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RETORNO À POLÍTICA

Solto, Lula busca reorganizar oposição a Bolsonaro

Primeiros discursos deixam claro que foco será política econômica; ex-presidente acena para militares e 'centrão'

Solto, Lula busca reorganizar oposição a Bolsonaro
Ex-presidente deve atuar para preparar o terreno para as eleições de 2020 e 2022 (Foto: Twitter/JanjaLula)

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Fragilizada após sucessivas derrotas – o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a vitória da extrema-direita em 2018 –, os partidos à esquerda do centro político fizeram, até novembro deste ano, oposições apenas pontuais ao governo Bolsonaro.

Seja na esteira dos bem-sucedidos protestos contra os cortes na educação ou na denúncia ao recorde das queimadas na Amazônia, estes partidos mantiveram-se na retaguarda, à espera dos erros do governo. Para o bem ou para o mal, a situação é outra desde 8 de novembro, quando Lula, depois de 580 dias preso, foi solto.

As primeiras reações nas ruas, nos gabinetes de Brasília e entre lideranças partidárias dão a medida do impacto do retorno do ex-presidente à disputa política. Antes deprimidos, simpatizantes das esquerdas saíram a comemorar; Bolsonaro e Moro imediatamente atacaram o petista, inflamando manifestantes de direita que também foram às ruas; Marcelo Freixo, expoente do PSOL, viajou a Curitiba para comemorar a soltura, e Ciro Gomes, que quer manter acesa sua candidatura para 2022, rapidamente buscou antagonizar com Lula.

Na mídia não foi diferente. Se até novembro o nome de Bolsonaro e sua prole praticamente monopolizavam o noticiário, do dia 8 em diante Lula “polarizou” as páginas dos jornais, que passaram a contar com as críticas do ex-presidente ao atual governo.

E foram muitas, inclusive em tons acima do esperado por lideranças petistas: Lula afirmou que Fernando Haddad teria vencido em 2018 caso as eleições não tivessem sido “roubadas”, em referência às fake news favoráveis a Bolsonaro, a quem acusou, ainda, de governar “para os milicianos do Rio de Janeiro”.

Passado o frenesi inicial, o ex-presidente deve atuar para reagrupar a oposição ao governo e preparar o terreno para as eleições de 2020 e 2022.

Militância, centro-esquerda e 2020

A tônica das críticas ao governo será a economia. Já em seu primeiro discurso, Lula ressaltou a queda na renda dos brasileiros e a “uberização” da população, que recorre à informalidade em um cenário de crise e desemprego acima dos 11%.

“Tô vendo o governo destruir o país. O Bolsonaro fica com essa estupidez, querendo governar com fake news e mentira para todo lado, o [Paulo] Guedes aproveita e vai vendendo o Brasil, e o país tá sendo quebrado. Desemprego muito alto, salário muito baixo, acabando com educação e investimento em ciência e tecnologia”, disse Lula em sua primeira entrevista  após sair da prisão, concedida ao site Nocaute, do escritor Fernando Morais.

Tanto a crítica às medidas econômicas quanto os ataques contundentes a Bolsonaro visam, na análise do cientista social Demétrio Magnoli, situar o ex-presidente como “única oposição real” ao governo. Pois, embora tentem viabilizar-se eleitoralmente para 2022, personagens como Luciano Huck, João Doria ou Rodrigo Maia concordam, essencialmente, com a direção dada por Guedes na economia. “O protagonismo oposicionista de Lula emerge da abdicação dos demais atores”, concluiu o articulista, nas páginas da Folha de S.Paulo.

Lula busca em um primeiro momento comunicar-se com a militância de esquerda. Em outras frentes, quer afinar sua relação com os partidos de esquerda e centro-esquerda, e tenta, inclusive, reconstruir pontes com legendas de centro-direita e com os militares. Por fim, recados foram direcionados ao Congresso e ao STF.

Em relação aos partidos de esquerda e às eleições de 2020, não está claro qual será o posicionamento de Lula. Logo após a soltura, chegou a ser divulgado que o PT apoiaria a candidatura de Freixo no Rio de Janeiro, João Campos (PSB) em Recife e Manuela D’Ávila (PCdoB) em Porto Alegre. Mas esse fato inédito – o partido abdicar de candidatura própria nas capitais – foi desmentido pelo próprio ex-presidente na entrevista ao Nocaute.

“No Rio, por que o PT não lança um candidata do porte da Benedita [da Silva]? Se ela não for [para o segundo turno], ela pede voto pro Freixo, e se ele não for, pede para ela”, disse.

Por outro lado, o aceno a ex-petistas – alguns dos quais, inclusive, apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff – foi direto, sobretudo no caso das eleições em São Paulo no ano que vem.

“Sou grato por tudo que a Marta fez pelo PT. Fiz dezenas de reuniões na casa da Marta, gravando programa naquela sala. Ela ainda nem era do PT, era uma sexóloga famosa. E depois foi a melhor prefeita de São Paulo. Se quiser voltar ao PT, da mesma forma que saiu, ela pode entrar”.

Com Ciro Gomes (PDT), entretanto, a relação é outra. Embora elogie seu ex-ministro, Lula segue a estratégia de isolá-lo no campo da esquerda. Ciro, por sua vez, parece enxergar no flerte ao antipetismo sua possibilidade de vingar em 2022.

“A força relativa dominante hoje continua sendo o antipetismo”, disse o pedetista em entrevista ao Estadão. “Veja a condição de partida que o PT tem em Porto Alegre, Santa Catarina, Paraná e veja o Sudeste, veja São Paulo, Rio de Janeiro. Você vai ver o que acontece no ano que vem…”, profetizou.

“Centrão” e recados institucionais

Em uma tentativa de distensionar a relação do PT, deteriorada desde o impeachment, com os partidos fora do espectro da esquerda, Lula quer reunir-se com membros do chamado “centrão”. À direta do PT e mais moderado que Bolsonaro, o bloco tem em Rodrigo Maia (DEM) sua principal liderança. Contatado por deputados petistas, o presidente da Câmara já aceitou o convite para se reunir com o ex-presidente.

“Ele é um ex-presidente da República e eu não recusaria o encontro”, afirmou ao portal UOL. Há a especulação, inclusive, de que Maia poderia ser convidado a vice-presidência na chapa de Lula em 2022 – boato por ora sem substância, já que o líder petista segue inelegível por força da lei da Ficha Limpa.

Mas também essa aresta Lula busca aparar, apostando na anulação de seu processo com base na alegada parcialidade do ex-juiz Sergio Moro. Ainda na entrevista ao Nocaute, um recado foi direcionado ao Supremo Tribunal Federal nesse sentido.

“Eu, na verdade, estou solto só porque ainda corre o processo”, disse. “E o grande processo da minha vida é a anulação. Quero é que esse país volte à normalidade, para isso o processo tem que ser anulado e o responsável tem que ser punido”, concluiu.

E ao Congresso Nacional, pediu “grandeza”. “A Constituição não é um papel apócrifo, que você pode jogar fora a qualquer momento. Existe uma elite conservadora que hoje enxerga a Constituição como um atraso para o país. Espero que o Congresso tenha a grandeza de não derrubar a prisão após trânsito em julgado”, disse ao jornalista Fernando Morais. 

Por fim, o ex-presidente quer dialogar também com militares insatisfeitos com o governo Bolsonaro – a pauta das privatizações e o tom atual da política externa, por exemplo, desagradaria parcela expressiva dos generais. E, conforme noticiou a colunista Mônica Bergamo, da Folha, Lula “quer entender também a animosidade de setores das Forças Armadas contra ele e o partido”.

Já a “autocrítica” sempre cobrada por seus adversários, pela mídia e inclusive por parte da esquerda foi rechaçada pelo ex-presidente. Para alguns, Lula incorre em erro e ignora o tamanho do antipetismo.

De fato, embora sua imagem tenha melhorado com a soltura – de acordo com o Atlas Político, sua aprovação subiu de 37% para 44% -, a maioria da população desaprova o presidente: 53%, conforme a pesquisa, que consultou 2 mil internautas, entre os dias 10 e 11 de novembro. Para contornar esses números, Lula faz o que sempre fez: política.

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5 Opiniões

  1. Jayme endebo disse:

    Lula ladrao seu lugar é na prisão

  2. Rogério Freitas disse:

    É momento de unir forças.
    Lideres capazes de se unirem em prol de mudanças que outrora foram iniciadas e, por interesses distintos foram paralisadas, devem pensar um Brasil melhor para TODOS.

  3. Andrew Banana disse:

    Questão Enem..esse tal de Jayme endebo acima:
    _aprendeu essa rima nos grupos do whats app.
    ou
    _é mais um robô do clã Bolsonaro.
    .
    Qual das afirmativas acima melhor representa esse tipo de extremista?

  4. Roberto Eustáquio Neves disse:

    Só um governo realmente socialista trará a dignidade ao povo brasileiro.
    Abaixo o neofascismo.

  5. Almanakut Brasil disse:

    Logo o Inferno virá buscar o que é dele, e o Brasil se livrará para sempre desse belzebu.

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