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OCUPAÇÕES EM SÃO PAULO

Um dia no Edifício Elisa

Prédio é um dos, estima-se, 130 imóveis ocupados por movimentos sem-teto na capital de São Paulo

Um dia no Edifício Elisa
A ocupação está em um dos pontos mais movimentados do bairro de Pinheiros (Foto: Douglas Nascimento/São Paulo Antiga)

Recém-pintado de branco e com bandeiras vermelhas da Frente de Luta por Moradia (FLM) dependuradas nas janelas, o Edifício Elisa tem acesso à rua por um imponente portão de ferro cinzento que ostenta, além do nome do prédio, a figura de um cedro – o que sugere que o imóvel fora erguido por imigrantes libaneses. O prédio é um dos, estima-se, 130 imóveis ocupados por sem-tetos na capital de São Paulo. Lá vivem, desde 2010, aproximadamente 130 pessoas, divididas entre os seis andares que comportam 35 salas e 15 apartamentos.

A ocupação está em um dos pontos mais movimentados do bairro de Pinheiros, na Avenida Teodoro Sampaio com a Avenida Faria Lima, em frente à estação de metrô. Lá concentram-se bancos de crediário facilitado, lojas de eletrodomésticos, vestuário, bijuterias, bugigangas de plástico, além de mercadores de ouro, camelôs, vendedores de capas de celular e distribuidores de anúncios de cartomantes.

Negro, magro, de altura mediana e trajando um inseparável boné, Reinaldo vive hoje dos serviços que presta como pedreiro. Ele é um dos 130 moradores do Edifício Elisa.

Reinaldo faz as vezes de zelador da ocupação para cobrir a ausência do porteiro contratado havia pouco pela FLM. Conhece todos os moradores pelo nome e tem comentários exclusivos para cada um deles. Admite ser muito falante e acrescenta, antes de contar qualquer caso, a expressão “para resumir a história”.

Nasceu na cidade de Brejões, interior da Bahia, em 1951, onde até os 15 anos trabalhou em lavouras de café com o pai, quando os dois se mudaram para o Paraná vislumbrando outras possibilidades agrícolas. Lá, depois de assistir pela primeira vez a um show de uma dupla sertaneja, deu-se conta de que o violão ajustava-se mais a sua personalidade do que a enxada. Depois disso, aprendeu sozinho a tocar o instrumento. “Sempre tive um ouvido ótimo”, gaba-se Reinaldo.

Iniciou a carreira como cantor profissional em rádios e churrascarias, o que está atestado na carteira de filiado ao Sindicato dos Músicos que faz questão de mostrar. Em 1974, mudou-se para São Paulo, onde disputou prêmios de rádio com artistas do quilate de Milionário e José Rico.

Mas as dificuldades da vida de cantor logo o empurraram para a informalidade, e os aluguéis, cada vez mais altos, o fizeram conhecer na última década a Frente de Luta por Moradia, atualmente à frente do Edifício Elisa.

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O interior do Edifício Elisa está em constante reforma: os fios e cabos que conduzem a eletricidade estão à mostra, há vazamentos e goteiras em diversos pontos, com os respectivos baldes para conter a água, paredes são erguidas ou postas abaixo para multiplicar o número de quartos nos andares e paira no ar um forte cheiro de tinta e poeira.

As obras são planejadas e conduzidas pelos próprios moradores, sob as orientações de Maria Arlete Fernandes, líder da ocupação no Edifício Elisa e membro ativo da FLM.

Morena, baixinha e com as sobrancelhas sempre arqueadas, Arlete tem a autoridade reconhecida no prédio e delega tarefas o tempo todo. Conta que já ajudou na recuperação de viciados em drogas, deu guarita a mulheres perseguidas por ex-companheiros violentos e cuidou de doentes, sempre com o apoio da irmã, Sandra, que intermedeia seus contatos e cuida de sua agenda – que inclui encontros com lideranças de outras ocupações e inclusive com políticos conhecidos, como Nabil Bonduki, que até 2016 foi vereador em São Paulo pelo PT.

Maranhense, veio para São Paulo em meados dos anos 1990 para trabalhar como empregada doméstica junto de sua irmã, quando tinha 17 anos, e o caos urbano e os altos aluguéis logo a convenceram a se envolver nos movimentos que reivindicam o direito à moradia. A liderança na ocupação, conta, já resultou em diversas ameaças a sua vida, algumas quase levadas a termo. Numa das vezes, diz, uma ex-moradora, num surto psicótico decorrente do uso de crack, a atacou com uma barra de ferro, fazendo-a perder parte da visão do olho esquerdo.

Outra das ameaças partiu de um antigo posseiro do imóvel, que foi quem primeiro “institucionalizou” a vida no prédio – que, entre 2002 e 2010, de acordo com Arlete, era ocupado por “viciados, prostitutas e moradores de rua”, de quem o homem cobrava aluguel. Segundo Arlete, ele prometeu vingança depois que a FLM, por ela representada, ocupou o edifício e passou a colocar novas regras para organizá-lo. Hoje, diz Arlete, os moradores contribuem com uma taxa de gás e energia elétrica, que ela calcula não ultrapassar os R$ 100.

Abandonado desde meados de 2002 por diversos donos de lojas e apartamentos, o Edifício Elisa tem uma dívida de IPTU com a prefeitura de São Paulo na casa dos milhões de reais. Atualmente, um alto número de supostos herdeiros que ultrapassa o de unidades no prédio reivindica a posse das salas e apartamentos, em uma disputa que se estende há mais de 10 anos.

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A ocupação dirigida por Arlete é alvo de diversas liminares judiciais e, a todo o momento, os moradores se vêm na iminência de serem expulsos. A mais recente das batalhas é com uma incorporadora de imóveis que diz ser dona de salas e apartamentos no edifício. A partir de documentos que comprovariam a compra das salas, o grupo, cujo nome permanece em sigilo judicial, requer que os moradores desocupem o prédio, pedindo o auxílio da polícia para tanto.

Os documentos, acusa Arlete, são falsos. “A ver se a Justiça estará do nosso lado, que não temos dinheiro para contratar os melhores advogados, ou do deles, que é o lado do capital”, diz.

Em meio a isto, vivem no prédio famílias inteiras. Em um quarto, pai, mãe e duas crianças dividem uma única cama; em outro, uma senhora bastante idosa e adoecida assiste ao programa ‘Brasil Urgente’ enquanto tem a filha, que trabalha como diarista, cumprindo as funções de enfermeira. E, no andar mais alto, o 6º, vive Reinaldo, suas duas filhas, uma delas casada, e sua neta, com oito anos de idade.

Todos estão preocupados com o fatídico desfecho judicial, que deve acontecer até o final do ano. O governo prometeu que até lá terá disponibilizado casas para os idosos e crianças. Para os demais, oferecerá bolsa-aluguel de R$ 300.

Os moradores do Edifício Elisa, contudo, não confiam na promessa. A tragédia no prédio no largo do Paissandu, que em 1º de maio despencou após um incêndio, dá subsídios para essa desconfiança. Trinta e sete famílias – 150 pessoas – seguem desabrigadas, a despeito das promessas de Michel Temer de providenciar abrigo para os antigos moradores do prédio.

Com um déficit habitacional que gravita em torno de 358 mil moradias, e contando com aproximadamente 1.358 imóveis ociosos, São Paulo assiste, desde 2013, a um expressivo crescimento das ocupações urbanas, o que tem ampliado a pressão sobre o poder público na busca por soluções para a questão.

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Nas eleições deste ano, o tema deverá ganhar relevância nos debates. Além da exposição midiática que estes movimentos têm atingido, o pleito de 2018 terá entre os candidatos à presidência da República Guilherme Boulos (PSOL), um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) em São Paulo.

Os tucanos, que governaram por mais de 20 anos o estado onde o déficit de moradias é mais evidente, também se movem para apresentar propostas para o setor. Quando era governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, hoje candidato à presidência, lançou um edital para a construção de 4 mil unidades habitacionais próximas ao metrô Belém, no centro expandido da cidade. As obras ainda não tiveram início.

Bem colocada em pesquisas eleitorais, Marina Silva (Rede) reconheceu, em entrevistas, a profundidade do problema, dizendo-se comprometida com uma política habitacional ‘consistente’, caso eleita. Sem entrar em maiores detalhes, ela defendeu moradias sustentáveis em bairros com ‘infraestrutura assegurada’.

Jair Bolsonaro (PSL), por sua vez, não apresentou planos sobre o assunto. Mas, quando da queda do edifício no largo do Paissandu, Eduardo Bolsonaro, filho do presidenciável, antecipou que o clã familiar não vê os movimentos que lutam por moradia como legítimos. Para ele, MTST e FLM, por promoverem ocupações de prédios abandonados, são, na verdade, “movimentos terroristas”.

Já o atual líder nas pesquisas, Lula (PT), caso sua candidatura se efetive – o que parece improvável – deverá ter boa interlocução com os movimentos sem-teto. O petista é próximo a Boulos, a quem ungiu, na vigília em São Bernardo que antecedeu sua prisão, como uma liderança popular promissora para os próximos anos.

O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, vice na chapa de Lula e eventual ‘plano B’ do partido, também é bem visto dentro do movimento, embora relativamente pouco conhecido. Isso porque, além de ter criado, durante seu período na prefeitura, uma comissão para mediar conflitos em ações de despejo, o que na prática reduziu as expulsões, ao menos no Edifício Elisa o discurso eleitoral é um só. Todos os entrevistados pretendem votar “em Lula ou em quem ele indicar”, o que comprova que, ao menos nas ocupações urbanas, o antipetismo é um sentimento que está longe de germinar.

 

Leia também: Brasil sem-teto: o último a dormir apaga a Lua

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2 Opiniões

  1. selma carvalho disse:

    Quem governava o Brasil em 2010, mesmo???? e é o PT que eles querem de volta para resolver o problema que não foi resolvido desde 2010? Parabéns Brasil!!! como diz a brincadeira de criança: – “…o buraco é fundo acabou-se o mundo…” kkkkk

  2. Aureo Ramos de Souza disse:

    Em um país sem lei tudo pode acontecer. São espero que não pegue fogo. Aposto como existe como no outro que incendiou-se alguém cobrando aluguel.

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