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Ao sair da "Centraal Station" de Amsterdam, o viajante se depara com um emaranhado de trilhos das linhas de bonde que, procedentes de vários pontos da cidade, afluem para a grande praça, ponto nevrálgico de uma das cidades mais descontraídas da Europa.
Com centenas de ciclistas pedalando pelas pistas exclusivas em todas as ruas, com outro tanto de transeuntes preenchendo o espaço por vezes estreito que lhes é destinado, o mais surpreendente nessa vibrante cidade é a quietude. Para quem mora em São Paulo ou no Rio, essa quietude é um contraste gritante com tamanha movimentação de bicicletas, pedestres e bondes, reflexo de uma intensa atividade que preenche plenamente o desejo de quem chega a Amsterdam em busca de uma programação cultural de primeira linha, o que de certo modo combina com a liberalidade de hábitos e costumes existentes. De fato, logo à esquerda e além da imensa praça pode-se encontrar o "red light district", região onde a dignidade das "sex workers" é restituída, até com um marco erigido ao lado da igreja Oude Kerk (Igreja antiga).
Também à esquerda de quem sai da Centraal Station fica a rua Prins Hendrikkade onde se localiza um hotelzinho de 3 estrelas com intensa circulação de hóspedes na pequena recepção. Ao lado esquerdo da parede externa está fixada uma placa de bronze com a figura de um trompetista e, logo abaixo, um breve texto suficiente para elevar esse hotel à categoria de visita obrigatória para um jazzista. A placa do Hotel Prins Hendrik diz: Trompetista e cantor Chet Baker morreu aqui em 13 de maio de 1988. Ele viverá por sua música para todos que a desejarem ouvir e sentir.
Quando Chet caiu de uma janela no terceiro andar desse hotel, acabou-se uma das trajetórias mais bem sucedidas e trágicas da história do Jazz. Entre os dois extremos ele desfrutou de tudo que um jazzista branco de rosto lindo pode almejar como músico e como homem, idolatrado pelas mais formosas mulheres que dele se aproximavam como abelhas do mel. Chet deu ao mundo uma das mais belas sonoridades cool no Jazz. Em duas vertentes que, no seu caso se cruzam: a instrumental e a vocal. Um músico canta uma canção como quando toca um tema.
Depois de ouvir Chet Baker algumas vezes em New York nos anos 50, já fora do contexto do Gerry Mulligan Quartet, depois de não vê-lo certa vez no New Morning de Paris (à última hora a apresentação foi cancelada sem justificativa), finalmente o conheci pessoalmente em 1985 na primeira e única vez em que esteve no Brasil, durante o primeiro Free Jazz Festival. Assim que percebi ser ele que caminhava pelo corredor do teatro no Hotel Nacional na escuridão da platéia durante um show, levantei-me e fui ao seu encontro. Disse-lhe baixinho que era uma figura idolatrada e importante para a Bossa Nova, o que o surpreendeu. Fitou-me parecendo não ter bem idéia de que isso tivesse ocorrido. No entanto todos da Bossa Nova ouviam os discos de Chet Baker tocando e cantando.
Marcamos uma entrevista realizada no dia seguinte à beira da piscina, na qual ele contou-me da mágoa que ainda tinha de Mulligan quando atuava no quarteto sem piano e já era um músico consagrado. Tinham gravado 6 discos durante os 11 meses em que trabalharam juntos e Chet, que o público não conhecia um ano antes, era agora o numero 1 no Jazz. Pedia ao líder que elevasse de 120 para 300 dólares seu salário semanal. Não foi atendido e puxou o carro. Aí se inicia a carreira solo de Chet Baker. Formou um quarteto com o pianista Russ Freeman, gravou um disco cantando com orquestra de cordas que deixava embasbacado quem quer que o ouvisse e "My funny Valentine" passou a ter um único dono.
No dia seguinte avistei Chet na entrada do hotel aguardando um táxi que o levaria ao estúdio carioca "Nas nuvens" onde gravaria o restante de um disco iniciado na Itália. Estava sozinho, parecia solitário e desamparado, uma figura frágil carregando a caixa do trompete. Comigo Chet fora uma pessoa doce. Falava baixinho e delicadamente, dava a impressão de cair desmontado ao chão se lhe aplicassem um peteleco. Esse era um lado da moeda. Sua vida foi uma sucessão de trapaças e cenas da mais chocante crueldade. A delicadeza de sua música nada tem a ver com a violência em que vivia Chet Baker imerso no mundo das drogas. Para uma de suas mulheres Chet era a encarnação do demônio. Suas ligações envolviam músicos, empresários, aproveitadores, escroques, traficantes, viciados e, naturalmente, mulheres. Todas em alto grau de agressividade ou de carinho.
O mais completo e também mais controvertido livro sobre Chet Baker foi publicado no Brasil em 2002: "No fundo de um sonho" de James Gavin. A controvérsia não é gerada pela fartura de detalhes sobre sua vida mas pela concentração do texto sobre sua marginalidade em prejuízo da arte que legou.
As teorias sobre a forma de sua morte – acidente, suicídio ou crime – jamais foram rigorosamente desvendadas. Segundo Gavin, Chet Baker morreu intencionalmente "num derradeiro gesto romântico da parte de alguém que às vezes parece demoniacamente inumano".
A placa de bronze nada revela.