis, para disputar um serviço sangrento e clandestino num dito perigoso país insular, e “fictício” (pois sim…), da América Central. O mercenário Trench Mauser, personagem de Schwarzenegger, ao ouvir do que se tratava o trabalho, logo desiste da parada, considerando a missão um tanto suicida. Ele dá meia volta e vai-se embora. Mr. Church estranha a “amarelada” do famoso mercenário, e pergunta a Barney Ross: “O que há com ele?”. Stallone responde: “Ele quer ser presidente”.

Naquela altura da “arte” imitando a vida, Arnold Schwarzenegger era o governador do estado da Califórnia. Ele jamais se candidatou a presidente dos EUA porque isso não lhe é possível: a constituição americana determina que só americanos natos podem chefiar a Casa Branca, e o “Conan Republicano” nasceu na cidade de Graz, na Áustria, no ano de 1947. Schwarzenegger bem que tentou emplacar um grande lobby para mudar a constituição, mas esse não chegou a ser exatamente um de seus sucessos de bilheteria, por assim dizer.

Já aquele que é apontado como o sucessor de Schwarzenegger nos filmes de Hollywood ditos “de pancadaria”, o ex-astro de luta livre Dwayne “The Rock” Johnson, nasceu no ano de 1972 na cidade de Hayward, precisamente na Califórnia, e não esconde de ninguém sua pretensão de subir ao ringue eleitoral em 2020, pelo Partido Democrata, contra Donald Trump. Em meados do ano passado, uma pesquisa do instituto Public Policy Polling mostrou que, naquela altura, “The Rock” daria uma surra de 42% a 37% no atual presidente dos EUA, outro que nunca foi – mas afinal tornou-se de repente – um político profissional, por mais que não de carreira, e ainda que vindo, ele e sua fortuna, de outra modalidade de vale tudo: o ramo da construção civil.

Mas se quiser mesmo suceder a Trump, “The Rock”, cuja carreira de ator não tem sido construída apenas com filmes de pancadaria, como tentam fazer crer seus críticos mais ácidos (ele estrelou, por exemplo, o singelo “O Fada do Dente”, também de 2010), pode ter que enfrentar primeiro, nas prévias do Partido Democrata, outra personagem do mundo do entretenimento que ora se lança (“estou pensando ativamente”) como um dos principais nomes para a eleição de 2020 nos EUA, mais um “de fora da política”: a apresentadora Oprah Winfrey. Em recente entrevista ao USA Today, “The Rock” disse que pretende ser presidente “para servir às pessoas”. Não é mera coincidência uma qualquer semelhança com o “vou cuidar das pessoas” do ex-bispo profissional que também só tardiamente se fez político salvacionista: senador, ministro e finalmente prefeito da cidade do Rio de Janeiro.

Se Dwayne Johnson já foi “o fada” do dente, Luciano Huck desponta como “o Oprah” do Brasil para as eleições presidenciais de outubro próximo, muito próximo. O apresentador do programa de auditório das tardes de sábado na Rede Globo chegou a anunciar, semanas atrás, que não seria candidato, depois de uma escalada do seu nome como mais um dos balões de ensaio soltados pela imprensa, ou via imprensa, chegando mesmo, sua figura, a estampar uma capa da revista IstoÉ ao lado do trocadilho, digamos, verde (ainda que a capa fosse azul e amarela) “O Incrível Huck”. Dias atrás, Huck relançou-se, ou foi relançado, numa participação ao vivo no programa de auditório da Globo, mas o de domingo, o de Fausto Silva.

Luciano Huck disse ao Faustão que não acredita na dicotomia “direita” versus “esquerda”, e que acredita muito no Brasil e “contem comigo para tentar melhorar essa bagunça geral aqui”. Talvez esse seja mesmo um projeto político arrancado do fundo de seu coração, ignorando que para partidos e grupos políticos desacreditados junto às massas só restam mesmo astros e estrelas que, sim, caem do céu. É improvável, mas talvez seja apenas “loucura, loucura, loucura” que “o incrível Huck” acredite, mesmo, no duro, na possibilidade de administrar um país, de formar maiorias parlamentares de maneira republicana, de costurar consensos verdadeiramente democráticos, de traçar uma política externa a sério, de formular, afinal, um programa de governo para ser submetido às urnas, tudo como quem comanda um quadro de reforma de casas pobres com o oferecimento de meia dúzia de vendedores de móveis e de tintas.

Uma casa guaribada por sábado, 52 por ano, e estaria pronta sua proposta de programa não propriamente de auditório, mas habitacional – desnecessário dizer que “nem de esquerda, nem de direita” – para um país com déficit de cerca de 11 milhões de moradias minimamente salubres onde uma família possa pôr os pés e viver com um mínimo de dignidade.

“Infeliz a nação que precisa de heróis”, disse Galileu Galilei a um jovem e incauto assistente. Não o próprio, mas o Galilei transformado em personagem de uma peça sobre sua vida escrita por Bertolt Brecht, cujos 120 anos de nascimento serão comemorados mundo afora – ou assim se deveria – no próximo dia 10 de fevereiro. Brecht, se ainda vivo, talvez atualizasse a célebre frase do célebre cientista para algo como “infeliz a nação que cogita abraçar líderes forjados na luta pela audiência, em vez de na luta política”.

O poeta e dramaturgo alemão, cuja pena era afiada, talvez fizesse a ressalva, sobre o Brasil do século XXI, que mais infeliz ainda um país que sequer logrou constituir-se, ou reconstituir-se, como nação, projeto algumas vezes ensaiado, mas sempre abortado por sucessivas renúncias à sua autonomia econômica. Talvez acrescentasse ainda que, dado o poder que tem a mídia de massas para açular essas renúncias, na verdade em nada surpreende o esforço para inflar um balão “telerredentor” cunhado no caldeirão das disputas pela atenção das massas teleguiadas.

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2 Opiniões

  1. Markut disse:

    Aquí se comporia o pensamento de Brechet , utilizando o poder de um Huck, ou de um Silvio Santos, aproveitando o poder de difusão da televisão, como comunicador de massas, preenchendo a lamentavel lacuna da desinformação da massa eleitora,engodada pela voracidade dos eternos e vorazes urubús , atrás da apetitosa carniça dos cargos públicos, neste terceiro mundo, oligárquico, ainda na fase extrativista.onde prevalece o populismo predador.

  2. carlos alberto martins disse:

    Luciano,por favor fique na sua de apresentador,chega de Tiriricas na política.seria trocarmos um palhaço por outro.

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