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VIOLÊNCIA

A violência contra a mulher e o descaso de todo dia

Semana cheia de relatos de abuso sexual levanta polêmica de um descaso muito maior do que parece

A violência contra a mulher e o descaso de todo dia
Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil (Foto: Pixabay)

Segunda, terça, quarta, quinta-feira. Esta semana os relatos de abuso sexual foram intensos. Mas há muitos outros que ocorrem todos os dias que não chegam a ser divulgados por um simples motivo: o medo.

Resumo da semana

Na última segunda-feira, 28, a escritora Clara Averbuck relata no Facebook que foi estuprada no Uber. Clara diz que não sabe se vai fazer a denúncia. Em 2015, ela tinha escrito um texto falando sobre o descaso da Delegacia da Mulher para com sua amiga que havia sido agredida pelo companheiro e tentava registrar um Boletim de Ocorrência. Após seu relato no Facebook, Clara lançou uma campanha #MeuMotoristaAssediador, na qual várias mulheres relataram violência sofrida no transporte.

Na última terça-feira, 29, Diego Ferreira, 27 anos, é preso em flagrante dentro de um ônibus na Avenida Paulista, após ter ejaculado no pescoço de uma passageira. Menos de 24h depois, o agressor foi liberado pelo juiz José Eugenio do Amaral.  O juiz concluiu que o ato não seria estupro, mas sim uma contravenção penal, passível de punição com multa. “Na espécie, entendo que não houve o constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco do ônibus quando foi surpreendida pela ejaculação do indiciado”, disse na justificativa. O agressor já tinha passagens na polícia por suspeita de estupro.

Na última quarta-feira, 30, um homem passou a mão nos seios de Juliana de Deus, de 25 anos, dentro de um ônibus, também na Avenida Paulista. A polícia deteve o agressor.

Na última quinta-feira, 31, um homem é preso em flagrante após ejacular na perna de uma passageira dentro da estação Mato Alto do BRT, em Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro. O homem foi preso em flagrante.

A falta de sensibilidade e empatia

Não é de hoje que a violência contra mulher é vista com descaso por todos os lados. Não só pelas autoridades, mas por toda a sociedade, inclusive por outras mulheres. No ano passado, uma pesquisa do Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), revelou que um em cada três brasileiros concorda com a seguinte afirmação: “a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada”. A porcentagem de pessoas que concordavam com a frase era a mesma entre homens e mulheres. Mais uma amostra de que a cultura do estupro é forte no país e mais uma desculpa para o discurso de culpabilização da vítima.

Para piorar, a ironia e o descaso para com a vítima por pessoas que deveriam teoricamente prezar pela justiça é visível. O relato de Clara Averbuck em 2015 foi apenas um deles. Em maio deste ano, outro caso chamou atenção. Flávia Batista, moradora de Piancó, na Paraíba, foi denunciar uma agressão de seu ex-companheiro e foi perguntada pelo delegado se o machucado não foi causado pela porta do guarda-roupa ou por uma queda na escada. O delegado Rodrigo Pinheiro também não autorizou a medida protetiva que a vítima pediu. Ele avaliou que Flávia não corria perigo.

A Think Olga, ONG de empoderamento feminino, divulgou o texto #ViolênciaEmDobro no Facebook, falando justamente sobre como a mulher está sujeita a sofrer uma nova violência quando decide denunciar seu caso às autoridades. “Sempre incentivaremos a denúncia, mas destacamos que isso não depende somente da vítima e não deve ser um fardo para ela, nem mesmo uma razão para julgá-la. Assim como a mulher jamais será culpada pela agressão que sofreu, também não deve ser culpada por não confiar em um sistema judicial que ainda vê casos de violência de gênero sem comprometimento e seriedade. Se #MexeuComUmaMexeuComTodas, esta #ViolênciaEmDobro viola o direito de proteção das mulheres, as coloca como seres sem valor na sociedade. E, para nós, isso deixa claro onde os esforços de ativistas e instituições feministas devem ser direcionados a fim de mudar este cenário”, diz o texto.

Segundo estatística da FBSP divulgada em 2016, uma mulher é estuprada no Brasil a cada 11 minutos. Portanto, as mulheres que sofreram violência segunda, terça, quarta e quinta-feira desta semana são apenas uma pequena amostra do que acontece todos os dias, enquanto nada mudar.

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3 Opiniões

  1. laercio disse:

    Os absurdos no Brasil são os mais diversos mas não há divulgação certamente para não despertar a revolta do povo. Assim todos vão vivendo enganados como sempre!
    Não apenas contra a mulher mas há uma banalização do abuso por falta de punição contra marginais.
    Logo o episódio do ônibus cairá no esquecimento; doutrinaram a sociedade brasileira para ser eficiente no esquecimento!
    Nos estimulam a usar o cérebro muito mal.
    Só jogam lixo sobre o povo, nada de programação de qualidade; resultado: um povo que não pensa e aceita tranquilamente receber ejaculadas dentro de ônibus… Se a moda pegar logo será em restaurante, igrejas, etc…

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    O juiz que disse a mulher que nada veio a acontecer pois o estuprador foi seu próprio marida, ele diz isso pois não foi com sua filha que isto aconteceu. A lei Maria da Penha não vem sendo respeitada e esse negócio de audiência de custódia é para não enviar esses vermes para a cadeia que se encontra super-lotadas.

  3. Carlos Valoir Simões disse:

    A pergunta é tendenciosa, pois as pessoas são induzidas a concordar com a primeira proposição, “usar roupa provocativa”, sem se dar conta que é uma falácia: colocar “roupa provocativa” na vovozinha não vai fazê-la ser estuprada.
    A conclusão não poder reclamar se for estuprada também é uma proposição falaciosa, pois isso não existe.
    Se fizessem a pergunta corretamente a totalidade das pessoas concordariam, mas daí não ficava bom o discurso. Nem a estatística.

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