Início » Brasil » Verdão-oliva: políticos ‘gostam’ de futebol; militares, adoram
TÁTICA BEM CONCEBIDA

Verdão-oliva: políticos ‘gostam’ de futebol; militares, adoram

A figura do presidente-torcedor voltou com força ao Brasil no último domingo, 2, com a apoteose de Bolsonaro no Allianz Parque

Verdão-oliva: políticos ‘gostam’ de futebol; militares, adoram
Bolsonaro assistiu de camarote ao jogo das faixas do décimo título brasileiro do Verdão (Foto: Instagram/felipemelo)

Há três anos, em 2015, quando desembarcou no aeroporto da cidade de Guangzhou, na China, após aceitar convite para treinar o time local, Luiz Felipe Scolari foi recebido com uma faixa que dizia: “Bem-vindo, general”. Passou o tempo, e dizia há uma semana o hoje técnico do Palmeiras, Felipão, após vitória do seu time sobre o Vasco da Gama: “Cumprindo ordens a gente trilha caminhos muito bons. Espero que nosso Brasil também cumpra ordens sob nossa nova presidência”. O Palmeiras conquistava com aquela vitória o título do Brasileirão 2018.

No último domingo, 2 de dezembro, Jair Bolsonaro assistiu de camarote, no Allianz Parque, ao jogo das faixas do décimo título brasileiro do Verdão, a convite do presidente do clube, Mauricio Galiotte. Do camarote, fez para as arquibancadas sua conhecida imitação de pistolas com as mãos. Após o jogo, foi com elas, as mesmas mãos, que entregou medalhas aos jogadores do time, a Felipão, e o troféu da CBF ao jogador Bruno Henrique, de capitão para capitão.

Políticos, em geral, “gostam” de futebol, esporte mais popular do planeta. Militares que se aventuram na política, adoram. O “generalíssimo” Francisco Franco, presidente do governo da Espanha, entre 1938 e 1973, que o diga. Durante a Espanha franquista, o Real Madri levantou 14 troféus, incluindo cinco títulos europeus consecutivos. O clube foi uma espécie de “embaixada ambulante” do regime de Franco pelo mundo. Em 1959, uma figura importante do regime, José Solís Ruiz, dirigiu-se assim ao plantel merengue, grato: “Porque gente que antes nos odiava, agora nos compreende graças a vocês”.

Franco entrega a taça da Copa dos Campeões da Europa de 1957 ao capitão do Real Madri na época (Foto: Miguel Muñoz)

Franco entrega a taça da Copa dos Campeões da Europa de 1957 ao capitão do Real Madri na época (Foto: Miguel Muñoz)

O general Emílio Garrastazu Médici entregou a taça da Copa do Mundo de 1970 ao “capita” Carlos Alberto Torres. Durante a Copa de 1970, numa ação conjunta, a Ação Libertadora Nacional (ALN) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) sequestraram o então embaixador da Alemanha no Brasil, Ehrenfried von Holleben. No dia 13 de junho daquele ano, a Agência Nacional de Notícias divulgou, por rádio, editorial dizendo o seguinte: “No exato momento em que o Brasil se coloca em destaque na imprensa mundial, graças à habilidade de seus atletas, mais uma vez os terroristas atacam, no instante em que no México um punhado de brasileiros mostra o que somos como povo e o que podemos fazer”.

O sequestro durou quatro dias, ao fim dos quais o embaixador alemão foi trocado por 40 presos políticos da Ditadura.

O ‘capitão do tri’, Carlos Alberto Torres, e o Emílio Garrastazu Médici seguram juntos a taça Jules Rimet (Foto: Política FC)

O ‘capitão do tri’, Carlos Alberto Torres, e o Emílio Garrastazu Médici seguram juntos a taça Jules Rimet (Foto: Política FC)

‘Tática bem concebida’

Em campo, no campo do Palmeiras neste domingo, disse Bolsonaro: “Dizem que na Democracia o rodízio é bem-vindo. No futebol, só na churrascaria”. Leila Pereira, presidente da patrocinadora do Palmeiras, a Crefisa, saudou-o: “Foi uma honra colocar nossa faixa de decacampeão em nosso presidente Jair Bolsonaro”. No Twitter, Bolsonaro saudou o Palmeiras: “O futebol é muito mais que torcer para um time, é um estado de espírito totalmente identificado com o brasileiro”.

“Como todo brasileiro autêntico, o general Médici manifesta sua preferência pelo futebol, esporte que discute com o sabor e a propriedade de velho conhecedor, observador atento da tática bem concebida e dos lances de boa categoria técnica”, dizia mensagem aos brasileiros divulgada em janeiro de 1970, pela Assessoria de Relações Públicas da Presidência (AERP), sobre o terceiro presidente do rodízio do regime militar. Dizia também a mensagem da AERP que o general Médici, então recém-empossado, era um “homem simples”, com natural preferência por um “bom churrasco gaúcho”.

Em 1970, uma nota da Assessoria de Relações Públicas da Presidência (AERP) dizia do presidente-torcedor Emílio Garrastazu Médici: ‘Entre suas paixões, dividem-se o Guarani, de Bagé; o Grêmio, de Porto Alegre; e o Flamengo, do Rio de Janeiro’ (Foto: Reproduções/Twitter).

Em 1970, uma nota da Assessoria de Relações Públicas da Presidência (AERP) dizia do presidente-torcedor Emílio Garrastazu Médici: ‘Entre suas paixões, dividem-se o Guarani, de Bagé; o Grêmio, de Porto Alegre; e o Flamengo, do Rio de Janeiro’ (Foto: Reproduções/Twitter).

‘O torcedor é muitos’

Perguntada sobre a presença no jogo das faixas do presidente-torcedor que vai tomar posse em janeiro, a Mancha Verde, maior torcida organizada do Palmeiras, respondeu assim: “Não nos diz respeito”. Durante a campanha eleitoral, a Mancha informou que não indicaria voto em “nenhum candidato ao Executivo”. Durante a campanha, integrantes da Mancha cantaram na estação da Sé do metrô de São Paulo, para torcedores do São Paulo: “Ô bicharada, toma cuidado, o Bolsonaro vai mandar matar viado”.

Mas “o torcedor é muitos”, costumava dizer o escritor uruguaio Eduardo Galeano, um amante do jogo em que, apesar dos generais com suas ordens, de vez em quando alguns atrevidos ainda se lançam na “proibida aventura da liberdade”. Durante a campanha, outras torcidas organizadas do Palmeiras, ou “coletivos”, como a Palmeiras Livre e a Porcomunas, e dezenas de figuras públicas que são palmeirenses de coração, como o músico João Gordo e o economista e ex-presidente do clube Luiz Gonzaga Belluzzo, posicionaram-se “contra a onda fascista que se ergue e a sua nefasta representação eleitoral”, lembrando que o clube foi fundado por trabalhadores imigrantes, em 1914, sendo por isso, no passado, alvo de ataques xenofóbicos.

O pai de Bolsonaro deu ao filho o nome Jair em homenagem ao jogador Jair Rosa Pinto, um dos protagonistas do campeonato paulista de 1950, quando o Palmeiras, com Jair na capitania, sagrou-se campeão ao empatar com o São Paulo, o da “bicharada”, debaixo de um dilúvio bíblico no estádio do Pacaembu. Aquela partida ficou conhecida como o “jogo da lama”. Não choveu neste domingo, 2, sobre o Allianz Parque.

O gol de empate do Palmeiras no “jogo da lama”, o gol do título paulista de 1950, foi feito no segundo tempo por Aquiles, “o craque que Jair forjou”, como estampou em manchete um jornal da época, porque para marcar aquele gol recebeu lançamento de Jair Rosa Pinto. Atribui-se a reação palmeirense naquela partida aos berros dados no intervalo, no vestiário, por um Jair em fúria, de pulso firme, capitão enlameado da cabeça aos pés.

Jair da Rosa Pinto pendurou as chuteiras em 1964. Naquele ano, quando se despenduraram os coturnos para escantear o presidente João Goulart, Médici era o comandante da Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no sul fluminense. A Aman, de onde Bolsonaro saiu como aspirante a oficial em 1977; onde o futuro “capitão em chefe” do Brasil esteve no último sábado, 1º de dezembro, para prestigiar a formatura de novos cadetes, um dia antes de viajar para honrar e ser honrado pelo Verdão.

O momento do esculacho dado por Jair Rosa Pinto, no vestiário do Pacaembu, na final do Paulista de 1950 (Foto: Jornal Mundo Esportivo número 249, de 1º de junho de 1951)

O momento do esculacho dado por Jair Rosa Pinto, no vestiário do Pacaembu, na final do Paulista de 1950 (Foto: Jornal Mundo Esportivo número 249, de 1º de junho de 1951)

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

2 Opiniões

  1. José Miguel Dias disse:

    Engraçado, não sabia que o “ex-presidento”, hoje presidiário Lula, era militar, afinal nunca antes na historia deste país, nenhum sujeito usou tanto o futebol como meio de se autopromover, inclusive dando um estádio, construído com dinheiro público e suspeito de superfaturamento aos seus queridos “cumpanheiros” do “Curintians”!

  2. E. B. disse:

    Engraçado também, mas seu comentário só corrobora o artigo, José.
    Olha, uma bola! Vai pegar!

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *