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Aniversário da morte do ex-presidente

Uma visão sobre o mito Vargas

Qualquer pessoa que exercesse a Presidência por 20 anos, a maior parte dos quais com poderes absolutos, se tornaria necessariamente uma figura complexa

Uma visão sobre o mito Vargas
Segundo autor, suicídio era a única alternativa para Vargas (Reprodução/Internet)

Os autores que nutrem certa simpatia pela figura de Getúlio Vargas, mas são honestos intelectualmente, sempre se socorrem da personalidade complexa do ex-ditador para justificar seus maiores erros. Esquecem-se de que qualquer pessoa que exercesse a Presidência por 20 anos, a maior parte dos quais com poderes absolutos, se tornaria necessariamente uma figura complexa. Num longo período como esse também não é difícil identificar fatos positivos (muitas vezes sem relação nenhuma com qualquer ação governamental) para render as devidas homenagens ao chefe.

Este é o caso da obra Pai dos Pobres? O Brasil e a era Vargas, do historiador norte-americano Robert M. Levine. Ele fez uma longa pesquisa em arquivos brasileiros e norte-americanos na década de 60, publicando originalmente esse trabalho pela Comumbia University Press, em 1970. Na década seguinte, o autor expandiu a pesquisa e finalmente publicou a versão revista em português no ano de 2001.

A simpatia que o autor demonstra ao analisar Vargas e seus períodos na Presidência – à qual chegou por, praticamente, todos os meios – por revolução (1930), eleição indireta (1934), golpe de Estado (1937) e eleição direta (1950) – não o impede de um certo espírito crítico, especialmente quanto às práticas políticas. O Professor Levine (Universidade de Miami) desenha, no entanto, um retrato muito mais favorável ao ex-ditador no que diz respeito à sua agenda econômica. É certo que ele narra os incontáveis fracassos econômicos, especialmente o do populismo do segundo mandato. Mas há sempre uma justificativa à mão para isentar o intervencionismo fascista dos anos 30/40, ou keynesiano dos anos 50. Talvez porque o autor não seja economista e não saiba que não existe registro de nenhuma política econômica intervencionista bem sucedida. Mas excluindo a frágil argumentação para explicar aspectos supostamente beneméritos das políticas de Vargas, que lhe concede o duvidoso título de pai dos pobres, a obra representa uma pesquisa meritória e deve ser lida por quem se interesse pelo período Vargas.

O maior reparo que pode ser feito diz respeito à questão do suicídio, tratado como um mistério. Mais uma vez a personalidade complexa, introvertida e enigmática do ex-ditador é invocada. Ora, nas três semanas que antecederam o suicídio, Vargas se viu às voltas com uma oposição implacável nas denúncias de corrupção. A inflação também já despontava como um sério mal econômico e seu círculo íntimo viu-se inequivocamente envolvido na tentativa de assassinar Carlos Lacerda. Caso não tivesse se suicidado, o ex-ditador teria sido derrubado e, provavelmente, levado a julgamento, como aconteceu com o ex-presidente Collor e sua entourage. O gesto suicida foi a única alternativa para Vargas garantir um lugar ao sol na História brasileira do século XX. Não há nisso nenhum mistério.

LEVINE, Robert M. Pai dos Pobres? O Brasil e a Era Vargas. Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 2001, 278 páginas.

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11 Opiniões

  1. Dorival Silva disse:

    Getúlio foi um ditador terrível.

  2. Dorival Silva disse:

    Getúlio foi um ditador terrível.

  3. Marcelo de Matos disse:

    Não se pode rever a História sob a ótica ideológica ou com idéias preconcebidas. Por essa razão, não posso concordar com a afirmativa: “O gesto suicida foi a única alternativa para Vargas garantir um lugar ao sol na História brasileira do século XX”. A revolução de 1930, promovida por Vargas, derrocou as estruturas da Velha República, pôs fim à política de cartas marcadas da oligarquia cafeeira e modernizou o país. A criação das companhias Siderúrgica Nacional, da Vale do Rio Doce, da Petrobrás, mostram o nascimento do Brasil industrial, do Brasil real e provam que Vargas não é um mito, mas uma palpável realidade. Mesmo que Vargas não se tivesse suicidado e fosse levado a julgamento, como Collor, deixaria de ocupar seu lugar em nossa História, como, de resto, Collor o ocupa como iniciador do atual período de desenvolvimento, estabilidade e abertura comercial da economia brasileira.

  4. Marcelo de Matos disse:

    Não se pode rever a História sob a ótica ideológica ou com idéias preconcebidas. Por essa razão, não posso concordar com a afirmativa: “O gesto suicida foi a única alternativa para Vargas garantir um lugar ao sol na História brasileira do século XX”. A revolução de 1930, promovida por Vargas, derrocou as estruturas da Velha República, pôs fim à política de cartas marcadas da oligarquia cafeeira e modernizou o país. A criação das companhias Siderúrgica Nacional, da Vale do Rio Doce, da Petrobrás, mostram o nascimento do Brasil industrial, do Brasil real e provam que Vargas não é um mito, mas uma palpável realidade. Mesmo que Vargas não se tivesse suicidado e fosse levado a julgamento, como Collor, deixaria de ocupar seu lugar em nossa História, como, de resto, Collor o ocupa como iniciador do atual período de desenvolvimento, estabilidade e abertura comercial da economia brasileira.

  5. Bruno disse:

    Acho que ditadores são esses políticos podres de hoje, que acabam com o nosso país.
    Getúlio tinha um sentimento nacionalista, preocupação com a questão social dos trabalhadores e interesse em defender nossas riquezas nacionais.
    Acho que se existisse mais homens como Getulio, o país não estaria essa porcaria que está.
    Infelizmente não se fazem mais políticos como Getulio.
    Esse sim!!! Homem nacionalista, ao contrário desses entreguistas, interesseiros, porcos capitalistas que estão hoje na política.

  6. Evandro Correia disse:

    Getulio foi um ditador sanguinário, matava e torturava. É uma ironia as pessoas que criticam o governo militar de 1964-85 admirarem Vargas. São farinha do mesmo saco. Usaram os mesmos métodos (tortura, cassação de direitos políticos) e até as mesmas pessoas (Filinto Muller entre outros).

  7. helo disse:

    Getúlio foi um ditador populista do passado. Os populistas do presente introduziram a corrupção como o seu mais forte traço. No mais seguem o modelo equivocado e reforçado por Vargas de manter a expectativa da população de um pai poderoso e autoritário. Grave é quando estes super pais gastam irresponsávelmente muito e se despreocupam das contas a pagar.

  8. Jayme Mello disse:

    A SANTA SABEDORIA POPULAR, MAS QUEM ENTENDE?

    O adágio popular afirma que: “Basta morrer para virar um santo venerado”.

    Entretanto, é infindável a lista dos obituários e ainda assim, poucos, mas muito poucas personalidades políticas, têm sido privilegiadas com a REVERÊNCIA popular.

    Inclusive, há várias personalidades que mesmo ainda, VIVAS, mas, todavia, a tal sabedoria popular, que é muito mais sábia que toda nossa vã filosofia, faz questão de ignora-las.

    Muito embora elas continuem perambulando nas idas e vindas “politiqueiras”, dando seus pitacos nem mundo que não lhes pertencem mais.

  9. WILSON SEVERIANO DA SILVA disse:

    O título de VARGAS “Pai dos pobres” foi em razão da Legislação Trabalhista criada em seu governo, um marco de equilíbrio na relação entre empregadores e empregados, época em que lares de ricos e pobres tinham seu retrato na parede da sala. Ele transformou o Brasil, um simples estado pós colonial, no qual os Presidentes eram escolhidos por herdeiros da colonia em jogo de “cartas marcadas”, em uma nação de fato. Vejamos alguns exemplos: CSN-Companhia Siderúrgica Nacional criada em 09/04/1941; CVRD-Companhia Vale do Rio Doce criada em junho de 1942; FNM-Fábrica Nacional de Motores criada em 13/06/1942 (posteriormente destruida para atender a interesses de indústrias aeroviárias e automotivas de outros paises) PETROBRAS-Petroleo Brasileiro S/A criada em 03/10/1953. Em 2014, ao completar 60 anos de sua morte vamos comentar sobre esse homem que amava nosso país muito acima de interesses político partidários.

  10. Mauricio Fernandez disse:

    Getúlio foi um ditador e ponto.

  11. Luiz disse:

    Aceito um ditador, desde que coloque o Brasil um super país, temos que encontrar um presidente ou um ditador nacionalista ferrenho que coloque o País na frente de tudo e de todos. Primeiro os interesses do país e do povo, depois vem o resto. Na minha maneira de pensar, todo o brasileiro que não é nacionalista merece o paredão, incluindo estes políticos corruptos. Se em 64 os militares tivessem fuzilado estes terroristas de m….., hoje não estaríamos do jeito que estamos. Porque os irmãos Castro estão até hoje no poder, fuzilaram 150000 pessoas que poderiam tomar o poder deles, se o PT ficar e conseguirem implantar o regime comunista ou o socialista, acontecerá o mesmo. Me digam, qual o país comunista ou socialista que deu certo, até a China está ficando capitalista. Quem não gosta de dinheiro? Conforme a revista Forbes o Lula está milionário, 2 bilhões de reais, fora seu filho querido, o Lulinha. Verifiquem todos na cúpula do governo, todos ricaços e se dizem socialistas. Vamos deixar de ser hipócritas.

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