Início » Brasil » Tem lactose?
TENDÊNCIAS E DEBATES

Tem lactose?

Intolerantes à lactose e gastroenterologistas falam sobre este problema que afeta grande parte da população

Tem lactose?
A presença de lactose, o açúcar do leite de origem animal, é o causador do problema que pode assustar muitos intolerantes de primeira viagem (Foto: Pixabay)

Leite, queijo, iogurte, requeijão. Esses produtos podem ser frequentes na alimentação dos brasileiros, mas muitas pessoas têm problemas quando eles fazem parte da rotina alimentar. A presença de lactose, o açúcar do leite de origem animal, é o causador do problema que pode assustar muitos intolerantes de primeira viagem. A intolerância à lactose acontece quando você tem uma má absorção de lactose associada a uma série de sintomas como dor abdominal, náusea, gases, diarreia e cólicas.

Luciane Baldo

Luciane Baldo com uma de suas receitas sem lactose (Foto: arquivo pessoal)

A moradora de Brasília, Luciane Baldo, de 46 anos, é a fundadora e editora do site Sem Lactose, que traz informações e dicas para quem sofre com a intolerância à lactose. Anos atrás, ela percebeu que tinha algum problema digestivo. Depois de duas endoscopias com resultados normais, ela fez um exame de intolerância. “Eu nunca tinha ouvido falar sobre isso e não acreditava muito em como poderia ter intolerância se bebia leite diariamente.” Com o resultado positivo, Luciane teve que se acostumar com uma nova dieta. “A gastroenterologista fez uma lista do que não poderia comer. Achei muito difícil seguir, porque são alimentos que fazem muita parte da alimentação e sou super fã de doces.” Depois de perceber que não tinha outro caminho, ela começou a pesquisar muito sobre o assunto.

Anos depois, ela foi a uma nutricionista e refez a dieta.  “Isso me ajudou a ter uma alimentação mais equilibrada, o problema virou uma coisa boa.” Luciane pode comer alimentos com lactose desde que seja em pouca quantidade, mas evita ao máximo. “Não foi fácil me adaptar as novas receitas, é difícil mudar qualquer tipo de hábito.”

Flavia2

Flavia Machioni com uma de suas receitas sem lactose (Foto: arquivo pessoal)

Em Curitiba, Flavia Machioni, de 27 anos, tem uma história parecida. Ela passava mal desde criança com problemas de digestão até que há cinco anos um médico pediu o exame de intolerância à lactose e descobriu a origem do problema. Só que o caso de Flavia é mais grave. Mesmo tomando os devidos cuidados com a intolerância, ela voltou a passar mal e descobriu uma alergia tardia à proteína do leite e uma hipersensibilidade ao glúten.

Sobre a mudança da dieta, ela concorda que foi uma mudança e tanto. “Foi super difícil, principalmente porque gostava muito de queijo e doce. Mas minha alimentação melhorou muito. No começo é muito difícil se adaptar, tem que adaptar o paladar.”

Flavia também divide seus aprendizados na internet no blog Lactose não. “Ele é bom para conectar as pessoas que têm os mesmos problemas.”

Explicação de especialista

O gastroenterologista Ricardo Barbuti, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e secretário geral da Federação Brasileira de Gastroenterologia, explica que há três tipos de intolerância à lactose: a primária, a congênita e a secundária.

A primária é geneticamente determinada. A lactase é a enzima que “quebra” a lactose em glicose e galactose. O indivíduo com intolerância primária não consegue produzir a lactase em quantidades adequadas. Logo, quando recebe a lactose, ela não é digerida, o que leva a uma série de sintomas.  O indivíduo com intolerância primária produz um pouco de lactase, mas essa produção vai diminuindo à medida que a pessoa vai envelhecendo. De modo que é muito raro ter intolerância, mesmo que primária, em crianças antes dos cinco anos de idade. Além disso, cada indivíduo com intolerância primária consegue suportar uma determinada quantidade de alimentos com lactose.

Como a intolerância primária é uma doença geneticamente determinada, tem algumas etnias que tem maior prevalência. Chineses, negros e árabes, por exemplo, têm grandes chances de serem intolerantes, o que geralmente não acontece com indivíduos do norte da Europa, onde a intolerância é bastante rara. “No Brasil, se você pegar de uma maneira geral, entre 40 e 50% da população tem intolerância à lactose, é uma porcentagem grande. Isso acontece porque a maioria das pessoas aqui é de origem indígena, com ascendência africana e também do sul da Europa, que também teve uma influência árabe importante do ponto de vista genético”, explica Barbuti.

O gastroenterologista e coordenador do curso de Medicina da Unigranrio, Aderbal Sabrá, explica como isso ocorreu dentro do processo evolutivo. O homem ancestral não tomava leite na idade adulta, ele tomava apenas na amamentação. Com o passar do tempo, o homem teve que ficar dentro das cavernas, por uma série de motivos como grandes incêndios. Só que ele acabava morrendo porque não tinha o que caçar ou pescar. Então, ele percebeu que tinha que usar aquele alimento que estava nutrindo as crias das búfalas, e o homem então experimentou o leite na idade adulta. Várias gerações tiveram diarreia até que apareceu um “mutante” que conseguia tomar o leite sem problemas. Esse “mutante” se distribuiu pelo mundo, são os tolerantes à lactose. Segundo Sabrá, 30% da população adulta do mundo pode tomar leite, os outros 70% não, porque são intolerantes.

Na intolerância congênita, o indivíduo não tem o gene que produz a lactase. Aí a criança já nasce com intolerância grave. Logo, ela não consegue digerir nada de lactose. Essa intolerância é extremamente rara, mas muito intensa. Por isso, o bebê precisa de uma dieta especial, já que não pode receber nem aleitamento materno. Normalmente, a criança pode até morrer por causa disso. Mas hoje em dia, se a criança for diagnosticada logo, ela não vai ter problema.

Já a secundária é uma intolerância temporária. A enzima lactase fica encostada na parede do intestino. Se você tiver alguma doença intestinal que tenha alguma inflamação nesta parede, essa lactase é perdida. Portanto, quando o indivíduo se recupera da inflamação, ele vai recuperar a produção de lactase e vai voltar a ser tolerante, caso não tenha intolerância primária.

Como tratar a intolerância?

O tratamento pode ser feito de várias maneiras. O mais barato é o indivíduo se abster de lactose. Ele pode substituir o leite normal pelo leite sem lactose, além de substituir queijos moles como cottage, ricota e queijo branco por queijos duros, que tem baixa lactose, como provolone, pecorino e parmesão. Além disso, ele vai parar de comer alimentos que tem leite em grande quantidade na sua composição como bolo e sorvete.

Aquele paciente que não consegue ficar sem ingerir produtos com lactose pode usar a enzima lactase, já disponível no mercado brasileiro. Então, toda vez que o indivíduo for ingerir alguma coisa que tenha lactose, ele consome a lactase antes ou durante a alimentação para controlar os sintomas da intolerância.

Outra forma de tratamento é fazer suplementação de lactobacilos que vão funcionar como probióticos, que são micro-organismos que vão trazer benefícios à flora intestinal. Alguns lactobacilos produzem lactase. Portanto, o indivíduo que consome estes lactobacilos tende a ser mais tolerante à lactose. Diferentemente da enzima lactase, quem faz uso dos probióticos tem que tomá-los todos os dias, mesmo que não vá ingerir lactose.

Independentemente da forma de tratamento, Barbuti ressalta a importância de o indivíduo ser acompanhado por um médico e eventualmente por um nutricionista, já que o leite é uma fonte importante de alguns nutrientes como cálcio, vitamina D e B6.

Vida sem lactose

Luciane e Flavia concordam que ainda é difícil comer fora de casa, principalmente em restaurantes, onde os garçons, normalmente, não sabem informar quais são os ingredientes que há em cada prato. As duas preferem a comida feita em casa e acabaram descobrindo uma paixão por culinária. Atualmente, elas dividem uma série de receitas sem lactose em seu site e blog, respectivamente, para a alegria de muitos intolerantes que sofrem com o mesmo problema.

Caro leitor,

Você é intolerante à lactose? Como contornou o problema?

 

4 Opiniões

  1. Daymary disse:

    Minha filha quando tinha 2 anos tinha alergia ao leite de vaca fez um tratamento de um ano e aos poucos foi novamente introducindo o leite de vaca ate ai tudo bem quando ela completou 4 anos e 6 meses ele começo a reclamar que tinhas muitas dores ,cocô bolinhas,assaduras nas pastes intimas,e muita coceiras nas partes intimas eu levei em muitos médicos ate ginecologista nada foi novamente no alergista ai ele me pediu um exame de intolerância a lactose e foi batata ele tem faz um ano agora aqui em casa e tudo 0 lactose.

  2. Erika disse:

    Sou intolerânte a lactose e convivo com ela a poucos dias, as coisas que eu não consigo viver sem como meu café com leite pela manhã tem sido com leite sem lactose, as vezes uso o queijo ou o requeijão também sem lac, mas evito. A vida é normal, optei por sempre comer em casa.

  3. Lori Boness Cunegatto disse:

    Descobri a intolerância à lactose já na idade adulta. Me abstenho da lactose, cuido os ingredientes de TODOS os produtos que vou consumir.É difícil fazer esse controle: falta informação nos rótulos dos produtos industrializados, nos medicamentos, e nos produtos alimentícios que são pesados na hora, as informações são deficientes. Nas refeições fora de casa evito tudo o que poderia, até remotamente, conter lactose, mesmo assim uso a lactase (Lactaid) como garantia para não passar mal depois. Na dúvida, não consumo.

  4. Paola disse:

    Ola,

    Excelente texto!
    Descobri ser intolerante a pouco tempo, e vou confessar, é muito difícil fazer uma dieta….principalmente para uma mineira que comia queijo todos os dias…estou bem lentamente tentando me adaptar,mas é complicado… sei que existem produtos especiais no mercado, os que encontro já faço uso, mas por morar no interior, nem sempre acho :( Na verdade, só encontro o leite e iogurte.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *