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TESE INFUNDADA

Todas as armas do Carandiru

Policiais envolvidos no massacre afirmam que foram recebidos a tiros pelos detentos. Porém, nunca apareceram laudos médicos que confirmem essa versão

Todas as armas do Carandiru
Nunca houve comprovação de que algum dos PMs que participaram da invasão havia sido atingido por disparos (Foto: ABr)

Na última terça-feira, 11 de abril, a 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) determinou a realização de um novo julgamento dos 74 policiais militares acusados de participação no cruento episódio do dia 2 de outubro de 1992 que ficou conhecido como o massacre do Carandiru, quando 111 detentos foram mortos durante uma operação policial levada a cabo para pôr fim a uma rebelião no pavilhão 9 daquele que era então o maior presídio da América Latina.

A determinação do novo julgamento acontece sete meses após a anulação, pelo mesmo TJ-SP, das sentenças condenatórias dos 74 policiais com base no entendimento de que “não houve massacre; houve legítima defesa”, entendimento este manifestado no controverso voto do relator do processo de apelação, desembargador Ivan Sartori. À época do massacre, o Ministério Público de São Paulo concluiu que os 13 revólveres encontrados com os presos foram na verdade plantados pela polícia. Sartori, porém, acatando a tese da defesa (a defesa jurídica, legítima sem sombra de dúvida), avaliou que “é preciso examinar com toda cautela a assertiva acusatória de que as armas apreendidas foram ‘plantadas’”.

Ivan Sartori chegou mesmo a propor a absolvição dos 74 policiais, destacando que vários depoimentos constantes no processo indicam que eles foram, sim, recebidos a tiros quando entraram no Carandiru. Seus colegas, porém, optaram apenas pela anulação das sentenças anteriores, decisão que agora é complementada pela determinação de um novo julgamento.

Os depoimentos citados por Sartori são dos próprios acusados, os PMs, mas são eles o principal motivo da reviravolta no caso do Carandiru protagonizada pelo TJ-SP. Um dos mais conhecidos desses depoimentos foi dado em 2013, por Valter Alves Mendonça, que à época do massacre era capitão do 1º Batalhão de Choque da Polícia Militar de São Paulo, a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar). Ele disse ao júri reunido no Fórum Criminal da Barra Funda no dia 31 de julho daquele ano que, quando entrou no pavilhão 9 do presídio, viu clarões de disparos e sentiu o impacto de balas em seu escudo. No depoimento, primeiro disse não ter disparado “mais do que três tiros”. Depois, declarou ter dado cinco.

Mais de 20 anos antes, e uma semana depois do massacre do Carandiru, a Polícia Militar de São Paulo reuniu a imprensa para mostrar nove policiais feridos durante a ação, escolhidos de uma lista onde constavam ao todo os nomes de 22 PMs que teriam sofrido lesões decorrentes de ataques com armas brancas ou armas de fogos. Um desses PMs era o capitão V.A.M. (na época, os policiais pediram à imprensa para não serem identificados), que na lista aparecia como exemplo de agente “ferido à bala” no Carandiru, mas que à imprensa exibiu apenas três cortes cicatrizados no braço direito, conforme relatou o repórter George Alonso na edição da Folha de S.Paulo do dia 10 de outubro de 1992.

O comando da PM atribuiu o “erro” ao “calor das emoções”. Quando apresentou os seus feridos, entretanto, não mostrou laudos médicos, nem tampouco as balas que teriam atingido os policiais. Nunca houve comprovação técnica de que algum dos PMs que participaram da invasão do Carandiru havia sido atingido por disparos.

Naquela feita, V.A.M. disse à Folha que tinha dado não três, nem cinco, mas exatamente seis tiros no Pavilhão 9, acertando precisamente meia dúzia de presos. “Só atirei seis vezes porque não queria gastar minha munição e depois ser atingido”, contou o capitão, ainda no calor das emoções, poucos dias após sua atuação cirúrgica no breu do Carandiru, no seio das trevas do sistema prisional brasileiro, mais de duas décadas antes do dia em que uma polícia militar do Brasil usou óculos de visão térmica pela primeira vez. Em seu depoimento de 2013 sobre o que aconteceu naquele 2 de outubro de 1992, disse ainda ao tribunal que ele próprio recolheu duas armas que estavam em poder dos presos, e disse mais: “Trabalhar na Rota é diferente. Vou dizer até que é um sacerdócio”.

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3 Opiniões

  1. laercio disse:

    Penso que sentença de morte é consumada quando o marginal aponta uma pistola na cabeça do seu filho é atira…

    Quando isso acontecer vocês saberão o que é pena de morte.

    Nas ruas não tem um juiz, o marginal de para, humilha sua família e te mata.

    A polícia militar está fazendo a parte dela, age sempre na legítima defesa de si ou outrem…

  2. Lívia disse:

    Inacreditável que 25 anos depois os responsáveis não tenham sido responsabilizados judicialmente. O pior é que esse tipo de comportamento da PM tem apoio de grande parte da sociedade. A cada caso de impunidade, sentem-se mais livres para continuar agindo da mesma forma, para executarem sentenças de morte não proferidas (e proibidas no Brasil!).

  3. laercio disse:

    A condenação foi dada pela justiça!
    As acomodações é de responsabilidade do governo.
    O estado tinha que tomar o controle e usou a PM para isso.
    O importante em primeiro lugar é que não houve policiais feridos.
    Penso que deveria haver uma retratação aos PM com pedidos de desculpas e entregas de medalhas por não ter deixado pequenos grupos dominar o presídio fazendo assim vigorar o estado democrático de direito.

    A falta de rigor deixaria a PM enfraquecida impedindo-a de proteger o interesse público.

    Hoje, você vê as facções crescerem exatamente porque a polícia não pode agir.

    Mais presta atenção; você não consegue ficar 24 horas dentro de um carro blindado, uma hora você vai sair e o crime pode te pegar.

    Uma polícia forte para as pessoas de bem; marginais se submetam ou morte.

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