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MÃOS À OBRA

Voluntários a serviço da moradia digna

Conheça o trabalho de organizações que, através do voluntariado, trabalham para fornecer moradia digna a quem necessita

Voluntários a serviço da moradia digna
A carência de moradia digna é um dos mais graves problemas do Brasil (Foto: Pinterest)

A volta para casa após uma jornada de trabalho cansativa costuma ser o ponto alto do dia de muitos brasileiros. É no conforto do lar que nos dedicamos a tarefas prazerosas, como ler um livro, assistir um filme, brincar com os filhos ou arriscar uma nova receita culinária.

A satisfação de estar em casa é algo tão natural que, por vezes, passa despercebido o fato de que milhões no Brasil não contam com uma moradia digna, capaz de passar a sensação de segurança e refúgio necessária a qualquer ser humano.

Em 2010, quando foi realizado o último censo do IBGE, o Brasil tinha mais 11 milhões de pessoas vivendo em favelas ou moradias precárias. É provável que este número tenha aumentado por conta da crise econômica e do avanço no desemprego.

Embora, a moradia digna seja um direito garantido pela Constituição, bem como o dever dos governos federal, estadual e municipal de “promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico”, a  carência de moradia digna é um dos mais graves problemas do Brasil.

Moradores participam de todas as etapas do processo (Foto: TETO)

É pensando em mudar este cenário que voluntários de duas organizações se mobilizam em prol do direito à moradia digna. Um deles é o TETO Brasil, uma organização internacional que atua em defesa do direito à moradia na América Latina e no Caribe. A organização está presente há dez anos no Brasil e atua em cinco estados: São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Paraná e Minas Gerais.

Em entrevista ao Opinião e Notícia, a coordenadora de mobilização comunitária da TETO-RJ, Carolina Thibau, explica que a organização se dedica à defesa dos direitos das pessoas que vivem nas favelas mais precarizadas dos centros urbanos, das cidades. Isso envolve não só a construção de moradias, mas também o incentivo à formação política e cidadã dos moradores e voluntários envolvidos no processo.

“A gente está sempre buscando trabalhar na linguagem dos direitos, nosso trabalho não tem um viés assistencialista. Ele é baseado na participação cidadã e na formação de um voluntariado crítico e propositivo, que entenda como a sociedade se estrutura, como as injustiças e a desigualdade social e territorial foram construídas historicamente no nosso país e qual o seu papel dentro desse contexto de injustiça, exclusão e violação de direitos das pessoas que vivem nessas comunidades”, explica a coordenadora.

Antes e depois de um campo de futebol reformado (Foto: TETO)

O trabalho consiste em diferente áreas de atuação. A equipe de diagnóstico regional é responsável por levantar dados sobre as favelas existentes no estados e mapear as que estão em situação de maior vulnerabilidade. Para isso, é analisado o IDH, as condições de renda da população, de moradia, o acesso à infraestrutura e aos serviços básicos, como educação saúde. Uma vez selecionada a comunidade, é realizado um mutirão de visitas e conversas com lideranças locais para um diagnóstico da comunidade. Em seguida, projetos são apresentados para validação de lideranças locais. Por fim, há uma assembleia para apresentar o projeto aos moradores, que devem consolidar a atuação da organização, mediante um abaixo assinado, para que o trabalho dos voluntários seja iniciado.

Além das moradias, a organização também busca soluções em relação ao direito ao território, através de reforma de algum espaço coletivo da comunidade. “Isso a gente consegue através de financiamento e de apoio de outras organizações. Obviamente as soluções mais complexas de infraestrutura de esgoto, água, iluminação pública, transporte coletivo, coleta de lixo são uma problemática ainda maior que a gente precisa pressionar o estado. É buscar trabalhar realmente em conjunto, sem ausentar o poder público da sua participação no processo”, diz Carolina Thibau.

Organização está presente no Brasil há dez anos (Foto: TETO)

Segundo a coordenadora, é nesse contexto que entra a formação política e cidadã, para que “os próprios moradores entendam quais são seus direitos e como se mobilizar para reivindicá-los”. “A gente tem esse papel complementar enquanto uma organização, enquanto terceiro setor, mas também a gente não quer ignorar que o Estado também tem que cumprir esse papel e garantir os direitos básicos dessas populações”, explica Carolina.

A maior parte do material usado no trabalho é comprado pela própria organização, que levanta fundos através de doações mensais para o programa Amigos do TETO. “A maior parte do material nós compramos. São casas pré-fabricadas. Atualmente, a gente só recebe doações de alguns insumos menores, como os pregos, que a gente recebe doações da Gerdau, e as tintas, que a gente recebe da Suvinil. Todo o resto do material a gente compra”, explica Carolina. Outro formato de financiamento são parcerias com empresas e escolas e eventos pontuais para arrecadação.

Segundo Carolina, a construção da casa significa somente o passo de um processo muito maior. “A construção da casa significa um primeiro passo para a continuidade das lutas dessas famílias por dias melhores, por outras conquistas”.

Para participar da organização é preciso ter mais de 18 anos. Adolescentes entre 16 e 18 anos são aceitos, mas com algumas restrições. Aqueles que não podem se tornar um voluntário fixo podem contribuir através de doações. “São todos muito bem-vindos”, diz Carolina.

Todo processo do projeto H2O é feito com trabalho voluntário (Foto: H2O)

Outro que trabalha em prol do direito à moradia é o projeto H2O, um projeto com sede em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, que tem como missão transformar a qualidade da moradia das famílias em situação vulnerável.

“Nós identificamos as famílias mais necessitadas da região, e, em um processo que envolve vários voluntários, como assistentes sociais, psicólogos, terapeutas e conselheiros de família, apontamos a família cuja casa será a próxima casa a receber o projeto. Uma equipe de arquitetos, profissionais da construção e conselheiros de família, identificam os maiores problemas e riscos das construções e escolhem a família mais necessitada”, explica ao O&N Thaize Coelho, coordenadora do projeto H2O. Segundo ela, as principais necessidades detectadas são saneamento básico, água, esgoto, vala a céu aberto e problemas estruturais nas construções.

Cada projeto tem participação média de 80 voluntários (Foto: H2O)

O foco do projeto é a Comunidade da Manchete, localizada no Bairro Boa Vista e bairros vizinhos de São Gonçalo. Segundo Thaize, uma média de 80 voluntários participa de cada projeto, que capta recursos através de doações e venda de artigos produzidos pelos voluntários.

“Todo o processo é feito com trabalho voluntário, não temos apoio de outras instituições. A nossa equipe de trabalho é segmentada, com isso temos uma área específica para arrecadação. Montamos uma estrutura para captar recursos de diferentes formas, inclusive através do H2O Project, no qual produzimos itens para venda”, explica Thaize Coelho.

A inauguração da última casa reformada pelo projeto H2O ocorreu na semana passada. Agora, os voluntários participam de quatro semanas dedicadas ao Natal. Durante todo o mês de dezembro, eles acompanham famílias da comunidade e distribuem produtos para ceia natalina na última semana do mês.

Thaize afirma que garantir o direito à moradia digna, com acesso a saneamento básico, bem-estar e ambiente saudável promove a cidadania, a autoestima e renova a esperança de um amanhã melhor. “O feedback é sempre positivo. Recebemos amizade, gratidão e parceria. Os relacionamentos são estreitados e consolidados. Isso não tem preço”, finaliza a coordenadora.

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2 Opiniões

  1. Olga Teixeira de Almeida disse:

    Excelentes trabalhos os desses jovens arquitetos. Um alento pra esse povo do Rio tao sofrido.Principalmente nesse momento de falência de tudo no nosso estado. Fico orgulhosa de ter minha sobrinha Carolina na coordenação de um trabalho de tamanha importância. Parabéns a todos.Muito obrigado por tudo que está sendo feito. Como posso colaborar também?

  2. Cristina Tartarelli disse:

    Somos um grupo de arquitetos que está buscando se organizar para coletar itens retirados de reformas e sobras de materiais, inclusive bancadas de banheiro e cozinha, louças e metais sanitários, esquadrias ee aluminio inteiras, portas e guarnições… de maneira sistemática e organizada para atender a projetos comunitários ou habitação popular, além de reduzir o entulho e oa danos ao meio ambiente.
    Gostaríamos de viabilizar parcerias com instituições que estejam atuando na outra ponta da cadeia para dar o melhor destino a estes itens

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