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BANALIZAÇÃO DE TRAGÉDIAS

Vai um desastre para aliviar a tensão?

Algumas iniciativas que têm como mote grandes tragédias não são exatamente voltadas para a informação histórica ou a reflexão

Vai um desastre para aliviar a tensão?
Escorrega de 10m está no Santana Parque Shopping, em São Paulo (Foto: Divulgação)

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Desde o último dia 10 de janeiro, quem vai passear, fazer compras ou comer uma coisinha no Santana Parque Shopping, na Zona Leste da cidade de São Paulo, pode, caso as tenha consigo, deixar a criançada se divertir por alguns minutos, e por R$ 20,00, em uma superpiscina de bolinhas de 345 metros quadrados. Mas não só elas: o shopping informa que adultos também podem entrar na diversão. Se entrarem para acompanhar bebês com menos de dois anos de idade, sequer pagam ingresso.

Ao contrário das maiores, ou menores, piscinas de bolinhas instaladas em centenas de shopping centers pelo Brasil e mundo afora, essa do shopping de Santana só tem bolinhas azuis, de um lindo azul escuro, porque suas 464 mil unidades reunidas no primeiro piso do espaço simulam não propriamente uma piscina, mas sim as águas geladas do Atlântico Norte, mais precisamente o mar da noite de 14 para 15 de abril de 1912, data do naufrágio do RMS Titanic, tragédia em que mais de 1.500 pessoas perderam a vida.

Morreram, a maioria delas, ou afogadas ou por hipotermia, ao caírem ou se lançarem ao mar azul e congelante. É essa última “experiência” que o brinquedo, cujo nome é justamente “Mar de Bolinhas”, tenta reproduzir, já que é possível escorregar para as centenas de milhares de bolinhas do alto de um barco inflável de 10 metros de altura.

Ou melhor: metade dele. O brinquedo reproduz a famosa imagem do Titanic inclinado, com toda a proa submersa e a popa suspensa sobre a água, tendo o convés do navio se transformado, na vida real, em um imenso e macabro escorregador onde muitas pessoas deslizaram para a morte; transformado agora, na muito lúdica atração do Santana Parque Shopping. “Diversão para toda a família” em um tobogã cheio de diferenciais para o deleite das férias de janeiro.

Não é a primeira vez, e nem será a última, em que assistimos à utilização de grandes tragédias como mote de iniciativas, empreendimentos cuja tônica não é propriamente a informação histórica, um qualquer esforço de conscientização, de reflexão sobre a empáfia humana ante a natureza, sobre segurança, prevenção, imprudência, ou quaisquer outros temas que podem ser levantados a partir do debruce sobre qualquer catástrofe, inclusive a fatalidade.

Um exemplo, para não fugir aos mais lúdicos: já faz dez anos que a designer Marla Anyomi, do site Spitefuls.com, lançou sua série “Disaster Dioramas”, de brinquedos de papel com cenas de conhecidos desastres da história da humanidade. Um deles retrata o acidente com o dirigível Hindenburg, o maior e mais moderno dirigível de sua época, mas que pegou fogo em 1937 nas proximidades de Nova York, em episódio que resultou na morte de 35 pessoas.

Outro modelo para armar da coleção é o da malfadada viagem da Apollo 13. O brinquedo tem labaredas de papel saindo do módulo de serviço da nave quando já recortada e dobrada. Nesse caso, o drama causado por uma explosão a quase 300 mil quilômetros da Terra teve um final feliz, com Jim Lovell, John Swigert e Fred Haise pousando sãos e salvos no Oceano Pacífico no dia 17 de abril 1970, a bordo do módulo Aquarius. Já o design bolado por Marla Anyomi para recortar, montar e brincar com o desastre do Titanic reproduz exatamente a mesma cena do “Mar de Bolinhas” do shopping de Santana: o navio inclinado no meio do mar, em seu ângulo famoso, mas mortal, com o “plus” de um desenho de um iceberg ao fundo.

A série “Disaster Dioramas” conta ainda com outros cinco brinquedos, inclusive um do grande incêndio de 1871 em Chicago, que causou a morte de trezentas pessoas e deixou outras 95 mil desabrigadas. Não é propriamente caça-níquel, coisa de shopping, porque o download é free. Mas também é “diversão para toda a família”, tendo em vista que, entre seus usos, o site Spitefuls.com recomenda que sirvam de resto para “aliviar o tédio do trabalho através de uma atividade divertida usando material de escritório comum”.  Perfeito, diz o site, para a sua mesa, para atrair olhares curiosos dos colegas: “e quem não quer receber olhares curiosos dos colegas de trabalho?”.

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