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‘Uma mulher transparente’, de Edgard Telles Ribeiro

Uma trama densa permeada pela violência das paixões humanas e da repressão do regime militar

‘Uma mulher transparente’, de Edgard Telles Ribeiro
Trama vigorosa que prende o leitor em um engenhoso jogo de memória (Foto: Editora Todavia)

Após passagem pelas editoras Companhia das Letras, Record e 34 Editora, Edgard Telles Ribeiro publicou seu mais novo romance, Uma mulher transparente, pela editora Todavia, que estreou na Flip em 2017 com o livro de Paul Beatty, O vendido, vencedor do Man Booker Prize no ano anterior.

Neste livro, com uma leitura tensa e carregada de mistério, Edgard Telles Ribeiro mais uma vez mostrou o talento que o consagrou como um dos maiores autores do cenário literário contemporâneo.

Narrado por um protagonista sem nome, a história se passa em três momentos distintos. O relato começa em 1962, ano em que o jovem narrador e aspirante a escritor trabalhava na redação de uma enciclopédia sob a coordenação de Herculano, um conhecido ensaísta, editor e tradutor.

Certa tarde, ele surpreendeu-se ao ver no paletó entreaberto de Herculano, um revólver em sua cintura. No final do dia, ouviram-se tiros. O narrador debruçou-se na janela e viu uma mulher de vestido vermelho estendida na calçada. Logo em seguida, Herculano, Guilherme, o principal colaborador da enciclopédia, e ele desceram as escadas para examinar o que havia acontecido.

Um homem agachado ao lado do corpo disse que a mulher estava morta. Ninguém na rua havia visto nada. O assassino desaparecera. Nada havia sido roubado. Um crime passional, talvez.

Mais tarde, reunidos em um bar, o jovem protagonista percebeu que associara, por um motivo obscuro, o cadáver ao revólver que vira momentos antes na cintura de Herculano. De volta ao escritório, Herculano disse algumas frases em tom de crítica sobre sua mulher, Maria do Rosário, que morrera em circunstâncias trágicas três anos antes.

Em 1982, Guilherme e o protagonista encontraram-se no velório de Herculano. Depois, sentados em um restaurante lembraram a cena do assassinato da mulher de vestido vermelho, um crime nunca descoberto.

Em meio ao almoço, a antiga associação do revólver de Herculano ao crime surgiu à mente do narrador. Então, contou a Guilherme que vira a arma na cintura de Herculano naquele dia. Guilherme interrompeu-o com um tom de voz ríspido e demonstrou incredulidade diante do que ele dissera.

Mas o narrador insistiu em associar o revólver à morte de Maria do Rosário, apesar de Guilherme afirmar que ela havia morrido afogada durante uma viagem de veleiro a Paraty. Porém, sem se deixar intimidar, ele responsabilizou Herculano pela morte da mulher e contou histórias mirabolantes sobre sua queda no mar empurrada pelo marido em uma crise de ciúme, e da farsa de Herculano ao tentar salvá-la.

Embora cético, Guilherme o incentivou a escrever um romance inspirado nos artigos de jornais e nos documentos oficiais da época, que descreveram em detalhes a morte de Maria do Rosário, desde que ele fosse o primeiro a ler o manuscrito.

Nesse ponto, entra em cena Gilda, mulher de Guilherme, retratada no manuscrito como uma amiga íntima de Maria do Rosário. Mas a leitura do texto a fez lembrar sua militância política durante o regime militar e a tortura brutal a que foi submetida nos meses em que os militares a prenderam em 1969, um segredo que ela compartilhou com o protagonista. Uma tortura que, em suas palavras, a mergulhou em um delírio que um dia a mataria.

Três histórias de mulheres que se entrelaçam. Duas mortes misteriosas e um acerto de contas com o passado. Uma trama vigorosa que prende o leitor em um engenhoso jogo de memória, mentira e esquecimento.

Jornalista, cineasta e professor de cinema, Edgard Telles Ribeiro é autor de 11 livros, entre eles Olho de rei, Histórias mirabolantes de amores clandestinos, O punho e a renda e Damas da noite.

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