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À BEIRA DA FALÊNCIA

Um raio-X do Rio pós-olímpico

Em um cenário oposto à euforia e otimismo pré-olimpíadas, Rio vive hoje uma realidade sombria de tiroteios, desemprego e incerteza

Um raio-X do Rio pós-olímpico
Somente na primeira metade deste ano, o estado registrou 2.976 homicídios (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Há pouco mais de um ano, a cidade do Rio de Janeiro vivia um momento de euforia e otimismo. A cidade se preparava para sediar as Olimpíadas de 2016, sob a promessa do então prefeito Eduardo Paes de transformá-la “no lugar mais seguro do mundo”. A promessa foi cumprida, graças aos 85 mil soldados e policiais destacados para a cidade durante o evento. Paralelo a isso, o aquecimento no setor de construção civil gerado na preparação para os jogos protegeu temporariamente os cariocas da crise de desemprego que já se espalhava no país por conta da recessão.

Apesar de constrangimentos, como a piscina cuja água mudou de cor em meio às provas aquáticas e a gafe de Paes, que em resposta a críticas da delegação australiana referentes a problemas estruturais na Vila Olímpica cogitou dar um canguru de presente para a delegação (e acabou recebendo um de pelúcia da própria), os jogos foram um sucesso.

Hoje o Rio vive uma situação totalmente oposta. Estado e capital atravessam um momento sombrio, com tiroteios em favelas matando dezenas de pessoas e um terço dos adultos entre 18 e 24 anos desempregados.

Somente na primeira metade deste ano, o estado registrou 2.976 homicídios, um aumento de 14% em relação ao mesmo período do ano passado. Mais de 100 policiais já foram mortos este no Rio de Janeiro, que tem uma média de 15 tiroteios por dia na região metropolitana. Alguns especialistas temem que a taxa de homicídio retorne ao patamar da década passada.

Na Rocinha, um racha interno na facção Amigo dos Amigos (ADA) vem tirando a paz dos moradores locais. Preso desde 2011 e atualmente mantido em uma penitenciária de segurança máxima de Porto Velho (RO), Antônio Bonfim Lopes, o chefe do tráfico na Rocinha conhecido como “Nem”, discordou da forma como o sucessor que destacou para ocupar seu lugar, conhecido como Rogério 157, vinha agindo e ordenou sua morte, gerando uma cisão entre os membros da quadrilha, que passaram a se enfrentar pelo controle do tráfico na favela.

Em 22 de setembro, após a violência transbordar para áreas nobres próximas como Gávea e Leblon, o Ministério da Defesa autorizou o envio de 950 homens das Forças Armadas para a Rocinha. Eles restauraram a paz, mas se retiraram após sete dias. Desde então o caos voltou a reinar. Rogério 157 migrou para a facção rival, Comando Vermelho (CV), o que dividiu a Rocinha em dois territórios e ameaça aprofundar ainda mais a violência na favela.

Sofrendo com a falha no combate à violência, agravada pela crise financeira do Rio, a Rocinha é hoje um espelho de uma capital cujo governo estadual está à beira da falência.

Em uma tentativa de conter a violência, em 2008, a gestão do então governador Sérgio Cabral colocou em vigor as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs). Cerca de 9.500 policiais foram destacados para 38 favelas, a maioria deles treinada em policiamento não violento e direitos humanos. O projeto reduziu a circulação de armamentos pesados nas favelas, entre elas a Rocinha. Embora não tenha desmantelado as quadrilhas, a violência na cidade despencou, e em 2015 chegou ao seu nível mais baixo em 25 anos.

Abusos cometidos por agentes, como o sumiço do pedreiro Amarildo de Souza, em 2013, provocaram protestos, afetando a imagem do projeto. Em pouco tempo, a credibilidade que as UPPs construíram desapareceu. Além disso, a segunda fase do programa – que envolvia projetos de saúde, educação e sociais nas favelas pacificadas – falhou. Entre os motivos está a pouca atenção dada ao programa pelos governos estadual e municipal e a chegada da crise econômica ao Rio de Janeiro. Para ter uma ideia, entre 2002 e 2016, o Rio de Janeiro registrou a taxa de crescimento mais baixa dentre os 27 estados do país, segundo apontou à revista Economist o economista Mauro Osório, professor associado da Faculdade Nacional de Direito, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Outro fator que contribui para a decadência do Rio é o colapso no preço do petróleo. A cidade depende da verba proveniente do setor de petróleo, que caiu dois terços de 2013 a 2016. Completando este cenário está a prisão de Cabral, condenado em setembro a 45 anos de prisão pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e chefia de organização criminosa.

Em setembro, o presidente Michel Temer aprovou um novo pacote de resgate financeiro para o Rio, o segundo em dois anos. Em troca da ajuda financeira, o estado se comprometeu a promover cortes profundos nos gastos. O orçamento destinado à segurança pública foi cortado em 30% e o salário de funcionários públicos de vários setores, incluindo policiais, parou de ser pago. A crise atingiu a polícia, levando o governo estadual a ceder mais de 2 mil policiais para outros órgãos e a retirar das ruas 40% das viaturas.

Coroando as agruras cariocas e fluminenses, está a falta de confiança que os líderes estadual e municipal inspiram na população. Eleito no ano passado, o prefeito Marcelo Crivella é um bispo pentecostal que flerta com a carreira musical, tendo gravado várias músicas de estilo gospel. Sua preferida é “Meu Rio”, cuja letra pede a Deus para intervir na cidade. Para críticos, Crivella consulta a Bíblia com mais frequência do que consulta especialistas em segurança pública. Já o governador Luiz Fernando Pezão tem planos mais pragmáticos, como a transferência de metade dos royalties do petróleo, destinados a um fundo ambiental, para área de segurança pública. Porém, problemas de saúde relacionados a um câncer enfrentado pelo governador o mantém afastado do cargo por diversas ocasiões.

A problemática situação do Rio incentiva o governo federal a desempenhar um papel maior no estado. Além do resgate financeiro, está em pauta um plano para retomar as operações das Forças Armadas no estado e o envio de uma força-tarefa para combater o envolvimento de políticos e policiais com o crime organizado.

A população do Rio anseia pela recuperação no preço do petróleo, que resultaria em mais verba para os serviços públicos. Mas tal retomada é incerta, enquanto a paz para os moradores não pode esperar.

Fontes:
The Economist-Rio’s post-Olympic blues

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4 Opiniões

  1. Letícia Marques disse:

    A violência esta sendo tratada com violência e as coisas estão se desenrolando em cima desse pensamento abalando a segurança pública da cidade do Rio de Janeiro, inicia uma série de acontecimentos indesejados que pode acabar levando a falta do bom atendimento nos postos de saúde pela superlotação, e entre outros.
    Com o aumento da taxa de natalidade acaba também de não ter lugares em hospitais e escolas…
    Uma coisa que acontece pode desencadear várias outras que podem desestruturar até mesmo uma cidade!

  2. Daniela Villa disse:

    Apesar do povo que o habita, “O Rio de Janeiro continua lindo…”

  3. Laércio disse:

    Essas políticas de direitos humanos, complacência para com marginais, divulgação de informações falsas para iludir o povo é o desastre do país!

    Vivemos num país que prega grandes ilusões para o povo.
    Aqui se fala em recorde de safra, recorde disso e daquilo… Mas já parou para pensar que para transportar qualquer coisa precisamos dos estrangeiros pois, não temos indústria nacional de veículos…

    De forma semelhante se deu com o Rio de janeiro, bilhões gastos, povo iludido, e agora tem sua primeira colheita na Rocinha, dentre muitas outras que haverão!

    O povo mais uma vez deixou se iludir porque lhes falta uma ética própria.

    Quando não temos uma referência temos a tendência de seguir alguma coisa, no caso do povo é seguir as mídias :(política de gêneros, valorização de marginais, destruição da família…)…e neste mundo cada um tem que fazer sua parte, senão vira escravo!
    O povo tem que romper com a atual cultura do Brasil!
    Morrer seria muito bom mas o povo é humilhando vivo!
    Humilhação e privação dos seus próximos, todos os dias… Porque és escravo da cultura; a postura de cada pessoa tem que mudar, a soma das mudanças de postura formam uma ética…
    Quando existe uma ética então há algo a seguir!
    Neste momento se começa a romper com a escravidão.
    Vamos ver menos novelas…
    Vamos nos acostumar com novos paladares que são ruins mais caem como remédio para o organismo…
    Não vamos dar atenção aos “especialistas e mídias tendenciosas”…
    Ter menos filhos!

    Mude seu comportamento hoje para não ser mais um escravo do governo, da mídia, de empresários…etc

  4. Laércio disse:

    Todos deixaram de fazer sua parte!
    População teve filho de forma não planejada privando-os principalmente de educação, o Estado também não fez sua parte.
    A constituição é feita de forma que os melhores qualificados tem proveito dela, não há uma constituição uniforme mas sim compra através do melhor profissional, afinal tudo se julga…

    O Estado e o povo não fizeram sua parte…
    Se soma a isto os políticos que trabalham em causa própria bem como as escolas que não conseguem instruir principiante devido a perca de força que professores podem a cada ano…
    A maior parte da mídias e empresários não entende que o país é uma nação, trabalham assiduamente para si enquanto a “outra parte do barco vai ficando mais frágil”…
    Percebemos que todos, de alguma forma, deixaram de fazer sua parte, e, não importa de quem é a culpa mas sim que a nação perde com isso.

    A única instituição que faz sua parte, e tem que limpar a sujeira das outras partes que deixaram de fazer, são as polícias! Pense: a federal mostrando o cometa de corrupção que é o Brasil; a militar detendo marginais, pegando os problemas como se pega touro a unha…
    Mesmo assim a maioria se volta contra ela!
    Agora literalmente estão colhendo o que plantaram, ironicamente iniciando na Rocinha…

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