Início » Cultura » A Casa de Bernarda e Une Sorte de…, de Mats Ek
Crítica de dança

A Casa de Bernarda e Une Sorte de…, de Mats Ek

Fui conferir a apresentação do Ballet da Opéra de Paris, com duas coreografias de Mats Ek: A Casa de Bernarda e Une Sorte de… Por Francisco Taunay

A Casa de Bernarda e Une Sorte de…, de Mats Ek
Une sorte de... (Fonte: artsalive.ca)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Paris na primavera é o máximo. A cidade, além da beleza monumental, como uma obra de arte à céu aberto, que reflete a grandiosidade da civilização dominante da Belle Epoque, é dominada pela cultura, pelos espetáculos dos mais variados tipos. Fui conferir a apresentação do Ballet da Opéra de Paris (na própria Opéra, que parece a mãe gigante do Teatro Municipal), com duas coreografias de Mats Ek: A Casa de Bernarda e Une Sorte de…

Mats Ek é um coreógrafo sueco que ficou famoso por fazer releituras contemporâneas de balés clássicos como Giselle, Copélia e Lago dos Cisnes. Fez também trabalhos de dança em vídeo, com a bailarina virtuose francesa Sylvie Guillem. Em seus trabalhos, a dança se mistura com o teatro de uma forma que confunde a platéia. Muito do que acontece na arte contemporânea é uma mistura saudável dos variados tipos de arte.

Vi em Mats Ek dois lados, dois caminhos diferentes, uma vez que foram apresentadas coreografias muito distantes em sua criação, na carreira deste gênio da dança sueco. A primeira, de 1978, é inspirada na obra de Federico Garcia Lorca, A Casa de Bernarda Alba. Tem uma composição contemporânea, através dos figurinos, posicionamentos e diversos aspectos da coreografia, mas é ainda muito atrelada à dança clássica, com giros, piruetas e proménades na sapatilha de ponta.

Garcia Lorca, fuzilado em 1936 pelos agentes de Franco, apenas dois meses após realizar a leitura desta peça, é um dos maiores poetas da humanidade, e cria Bernarda Alba como um libelo contra o fascismo: Uma orgulhosa viúva obriga suas cinco filhas a permanecer fechadas para a vida, lamentando a morte do pai. As meninas somente podem sair para ir a igreja, com seus rostos ofuscados por véus. Dentro de casa, as relações são as mais complexas, ora silenciosas, ora explosivas, com a tirania de Bernarda como linha de força principal. O suicídio da filha caçula, que havia se rebelado contra a repressão sexual imposta pela mãe, se apaixonando por um rapaz que acaba morto pela megera, é o clímax da peça, que causa uma reviravolta nas relações de poder.

A limpeza cênica, com poucos elementos como um busto, uma mesa, e uma poltrona, assim como o chão branco, que é enquadrado pela iluminação de extrema simplicidade, além da clareza gestual dos bailarinos, impressionam de forma notável. Fiquei maravilhado com essa capacidade corporal, que por meio da dança pode produzir e reproduzir tantos significados. Mas meu gosto contemporâneo implica com a presença do ballet clássico, que tira pela metade a honestidade dos artistas.

Após o intervalo, no entanto, pude ver a outra face de Mats Ek: Une Sorte de… (Um Tipo de…, em tradução livre), de 1996, é uma obra completamente contemporânea. Ela traz a estética surrealista urbana tão própria do coreógrafo, que transforma gestos e objetos cotidianos em elementos excepcionais. Ele é como um Magritte da dança, utilizando a fantasia para revelar uma decadência urbana. Diferente de Salvador Dalí, que leva a fantasia ao delírio do sonho, Magritte usa a fantasia para nos tornar atentos à realidade.

Neste espetáculo, um grande muro compunha o cenário, apenas com uma porta para o público. Em muitos momentos a cena se passava atrás do muro, em outros, os bailarinos pulavam o muro como fugitivos, mulheres grávidas morriam com um estouro de balão de festa, enquanto oficiais nazistas marchavam ao redor_ o lírico e o trágico em uníssono.

Nesta coreografia, a inteligência criativa do autor se revela: Sem se utilizar em nenhum momento dos pré-estabelecidos passos de ballet, Mats Ek constrói figuras insólitas com os corpos; é às vezes vezes frio e geométrico, outras vezes humano e natural. E sempre com uma clareza magnífica dos movimentos, mas sobretudo contribuindo para uma nova visão do poder, da relação entre os homens.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *