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Hebe Camargo

Um ‘selinho’ de despedida nos grandes programas de auditório?

Haverá novos fenômenos de popularidade e empatia capazes de arrebanhar audiências massivas para o modelo 'palco/sofá'?

Um ‘selinho’ de despedida nos grandes programas de auditório?
O beijo de despedida de Silvio Santos em Hebe talvez seja a imagem emblemática do ocaso de um gênero de programa (Reprodução/Internet)

Causou sensações que vão do arrepio à revolta, passando até pela comoção dos mais tolerantes às bizarrices midiáticas, o “selinho” que Silvio Santos deu nos lábios mortos de Hebe Camargo quando seu corpo já descansava no caixão.

Para além da bitoca em si, no futuro o selinho de despedida de Silvio Santos em Hebe talvez seja considerado a imagem emblemática do ocaso de um gênero de programa que, ao lado das telenovelas, foi determinante para que a televisão se tornasse o fenômeno de massa no grau em que se tornou no Brasil — um gênero cujo sucesso e perpetuação dependem muito dos furacões de popularidade e empatia com ares de mito, e estes apresentadores estão cada vez mais difíceis de se achar.

Juntando-se a isso a proliferação das assinaturas de TV a cabo (ou de “gatonet”), com seus mil e um canais com programação para todos os gostos, e a ascensão das pregações via satélite conduzidas por pastores midiáticos que batem recordes de tempo no ar, entre outros fatores concorrentes, os modelos de programas de auditório tais e quais surgiram na década de 1950 na TV brasileira — com Chacrinha, Silvio Santos, Flávio Cavalcanti e a própria Hebe — parecem mesmo fadados ao esfacelamento em variações mais ou menos grotescas do formato, digamos, “palco/sofá”, comandadas por rostos famosos, sim, mas aparentemente incapazes de arrebanhar audiências massivas, como Luciano Huck e Fátima Bernardes, para não falar em Raul Gil, sendo reservado a cada um deles e delas as respectivas migalhas de Ibope.

‘Quem sabe faz ao vivo’

Na verdade, a morte de Hebe Camargo pôs um ponto final a uma longa agonia profissional que talvez diga alguma coisa acerca do futuro dos programas de auditório no Brasil. Em recente artigo publicado no Observatório da Imprensa, o jornalista Thiago Fiorato resumiu em poucas linhas a história de uma prolongada decadência, que culminou com a saída de Hebe do SBT e com sua fracassada passagem pela RedeTV:

“No começo de 2006, uma drástica mudança: seu programa passou a ser exibido gravado, e aos sábados. Não deu certo e, cinco meses depois, a atração já figurava nas segundas novamente, mas desde então gravado. Nada mais ao vivo. Em 2008, com a estreia de Pantanal na faixa das 22h, seu programa passou a entrar depois das 11 horas da noite, fato este que fazia Hebe reclamar de forma corriqueira e em quase toda segunda-feira pedia desculpas ao público por entrar tão tarde e detonava a própria emissora, dizendo ser um ‘desrespeito’”.

Um claro sintoma de que a decadência talvez não fosse só da pessoa, e que talvez seja do “segmento”, foi o fato de que, no dia seguinte à morte de Hebe Camargo, dois dos mais proeminentes animadores de auditório na ativa, Gugu Liberato, da Record, e Eliana, do SBT (“primeira apresentadora a conquistar as tardes de domingo, o dia mais disputado da TV brasileira”, segundo o site do seu empregador), não fizeram homenagens ao vivo à colega em seus respectivos programas dominicais.

Por que? Porque os programas do Gugu e da Eliana exibidos no último domingo, 30, foram gravados com antecedência. Não foram ao vivo, ao contrário do que reza a cartilha do “bom”, com aspas, e velho, sem aspas, programa de auditório.

Caro leitor,

O modelo de programas de auditório brasileiros, cujo sucesso se fundamenta no culto a personalidades como Hebe Camargo e Silvio Santos, está fadado ao desaparecimento?

Se não está, como transformar Fátima Bernardes em uma Hebe Camargo?

Se está, o que deve substituir este modelo tão popular no Brasil?

Qual foi o sentimento predominante que a morte de Hebe lhe causou?

 

 

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1 Opinião

  1. André Luiz D. Queiroz disse:

    ” O modelo de programas de auditório brasileiros, cujo sucesso se fundamenta no culto a personalidades como Hebe Camargo e Silvio Santos, está fadado ao desaparecimento? ”
    Talvez. Não porque o modelo de programa de auditório esteja esgotado, mas porque depende do carisma do apresentador. E personalidades televisivas como Hebe Camargo e Sílvio Santos não surgem toda hora.

    ” Se não está, como transformar Fátima Bernardes em uma Hebe Camargo? ”
    Fátima Bernardes, por mais talentosa que seja, jamais será como Hebe Camargo! E o ‘padrão Globo de qualidade’ não dá margens à espontaneidade que Hebe expressava. Não há espaço para o improviso, para o não controlado… O programa matinal de Fátima Bernardes até pode dar certo, mas nunca será o fenômeno de comunicação que Hebe Camargo foi.

    ” Se está, o que deve substituir este modelo tão popular no Brasil? ”
    Se eu soubesse quais modelos de programa serão o futuro da TV brasileira, eu não diria aqui! Eu ia é trabalhar na Globo, ou na Bandeirante, ou na Rede TV… enfim, em quem me pagasse melhor! 😉 (mas teria sérias restrições pessoais a trabalhar na Record!…;/ )

    ” Qual foi o sentimento predominante que a morte de Hebe lhe causou? ”
    Que, gostasse eu ou não de seu programa, Hebe Camargo era uma pessoa muito autêntica, que procurava oferecer o melhor de si a todos. Por isso foi muito amada por seus muitos amigos, e por seu público fiel, por décadas! Merece nosso respeito e gratidão! Que seu espírito esteja feliz !

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