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MEDICINA DIAGNÓSTICA

‘Tubarões’ do diagnóstico têm de hemograma a R$ 8,00 a ressonância de pantufas

Grupo Dasa realiza mais de 18 milhões de exames por mês, e subindo, com suas múltiplas aquisições abençoadas pelo Cade. O outro cação é o Grupo Fleury

‘Tubarões’ do diagnóstico têm de hemograma a R$ 8,00 a ressonância de pantufas
Os grupos Dasa e Fleury flertam com o monopólio na medicina diagnóstica (Foto: Pinterest)

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Foi no mês de abril de 1981 que Luís Salomão e Paulo Zoppi, então jovens colegas de residência médica em São Paulo, criaram o Instituto de Diagnósticos e Prevenção do Câncer, que começou a funcionar dentro do Laboratório de Análises Clínicas Oswaldo Cruz. A história, a institucional, informa que os dois doutores foram movidos por ideais comuns ao se atirarem de cabeça na empreitada: um laboratório que se pautasse pela alta qualidade, “confiabilidade” e atendimento humanizado.

Além de ideais, os jovens médicos não tardaram em demonstrar competência para os negócios. Apenas cinco meses depois de ser inaugurado, o Instituto de Diagnósticos e Prevenção do Câncer precisou se mudar para uma sede própria, na rua Estados Unidos, bem no meio da região dos Jardins, uma das mais nobres da capital paulista. Três anos mais tarde, a empresa mudaria de nome, reunindo os de seus fundadores, aquele com que, em 1992, alcançaria o posto de maior laboratório de anatomia patológica do Brasil: SalomãoZoppi Patologias Associados Ltda.

Exatos 30 anos depois do pontapé inicial na SalomãoZoppi, a revista Veja publicava, em abril de 2011, uma matéria sobre o maior grupo de medicina diagnóstica da América Latina, verdadeira “máquina bilionária de exames”. Não, não se tratava do laboratório do Luís e do Paulo, mas sim o Caio: Caio Auriemo, outro médico-empresário, que em 1961 fundou o Laboratório Clinico Delboni Auriemo, que mais tarde passaria a se chamar Diagnósticos da América (Dasa), a “máquina” a que se referia a Veja.

Além de lembrar que poucos anos antes Caio Auriemo deixara o comando da empresa que havia criado, por causa de imbróglios com outros acionistas, a reportagem informava que a Dasa “vive de adquirir e transformar laboratórios que sempre foram negócio de médicos”, como um dia fora ela própria e como ainda era, na época, a própria SalomãoZoppi, que a revista tomava como exemplo para o assédio que os gigantes da medicina diagnóstica promoviam, promovem, sobre os menores.

Naquela feita, porém, Paulo Zoppi garantia que ele e seu sócio de longa data não tinham planos de vender a empresa, e que permaneciam firmes os ideais: “somos médicos e não uma empresa financeira. E não nos vemos fazendo outra coisa senão trabalhar com isso”.

‘Somos todos donos’

Pois no início deste ano que se encaminha para o fim, a Dasa anunciou que chegara a um acordo para a compra de 100% da SalomãoZoppi, em um negócio que girou em torno de R$ 600 milhões. Faltaria apenas o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade. O aval, sem restrições, sairia no último mês de agosto, por mais que aos 550 laboratórios do grupo adicionar-se-iam, como diria o outro, mais 11 da agora marca SalomãoZoppi, além de um “plus” de 80 mil exames por mês aos nada menos que 18 milhões que todas as marcas do grupo Dasa já realizavam a cada 30 dias. A autoridade brasileira antitruste observou, justificando sua decisão, que a “operação pode reforçar integração vertical entre os serviços de apoio a outros laboratórios prestados pela Dasa e os serviços de apoio contratados pelo SalomãoZoppi”, mas que, mesmo assim, esses reforços “não terão o condão de prejudicar a concorrência”.

O fechamento da operação de compra do SalomãoZoppi foi uma das muitas aquisições da Dasa em um período recente especialmente ativo desse que é um dos dois grandes tubarões brasileiros do setor de medicina diagnóstica. Uma rápida consulta ao noticiário não propriamente de saúde, mas financeiro, mostra a compra pela Dasa, nos últimos 12 meses, de empresas menores como o Laboratório Oswaldo Cruz e a Biomed Diagnósticos Laboratoriais, ambos de São José dos Campos; o Laboratório Médico Vital Brasil, com sede em Guaratinguetá;  o Laboratório Médico Santa Luzia, Laboratório de Pesquisas Clínicas e Bromatológicas e a Usina de Diagnóstico e Alta Performance, todos de Santa Catarina, onde fica também o Laboratório Ghanem, mais recente aquisição do grupo e que tem mais de 30 unidades no estado.

Em outubro do ano passado, a Dasa comprou a maior rede de laboratórios do Nordeste, a Gilson Cidrim. Poucos meses antes, em junho, o grupo anunciava a aquisição do maranhense Laboratório Gaspar. A companhia controla hoje 31 Marcas, como Sergio Franco, Lâmina e Bronstein, e 13 Laboratórios Centrais, e subindo, graças aos sucessivos e sem restrições avais do Cade. Além de ser a maior empresa de medicina diagnóstica da América Latina, é a maior do mundo em diagnósticos por imagem.

Quando morreu, no início desse ano, o antigo controlador do Grupo Dasa, fundador da Amil, Edson de Godoy Bueno, deixou uma espécie de “problema” para seus herdeiros: o “excesso de bens” atrasaria a contagem da fortuna e o inventário. Dois anos antes de morrer, Edson já havia passado a batuta do grupo ao seu filho Pedro, a quem coube segurar o rojão no esplendor de sua juventude, aos 24 anos de idade. Não obstante as questões acionárias e de herança, a Dasa afiança aos “jovens talentos” que ingressam em seu programa de trainee: “a empresa é nossa. Somos todos donos”.

‘Lençóis da melhor qualidade’

O outro tubarão do ramo de medicina diagnóstica no Brasil é o Grupo Fleury, controlado pela Bradesco Seguros. O grupo é dono de aproximadamente 150 unidades de atendimento nos principais centros econômicos do país, e realiza cerca de 60 milhões de análises clínicas ou exames de imagem por ano, seja em uma das marcas de laboratório que controla, seja nos 17 hospitais parceiros. Em setembro deste ano o grupo anunciou a aquisição de 100% do capital social da Serdil Serviço Especializado em Radiodiagnóstico, tradicional rede de exames de imagem de Porto Alegre.

O Grupo Fleury é líder no chamado “segmento premium de Medicina Diagnóstica”. Também em setembro, o grupo anunciou a chegada ao Brasil do sistema EOS, “um sistema revolucionário na tecnologia de aquisição de imagem”. Trata-se de um sistema de raio X ultrassensível que permite realizar exames ultrarrápidos em “posição ortostática funcional” (com o paciente de pé, em bom português), além de expor o examinado a até 95% menos de radiação. Nas palavras de um radiologista da Fleury, “o procedimento ainda não está incluso no rol de procedimentos aceitos por convênios médicos”, de modo que quem pretender entrar na máquina terá que desembolsar em média R$ 1.500. A revolução na medicina diagnóstica por imagem no Brasil, portanto, e por ora, é “premium”.

O aumento do mercado de luxo no Brasil, de que é parte a crescente demanda por “assistência top em saúde”, e a degringola dos indicadores sociais, de que é reflexo a aposta de “players” da medicina diagnóstica na oferta de exames a preços populares, constituem o próprio retrato desse Brasil em tudo desigual, até nos efeitos da profunda crise econômica que o país atravessa.

O próprio esquema de “segmentação de marcas” da multimarcas Dasa (premium, executive e standard) é o próprio reflexo da própria pirâmide social: no topo, solitária, a marca Alta Excelência Diagnóstica, “voltada exclusivamente para o público AAA”, com imensas facilidades para agendamento de exames, “pantufas e lençóis da melhor qualidade, ambientes aromatizados, pessoas extremamente treinadas e dedicadas”; na base da pirâmide, entre meia dúzia de marcas standard, destaca-se o programa Lavoisier Popular, que é como a Dasa se inseriu no filão dos exames a preços para lá de camaradas, com hemograma completo 10 vezes mais barato do que o preço de mercado, saindo a módicos R$ 8,00. Resta saber se a diferença, em matéria de excelência, resume-se aos “lençóis da melhor qualidade”, para não falar das pantufas, ou do monopólio.

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