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Trabalho voluntário faz parte da rotina do brasileiro?

Será que o povo conhecido por sua solidariedade ainda tem uma cultura fraca de doação de tempo?

Trabalho voluntário faz parte da rotina do brasileiro?
Será que a cultura do voluntariado está realmente fraca no país? (Foto: Pixabay)

Doar sangue, cuidar de crianças carentes, dar apoio a pacientes com câncer, o que se pode fazer para ajudar o próximo? Segundo o World Giving Index, um ranking mundial que mede a ajuda a desconhecidos, o tempo de voluntariado e o dinheiro doado para caridade, o Brasil caiu várias posições entre 2010 e 2014. Enquanto, em 2010, ele estava no 76° lugar  entre 153 países, em 2014, ele foi para a 90° posição entre 135 países.  Levando em consideração apenas o tempo de voluntariado, o Brasil está atualmente na 78° posição neste ranking feito pela Charities Aid Foundation. Mas será que a cultura do voluntariado está realmente fraca no país?

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Angélica Nasser, supervisora do programa Incavoluntário (Reprodução/Inca)

Para a supervisora do programa Incavoluntário, Angélica Nasser, a cultura do voluntariado está em fase de crescimento no Brasil. “A gente ainda não tem essa cultura do voluntariado tão forte como há lá fora, mas a gente percebe que está crescendo aqui, a gente percebe a solidariedade das pessoas.”

Atualmente, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) conta com a ajuda de 580 voluntários, que trabalham quatro horas por semana.  Todas as segundas-feiras, o programa abre cerca de 20 vagas para voluntários. O interessado se inscreve, participa de uma reunião que explica as diversas áreas da instituição e faz uma entrevista. O voluntário é selecionado de acordo com seu perfil, a sua disponibilidade e a disponibilidade de vagas da instituição.

A supervisora conta que o voluntário pode atuar em diversas áreas. “Ele ajuda a humanizar o ambiente hospitalar e a melhorar a autoestima dos pacientes.” Os voluntários podem atuar no acolhimento, para indicar onde são os setores no hospital e verificar se precisam de cadeiras de rodas, por exemplo, na parte de captação de recursos, entre muitas outras. “Mesmo quem não tem um perfil de estar em contato direto com o paciente pode ajudar. Todas as aéreas são importantes”, diz.

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Voluntários do programa (Reprodução/Inca)

Logo depois de admitidos, eles fazem treinamento em serviço com um supervisor ou com um voluntário mais antigo, até estarem familiarizados com as tarefas e com o funcionamento da instituição. “O retorno dos pacientes é maravilhoso, eles sentem a importância do trabalho voluntário”, conta.  Os voluntários dão todo o suporte para que o ambiente fique menos frio e mais parecido com uma casa. Por conta da baixa imunidade dos pacientes, é preciso fazer o treinamento para saber diversos cuidados como não ir trabalhar gripado, não ir de sandália e lavar sempre as mãos de uma enfermaria para outra. E por esse mesmo motivo, o voluntário trabalha continuamente no Incavoluntário, toda semana, podendo ser de segunda a sexta, na parte da manhã ou da tarde.

As motivaçãos dos voluntários são variadas, desde os que querem agradecer aos que querem simplesmente ajudar o próximo. Por uma questão de disponibilidade, geralmente, os voluntários são mais idosos por já serem aposentados e terem mais tempo para se dedicar ao trabalho.

Viva Rio

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Cibele Dias, coordenadora do voluntariado do Viva Rio (Foto: Paulo Barros)

A coordenadora do voluntariado do Viva Rio, Cibele Dias, diz que a procura dos voluntários pela instituição é muito ativa. “Recebemos aproximadamente quatro cadastros por dia, principalmente, nos finais de semana. Somente entre janeiro e junho deste ano, tivemos mais de 305 cadastros.”

Ela conta que o perfil dos voluntários costuma ser de jovens mulheres, entre 25 e 35 anos, com superior completo ou cursando faculdade. “Atualmente, o perfil mudou muito e está tudo muito dinâmico, então é um trabalho de estímulo constante, pois sabemos que a maioria se voluntaria em momentos de emergência.”

Para ser um voluntário na instituição é preciso se cadastrar no site e comparecer à “Reunião de Acolhida”, que acontece uma vez por mês, na qual os voluntários conhecem os projetos e áreas do Viva Rio, além das causas, campanhas e instituições com demandas de atividade voluntária.

Palavra de voluntária

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A voluntária Lídia Ângela Dí Fabrizio (com a camisa do Salvando Vidas, Gota a Gota) cadastra pessoas para doar sangue durante edição do Bazar Carioquíssima (Foto: Tamiris Barcellos)

A esteticista e professora de Educação Física, Lídia Ângela Nasser Dí Fabrizio, 52, é uma das voluntárias da instituição, ela atua no Viva Rio há mais de dez anos. Desde criança ela já fazia este tipo de trabalho. Quando pequena, ela visitava orfanatos com seus pais, além de costumar ficar com uma criança de um lar batista durante as férias. “Era como um intercâmbio, ela fazia parte da nossa família durante as férias”, explica.

Para ela, o Brasil é um país de muita solidariedade. “O brasileiro, apesar de todos os problemas, todas as dificuldades, ainda é muito humano. O brasileiro tem coração”, diz.

Lídia não sabe dizer o quão gratificante é o trabalho. “Nós quando fazemos trabalho voluntário, nós somos egoístas, porque a gente não faz bem para os outros, a gente faz bem para nós mesmos.” Entre os diversos trabalhos que já fez, Lídia já foi à cracolândia distribuir comida e abraços aos dependentes da droga e foi ao Jacarezinho levar cachorros-quentes para as crianças carentes da comunidade. Aos que querem começar a ajudar, ela dá uma dica: “faça com todo o carinho, e não para aparecer. Se for para fazer trabalho voluntário só para dizer que fez, é melhor não ir, porque amor, a gente não faz propaganda.”

O gerente de produtos da CI – Intercâmbio e Viagem, Eduardo Frigo, diz que a procura por programas de voluntariado no exterior vêm aumentando. “Acredito que o crescimento se dá por diversos fatores, mas, principalmente porque o brasileiro está mais ligado ao que está acontecendo no mundo.”

Apesar de o Brasil ter caído de posição em quatro anos no ranking geral, o posicionamento em relação ao tempo de voluntariado melhorou de 2012 para 2014. Em 2012, o Brasil ocupava o 93° lugar entre 146 países, enquanto em 2014, subiu para o 78° lugar entre 135. O Brasil pode ainda não ter uma cultura tão forte quanto a do exterior quando consideradas todas as formas de ajudar o próximo, mas no quesito voluntariado, o país está melhorando.

 

Caro leitor,

Você já fez trabalho voluntário? Acha que o Brasil ainda precisa melhorar essa cultura de ajudar o próximo? Por quê?

 

 

 

2 Opiniões

  1. Alcebiades Abel Filho disse:

    Sinceramente, eu acho que a solidariedade é fundamental na relação e na convivência social. Porém, cabe uma reflexão e um questionamento: Qual o papel do Estado brasileiro ? Por que de ponta a ponta do território brasileiro o atendimento hospitalar é péssimo ? Não ha verba para a saúde, para a educação, transporte digno e se gasta enorme quantias com obras superfaturadas. Ser solidário sem fazer esse tipo de cobrança é não ter senso de cidadania revindicando do Estado aquilo que temos direito. Confesso que essas campanha de voluntariado as vezes me assusta.

  2. Flávia Ferreira Pita de Freitas disse:

    Ler essa reportagem nos faz acreditar na bondade humana e que nós ainda temos uma chance. Acho que esse é o caminho para um mundo melhor e mais solidário.

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